terça-feira, 17 de maio de 2022

´FÁTIMA A RELIGIOSIDADE POPULAR E PAULO FREIRE

 

Fátima arrasta multidões de todas as partes do mundo, em particular no mês de maio.Muito se


escreveu e ainda escreve sobre o fenómeno religioso que movimenta comerciantes, peregrinos e turistas.Todavia, não existe muita investigação sobre Fátima enquanto fenómeno de religiosidade popular.

A este propósito lembramos uma intervenção de Paulo Freire numa reunião com militantes da BASE-FUT alguns meses após o 25 de Abril e que ficou registada na publicação «Alfabetização e consciencialização»das edições BASE e agora republicada no livro «Paulo Freire-centenário:um educador no mundo das edições Outro Modo:

Religiosidade popular é problema muito sério

«PAULO FREIRE-Essa questão religosa popular é um problema muito sério.De um modo geral,só damos atenção considerando a religiosidade popular como algo inferior, como uma distorção da nossa própria forma de religião, e isso é errado.

Agora, por exemplo dez dias atrás, eu estava no Caribe(Caraíbas) onde a religiosidade popular é extensissima e há uma série de estudos científicos sobre essa religiosidade.Mas eu trouxe para casa uns estudos feitos, por exemplo na República Dominicana, onde talvez o indice de religiosidade popular seja só menor do que no Haiti,mas é profundamente intenso- e também na Jamaica.E eu li um artigo-estudo feito por um pároco.Conta um facto que ele não podia compreender, que era exactamente o seguinte:espalhada no povo há uma crença na existência de um Deus bom, ou um Deus do bem e um Deus do mal- que é exactamente a dicotomia que existe entre nós, entre o Deus e o Diabo (o Papa o ano passado disse que que o grande problema do mundo é o diabo-pro diabo o problema do diabo;diabos são os pinochets..).

Uma senhora conversando com ele disse que tinha um menino (ela tinha oito filhos), o marido desempregado,ela tinha tido o nono filho fazia vinte dias.E disse ao padre, para convencê-lo da existência de um Deus do bem—não tenho dinheiro para alimentar os filhos e eu pedi ao Deus do bem que me mandasse naquela noite um homem bom, um homem que paga bem (o marido sabia disso, mas aceitava essa coisa como trabalho, era um emprego,um meio de manutenção;os filhos é que não sabiam).Ela disse:depois que eu acabei de orar,de pedir ao deus do bem que mandasse um homem bom eu fui para a rua.E, de repente,para um carro com um homem que me chama.Eu entro no carro  e ele estava meio embriagado.

Eu contei a ele que havia feito uma oração ao Deus do bem.E então, disse ela, o homem me teve no carro mesmo e depois me deu um dólar (na República Dominicana vale um dólar americano dois dólares dominicanos, é um dinheiro forte).Então o homem deu a ela uma cédula de dez dólares (portanto cinco dólares americanos) o que é um dinheirão, e depois deu mais uma cédula de um dólar e disse:«os dez dólares são para ti e um dólar é para que tu vás de carro para casa».E ela desceu do carro dele, chegou debaixo do poste de luz,olhou as duas cédulas e o homem tinha-se equivocado no escuro.A cédula de dez dólares era de cem e a de um era de dez.Então na verdade o homem deu a ela 110 dólares.Acabando de contar esta história ao padre, perguntou: existe ou não existe um Deus do bem?Foi o Deius do bem que me fez isso.Me botou aquele homem bom naquela noite, que me deu 110 dólares e com isso eu não precisei de faze isso durante mais de um mês, porque tive leite para o filho..

 Religiosidade popular e transformação das estruturas sociais

Quer dizer, o equívoco dos cristãos, católicos ou protestantes, não importa, é pretender lutar contra esta religiosidade, sem transformar as estruturas sociais que explicam essa religiosidade.

Não adianta chamar a atenção dessa mulher para a distorção duma autêntica perspectiva cristã, se você,ao mesmo tempo, não trabalha com ela e não testemunha a ela o seu engajamento no processo revolucionário de liquidar com o capitalismo.

Eu te confesso, me recuso a fazer isso;quer dizer, e me sinto com autoridade de ,se conversasse com uma mulher dessas, respeitando a sua fé,discutir a minha fé com ela, porque,ao mesmo tempo, eu dizia:agora vamos discutir a nossa fé do ponto de vista político.Onde é que a minha fé em Cristo me leva?A minha fé em Cristo me leva à revolução e não a reformas.A minha fé em Cristo me leva a um processo revolucionário e não às missas dominicais, apenas.Então eu me sinto com autoridade de falar.

Vocês, pelo amor de Deus, não se metam a fazer críticas à religiosidade popular se,ao mesmo tempo,não estão engajados no processo de justicialização do mundo,porque senão não tem nenhum sentido.

A expressão da religiosidade popular está eminentemente vinculada com as estruturas de dominação.E o que acontece é o seguinte:é nessas áreas de dominação que essa expressão popular da religiosidade se apresenta com formas misturadas com o catolicismo ou com o protestantismo, mas buscando uma autenticidade da classe dominada, é a prova precisa da falha da Igreja, é que as classes dominadas já não encontram na Igreja o testemunho de autenticidade cristã e então se afogam noutro tipo de religiosdade que para elas é excatamente o escape.

Na Jamaica há uma religiosidade, uma religião popular que tem uma força hoje tão grande na ilha, no país, que o actual primeiro ministro se elegeu politicamente , exactamente baseado na religião popular.E essa religião popular da jamaica tem uma força fantástica na área popular da Jamaica...»

 

 

quinta-feira, 12 de maio de 2022

ASSÉDIO MORAL NA UNIVERSIDADE! ASSUNTO MUITO GRAVE!

 

Os casos recentes da existência de assédio moral na Faculdade de Direito de Lisboa e no Instituto


Superior Técnico mostram que certamente este risco para a saúde mental e física dos alunos será mais vulgar do que se julga.Esta realidade merece toda a atenção do governo ,nomeadamente do Ministério responsável pelo ensino superior,bem como de outras instituições civis como os sindicatos e outros movimentos cívicos.

Assim , para além dos necessários inquéritos a fazer para dar seguimento às queixas,por entidades independentes e não apenas pela universidade, será necessário desenvolver medidas concretas de prevenção e proteção dos alunos, trabalhadores e professores das universidades.Sim ,porque o assédio quando existe é também sinal de uma determinada cultura de exercício do poder, da existência de alguma impunidade que leva as vítimas ao silêncio.

Neste sentido as diferentes faculdades do País deveriam instituir mecanismos concretos de prevenção,nomeadamente códigos de boa conduta para a prevenção do assédio moral previstos  na Lei 73/2017 para o mundo laboral mas que podem ser adaptados para o mundo do ensino superior.

Estes códigos devem ser o fruto de um amplo debate entre os professores, alunos e trabalhadores sobre a realidade do assédio moral e sexual e das suas penosas consequências para as vítimas.Ou seja, é necessário penalizar os predadores e criar uma cultura organizacional nas faculdades de tolerância zero para o assédio.

O assédio moral tem levado pessoas á destruição total,quer física, quer mental, inclusive ao suicídio.É algo muito sério e não pode ser tratado com a leviendade que, por vezes, ocorre no nosso País.Numa universidade é especialmente perigosa a existência de assédio pois a vítima, o jovem estudante e futuro trabalhador, experimenta algo que poderá ocorrer no seu futuro emprego e pode continuar a sofrer sem ter meios para superar a situação.O assédio como prática reiterada, inclusive como método de gestão e de exercício do poder, é um crime,pois aytenta contra a vida da vítima.

Neste quadro é importante a existência de mecanismos internos de comunicação de situações de perigo , bem como de canais de denúncia de situações susceptíveis de ação disciplinar, garantindo a confidencialidade dos processos e a inexistência de represálias sobre denunciantes e testemunhas. Não havendo um serviço de segurança e saúde na faculdade, um órgão com competência jurídica e multidisciplinar junto do Reitor  seria uma hipótes de trabalho.

O Movimdento Sindical tem necessáriamente de colocar esta questão no centro das políticas de prevenção e de formação dos sindicalistas.

 

 

 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

UM PROGRAMA DE GOVERNO DE CONTAS CERTAS|

 

O programa de governo PS com 180 páginas é um documento ambicioso e de «contas certas», ou seja de austeridade.Nos anteriores, com aliança à esquerda,os programas eram de contas certas mas de recuperação de rendimentos e ,por vezes, com um aumentozinho.É a maioria parlamentar e os seus efeitos positivos para quem tem pão suficiente na mesa  e prioriza a seguraça e estabilidade e os efeitos negativos para quem já estava aflito e mais aflito vai ficar com esta


inflação que pode chegar aos 6% ou mais.

Claro que a pandemia, a guerra na Ucrânia e os aumentos das matérias primas e da energia servem de argumento forte para se juntar às «contas certas» a recusa de aumentos de rendimentos que foi sempre um objectivo apregoado da «geringonça»que será de boa memória.

Claro que o Programa será para os próximos anos e o Governo diz apostar na valorização salarial mas lá mais para a frente porque agora novos valores se levantam.Mas será que a situação de crise vai passar ou nos próximos anos vamos ter tempos difíceis?

Aumentos de salários é antidoto contra a austeridade

Com este aumento extraordinário dos preços seria muito importante que se efectuasse um aumento geral de salários, incluindo os dos funcionários públicos, para enfrentar este choque inflacionista que afecta os mais pobres com destaque para os trabalhadores e pensionistas .Ao congelar mais uma vez os salários dos funcionários públicos o Governo está a dar um sinal ao sector privado no sentido de congelamento geral de salários ou de uma valorização muito aquém do necessário face à taxa de inflação do nosso País.Serão as classes mais pobres que irão sofrer mais com os custos da pandemia e da guerra da Ucrânia.

 Tal como nos anteriores programas o actual valoriza de forma ambiciosa quer a transição climática quer a digital bem como a revitalização demográfica.Nota-se que os redactores do programa são devotos da digitalização que encaram como  o «abre latas» de muitos dos nossos constrangimentos.Não vislumbram ou não querem vislumbrar que a digitalização está a aprofundar a clivagem geracional e social.Uma grande parte da população não se sabe mexer neste quadro de digitalização com balcões digitais, facturas electronicas,formulários electrónicos etc.

 Acreditam piamente  que os fundos europeus da «bazuca»vão proprocionar saltos qualitativos fantasticos no País!Será que acreditam ou muito do que se escreve não passa de veia tecnocrática?É uma crença semelhante á que ainda alguns têm sobre a educação como o grande instrumento de combate às desigualdades,esquecendo que temos tanta gente licenciada a ganhar o salário mínimo!

Mais uma vez o trabalho é desvalorizado!

Mas nos grandes objectivos do Programa o trabalho aparece mais uma vez como o parente pobre e subsidiário da economia e da demografia.Isto apesar de estar incluída novamente a «Agenda do trabalho Digno», ou seja um conjunto de medidas de regulação do «mercado de trabalho» que, embora importantes, não tocarão no essencial daquilo que foi revertido no tempo da Troica e deu mais poder às empresas e dinheiro aos empresários.

Do pouco que ali se escreve vai umas generalidade do costume esquecendo por exemplo a importância da melhoria das condições de trabalho e que a sinistralidade laboral está novamente a aumentar como, aliás, acontece em Espanha e Itália.Refere-se que se avançará para uma Estratégia Nacional para a segurança e saúde no trabalho mas sem lhe dar conteúdos fundamentais, deixando tudo para os técnicos do Ministério como se a pandemia tivesse sido noutro planeta.

Pela pessoa que continua no Ministério do Trabalho e pelo programa para esta área vamos ter política de continuidade,  sem a pressão da esquerda parlamentar, agora mais enfraquecida.

Mas, há indícios de que os tempos serão conturbados .Se o governo não controlar a inflação com mecanismos económicos e sociais nos próximos meses vai ter que enfrentar a médio prazo a luta social que entretanto se organiza.Sendo verdade que os sectores operários como os têxteis, construção e metalurgicos estão hoje enfraquecidos , os sectores da Função Pública como professores, médicos e enfermeiros e transportes ainda podem dar luta.Num quadro de crise a estes sectores ainda se podem juntar outros precarizados, desempregados e estudantes que irão sentir a vida a piorar de dia para dia.

Pelo que ouço em vários sectores sindicais, incluindo a UGT,esta situação não é aceitável.Será que os sindicalists socialistas não têm aqui uma palavra a dizer neste programa?Ou isto está assim tão mau!Pelo menos critiquem,não se calem!

terça-feira, 12 de abril de 2022

SILENCIAR E HOSTILIZAR OS SINDICATOS É MAU PARA A DEMOCRACIA!

 Em Portugal há sinais evidentes de silenciamento e hostilidade para com os sindicatos e outras


organizações de trabalhadores.Vou referir apenas alguns desses silenciamentos hostis para com as organizações de trabalhadores.Nos discursos políticos do governo e outros órgãos de soberania quase nunca se referem os sindicatos mas sim outras entidades como as empresas e instituições académicas.Em geral estão incluidos no conceito de economia e empresas.Ou seja, intencionalmente ou não, os sindicatos aparecem cada vez menos como entidades autónomas da sociedade e da democracia.Não seria de esperar outra coisa dos partidos da direita liberal ou conservadora.Mas dos socialistas não seria de esperar e mostra bem que estes em matéria económica estão tocados pelo neo-liberalismo.

Na comunicação social , nas mãos de grupos económicos com jornalistas precários,o sindicalismo quase se eclipsou.Mesmo entidades com grande peso social e político como a CGTP quase não são referidas ou apenas com breves e nublosas notícias.O próprio trabalho já não tem autonomia e está incluído claramente na economia.Os empresários são referidos como os criadores de riqueza que dão emprego como de uma esmola se tratasse a trabalhadores mendigos!

Silenciamento e hostilidade nos locais de trabalho

Mas o mais grave é o silenciamento e hostilidade em muitas empresas e até nos locais de trabalho do Estado.Temos chefias e direcções de serviços públicos que são claramente hostis aos delegados sindicais e colocam em causa a sua actividade.Lembro que em tempos até a própria UGT apelava aos empresários para facilitarem a ação sindical.Na OIT existem algumas queixas nesta matéria e nos inquéritos e estudos Portugal aparece como um dos países com pior, ou até a pior, participação a nível político e social.A precariedade é grande e a sindicalização diminui.A CGTP denuncia frequentemente ações hostis à actividade sindical nas empresas.Na própria negociação colectiva, e em concreto nas propostas feitas, nota-se por vezes que existe má- fé e achincalhamento dos negociadores sindicais.

Hoje um sindicato pede uma reunião a uma entidade patronal pública ou privada e pode ter que esperar uma semana ou mais para ser atendido sem ter a certeza de que o farão.Se um qualquer empresário de nome sonante solicita uma reunião será atendido ao outro dia.Sindicalistas de vários quadrantes queixam-se de desprezo e perseguição mais ou menos subtil.

Ora, o silenciamento é uma forma de hostilidade imperdoável numa sociedade que se quer  democrática com uma maioria parlamentar socialista.A maioria dos dirigentes do PS quase têm medo de falar nos trabalhadores e nos sindicatos.Alguns nem conhecem que o Partido Socialista é o primeiro partido que nasceu com as associações de classe, com o Movimento Operário e Sindical Português e que tem quase um século e meio de história.

As negociações ao nível da Administração Pública com governantes do PS são, por vezes, uma anedota quando as convenções da OIT e a legislação nacional prevê direitos iguais para os trabalhadores públicos.

Em democracia as organizações de trabalhadores são fundamentais

Numa sociedade democrática as organizações de trabalhadores são instituições fundamentais a nível económico, social e político.Não podemos chamar democrática a uma sociedade que silencia e hostiliza o Movimento Sindical tenha ele a côr que tiver, a nosso gosto ou contra o nosso gosto.Há que combater esta situação perigosa que leva ao autoritarismo e ao corporativismo.

O primeiro combate é dos próprios sindicatos que não podem aceitar esta situação.A luta por um sindicalismo autónomo é uma proridade para dar credibilidade ao Movimento Sindical e afirmar-se como uma entidade social e política não partidarizada. Mas os dirigentes sindicais com peso nos partidos políticos também devem lutar para sensibilizar os seus companheiros de partido para esta situção não democrática.

A valorização dos sindicatos e  outras organizações de trabalhadores numa sociedade democrática é muito benéfica para a própria sociedade que tende a ser mais justa, mais produtiva e onde os trabalhadores desfrutam de mais saúde e bem estar.Ignorar os sindicatos e retirar-lhe credibilidade é claramente um objectivo que serve interesses obscuros,bem como a concentração da riqueza nas mãos de alguns e estratégias autoritárias a prazo.

É assim fundamental que na «Agenda do Trabalho Digno», novamente incluída no programa do governo, o direito á ação sindical e à negociação colectiva sejam mais bem protegidos.

segunda-feira, 28 de março de 2022

PODE CADA UM DE NÓS SER UM SINDICATO?

 

Recentemente participei num seminário sobre digitalização da economia e trabalho digno


promovido pela BASE-FUT, Organização históricamente ligada ao mundo do trabalho e do sindicalismo.O programa do seminário incluia uma visita a uma empresa digital cujos 250 engenheiros eram tratados por «colaboradores» e não por trabalhadores e que nos foi apresentada como empresa modelo, excelente para trabalhar,com flexibilidade de horários, onde as relações  laborais eram de tal modo personalizadas que quase não era preciso um quadro legal, nomeadamente a mais recente legislação sobre teletrabalho e a «obrigação a desligar».

Trabalham por objectivos e cada um é considerado nas suas particularidades;se um quer trabalhar mais de manhã e estar com o filho ou filha à tardinha pode fazê-lo;se um quer fazer ginásio ao meio dia dispõe de tempo e equipamento para o efeito.O importante, segundo os  gestores, é que os objectivos definidos sejam sempre alcançados ou superados.

A ideologia da colaboração reforça o poder empresarial e atomiza os trabalhadores

Quando confrontado com a questão da existência, ou não existência de organização sindical na empresa defendeu-se que a questão nem se colocava e afirmou curiosamente que havia 250 colaboradores e cada um era um sindicato.Ou seja, a gestão negociava com cada um as condições de trabalho, o salário e a carreira.

Cedo percebi que de facto esta visita a uma empresa tecnológica da área da informática era um grande desafio para um bom debate sindical.Efectivamente este tipo de empresa flexível é o exemplo acabado do capitalismo flexível que procura de forma paternalista prescindir da organização sindical e da ação colectiva dos trabalhadores.A ideologia base é a de que não existem interesses divergentes na empresa, nomeadamente entre os detentores do capital  e os engenheiros trabalhadores, são todos colaboradores com responsabilidades diferentes.Uma ideologia que disfarça com eficácia o poder decisivo na hora da verdade de quem detém o capital, através de um discurso de colaboração e uma hierarquia informal e horizontal.Nesta linha o sindicato enquanto orgnização autónoma dos trabalhadores e contra-poder, não é preciso porque pode fazer uma ruptura com esta «harmonia» fictícia.

A ideologia da colaboração reforça o poder empresarial, individualiza os trabalhadores e põe os trabalhadores a autoexplorarem-se com uma sensação de liberdade.

Importante desafio para os sindicatos

Neste« paraíso» que apenas existe em algumas empresas, tudo vai mais ou menos bem enquanto se cumprirem os objectivos e as performances, enquanto se produzir e não se tiver depressão e outras doenças prolongadas;enquanto não fôr necessário despedir, a empresa não mudar de mãos e passar para outros detentores do capital sem rosto que não conhecem ninguém.

Dadas as suas competências e a actual fase do mercado os engeneheiros ainda podem mudar de empresa sem perderem salários e regalias.Mas o futuro a Deus pertence e nem sempre vamos poder ser sindicatos de nós próprios.

Não posso deixar ,porém , de considerar que esta situação é um importante desafio para os sindicatos.Como demonstrar na prática e no discurso a estes trabalhadores que a existência da organização sindical e a ação colectiva é sempre importante e útil para além das nossas capacidades individuais.Como formar sindicalmente estes trabalhadores que desconhecem o abc do sindicalismo e a História do Movimento Operário e Sindical?Como fazer perceber que os trabalhadores apenas podem fazer progredir o mundo do trabalho e a justiça social através de uma ação colectiva enquanto classe, entidade com interesses próprios e autónomos?

domingo, 20 de março de 2022

JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE-um acto religioso com dimensão política!

 

Lisboa vai ser palco das Jornadas Mundiais da Juventude na semana de 1 a 6 de agosto de 2023 com a provável presença do Papa Francisco.Inicialmente previstas para 2022, o Papa  em articulação com os organizadores portugueses, decidiu o seu adiamento por causa da Covid 19.

Esta iniciativa é considerada a maior organização de massas da Igreja Católica e teve início nos anos 80 do século passado, sendo periódicamente realizada em várias cidades e tendo como principal entusiasta o então papa João Paulo II. Nas Jornadas do Panamá em 2019 tanto a Conferência Episcopal Portuguesa como o nosso Governo mostraram grande interesse no evento estando disponíveis para grandes e custosas ações, nomeadamente de preparação da zona lisboeta onde ocorrerá a concentração de um a dois milhões de jovens.Entretanto, e para além das ações materiais a cargo dos Municipios de Lisboa e Loures, bem como do Governo, a Igreja Católica tem vindo a preparar discretamente estas Jornadas ao nível diocesano.

A dimensão política das Jornadas Mundiais da Juventude

Um fenómeno religioso e político desta natureza merece algumas considerações a que me atrevo apenas para lançar ideias para um debate que certamente não se fará porque, por diferentes razões, à esquerda e à direita ninguém estará interessado.

Uma ação de massas desta amplitude tem necessariamente uma dimensão política que os actores irão naturalmente negar.O governo tem todo o interesse nesta iniciativa porque pensa retirar dividendos ao chamar a atenção mundial para o nosso País e para o facto de, sendo um governo laico e até com governantes não crentes,mantém excelentes relações com a igreja Católica.O poder mediático e smbólico que emana desta iniciativa reforça o seu poder e prestigio.

A Igreja Católica Portuguesa, que tem estado confrontada com a diminuição da participação dos portugueses nos actos litúrgicos,onde em algumas regiões é uma Igreja de idosos e idosas,aparece com uma iniciativa mobilizadora de juventude ao mais alto nível, afirmando-se como uma instituição que, apesar das grandes deserções, poderá revitalizar-se e vislumbrar um futuro.As Jornadas serão assim um momento de poderosa afirmação religiosa e política da Igreja Católica.

Os perigos e os desafios

Como em tudo na vida este tipo de iniciativas de massas  comportam alguns perigos e desafios.O primeiro perigo é que estas manifestações não passem de cenas de folclore, e romarias tipo festivais.São iniciativas muito boas e agradáveis para a juventude e, em geral, nunca mais se esquecem ao longo da vida.Todavia, se não existir uma pastoral continuada da juventude em cada diocese e cada paróquia,tudo não passará de um bela experiência para contar aos filhos e netos.

O quadro pós Jornadas é por isso mesmo muito importante.Ao lermos as mensagens dos papas aos jovens nestas iniciativas elas insistem muito na necessidade de nos voltarmos para os outros, no caminharmos com os outros ,os que precisam de nós,na esperança, na construção de um outro mundo, mais fraterno.Ora, se a nossa catequese e discurso fôr burguês e individualista, de grupinho fechado e de «meninos de bem e acomodados», de movimentozinho de paróquia, de nada valerá esta grande manifestação de massas.Será showoff e manifestação efémera de poder!

Uma manifestação de massas que coincide com uma caminhada sinodal

Curiosamente esta manifestação coincide com a caminhada sinodal da Igreja Católica visando a sua renovação ao nível das formas de participação na mesma, do exercício do poder,da desclericalização e de um compromisso mais forte com os mais pobres ,refugiados e imigrantes.

Ora as Jornadas Mundiais da Juventude não são alheias a esta dinâmica e apelo a uma conversão de todos os cristãos a uma Igreja mais comprometida com os movimentos populares,com os perseguidos por causa da justiça,com os que para sobreviverem precisam de abandonar a sua terra e casa.Se não se inscrever no coração das Jornadas Mundiais da Juventude esta inspiração apenas assistiremos a um grandioso espectáculo estético e folclórico juvenil com dimensão política, óbviamente.

 

segunda-feira, 14 de março de 2022

OS SINDICATOS, A INVASÃO DA UCRÂNIA E A DEMOCRACIA

 

Uma larga maioria do sindicalismo mundial condenou a invasão da Ucrânia e está solidário com o seu
povo e respectivas organizações de trabalhadores.A Confederação Europeia de Sindicatos (CES) já tomou posição e organizou manifestações de protesto e apoio em Bruxelas, várias confederações nacionais fizeram o mesmo. A Confederação Sindical Internacional (CSI) manifestou posição igual, quer o fim da guerra quer a paz.São organizações que também se manifestaram e se solidarizaram com o Povo Palestiniano, com o Povo Sauri, do Tibete, condenaram outras agressões , nomeadamente dos USA no Iraque e Afeganistão.

Algumas organizações como a CGT francesa não deixaram de lembrar que, condenando a Rússia,não se deve esquecer o papel que a NATO teve e tem neste processo e, muito em particular,  os USA.

Em Portugal a CGTP, embora condenando a guerra ,não foi clara na condenação da invasão da Ucrânia pela Rússia.Produziu um texto pobre e ambíguo e prima pela ausência de qualquer ação concreta.A análise subjacente do texto é a de que o inimigo principal é o imperialismo americano e tudo o que de mau temos no mundo é da responsabilidade directa ou indirecta do mesmo.Nesta lógica as outras grandes potências , China e Rússia,porque sendo anti americanas, são absolvidas das agressões aos povos e os seus líderes, autoritários e capitalistas, tolerados.

Felizmente, sectores sindicais  da CGTP , nomeadamente socialistas, bloquistas e independentes afastaram-se desta posição.A UGT fez o mesmo sem qualquer ambiguidade condenando a agressão.A BASE-FUT tomou uma posição clara de repúdio e condenação da invasão e está solidária com os sindicatos e povo ucranianos.

 Tal análise da política internacional tem a sua matriz na «guerra fria» e ainda alimenta algumas organizações sindicais no mundo.É uma análise chamada de anti-imperialista mas que só vê um império quando hoje existem outros impérios, mesmo que secundários, e que lutam com os USA pela hegemonia mundial usando a repressão e agressão sobre os povos.

Certa direita quer aproveitar a invasão da Ucrânia para alargar e aprofundar o seu ataque á esquerda e aos sindicatos.Querem aproveitar a ambiguidade do PCP e da CGTP para esse objectivo.Alguns atacam mesmo o PS pelo facto de ter sido , no passado, apoiado por organizações que agora não condenam a invasão.

Alguma extrema direita e nazis vão mesmo lutar contra a Rússia ao lado dos grupos nazis da Ucrânia.O Putin e a Rússia admirados são agora o diabo e a Ucrãnia é a roma da democracia .Os refugiados de olhos azuis e cabelo louro são acarinhados;os pretos e asiáticos não merecem a mesma consideração.

A UE vende armas à Ucrânia e vai na crista da onda na linguagem guerreira, esquecendo a sua tradicional posição de buscar soluções.Pelo contrário, abre caminho aos USA nas sanções à Rússia.

Mais uma razão para que os sindicatos e todas as organizações de trabalhadores sejam claros nesta matéria.Lutar pela paz, condenar qualquer agressão, seja de países  da NATO, da Rússia ou China.Ser solidário com os refugiados ucranianos, mas também com os palestianos ou tibetanos, sírios ou líbios.muçulmanos ou cristãos.Os sindicatos sempre tiveram uma política internacionalista de paz e solidariedade.