sábado, 22 de agosto de 2026

AS REFORMAS LIBERAIS DA SEGURANÇA SOCIAL E OS SINDICATOS

 Em Portugal temos agora um debate sobre o presente e o futuro das nossas pensões! O lóbi dos fundos de pensões privados conseguiram dar eco a mais um relatório onde se estimula o medo da sustentabilidade das pensões dos trabalhadores portugueses. Tentam minar a credibilidade do


nosso sistema público e avançar com propostas que apontam para a gestão individual das pensões e para o fim da solidariedade intergeracional.

Esta estratégia ocorreu e vai ocorrer noutros países e tem como objetivo colocar o dinheiro dos trabalhadores nos fundos privados para os negócios dos investidores capitalistas e para a especulação.

O nosso sistema público de pensões funciona bem

Mas as Organizações dos Trabalhadores portugueses e diversos economistas têm entrado neste debate contrariando as teses do grupo do governo coordenado pelo Jorge Bravo, demonstrando que o sistema público está de boa saúde e que os trabalhadores reformados e os jovens não têm razões fundamentadas para se preocuparem. Claro que o sistema público de pensões não pode ficar parado no tempo e, sendo necessário, deverão realizar-se as reformas necessárias.

De facto, os trabalhadores portugueses não precisam das propostas do grupo do governo porque já têm tudo de que precisam. Ora vejamos:

.1. Temos um sistema público contributivo, de repartição e solidário que garante as atuais e futuras pensões dos trabalhadores. Todos descontamos obrigatoriamente desde o nosso primeiro dia de trabalho;

2. Existe um sistema voluntário de Regime Público de Capitalização onde o trabalhador pode poupar para um complemento de reforma. É pouco conhecido e porque será?

3.Milhares de trabalhadores, em geral de grandes empresas, bancos e seguradoras, contam ainda com Fundos complementares de pensões que lhes podem dar complementos de reforma, como o caso da banca, seguradoras, TAP, EDP, etc.

4. Cada trabalhador, tendo excedentes de rendimento pode ainda fazer PPR, poupanças individuais para a reforma em geral com apoios nos impostos.

Com este quadro diversificado de opções complementares para além de um sistema público não há razões para estar com medo.

5.Temos ainda um pilar de Ação social financiado pelo orçamento do estado para apoiar as pessoas que não tiveram descontos ou estes foram insuficiente e terão uma pensão social .

 Os sindicatos e os fundos complementares de pensões

É assim natural que os sindicatos não concordem com as propostas do grupo de trabalho e as combatam.

Alguns sindicatos independentes e da UGT, em geral de trabalhadores com salários mais robustos, estão associados, ou até são fundadores, de fundos complementares de pensões fechados, ou seja, apenas para sócios e familiares dos sindicalizados.

Um sindicato pode participar num fundo de pensões através da negociação coletiva (um AE ou CCT); com uma negociação para um lugar na comissão de fiscalização ou o sindicato assume-se como fundador ou associado de um Fundo.

Em Portugal e noutros países europeus existem várias realidades neste domínio com sindicatos mais ou menos envolvidos nos fundos de pensões próprios ou externos.

Há quem defenda que perante a baixa sindicalização os fundos de pensões poderão ser um «isco» para atrair mais trabalhadores para os sindicatos, tal como um sistema de saúde o pode fazer!

É uma questão de debate interessante no movimento sindical tal como o pode ser o «fundo de greve» também adotado por um ou outro sindicato. Mas a maioria do sindicalismo português não tem ido nesse sentido.

Todavia, os sindicatos que aceitam entrar neste tipo de política aceitam entrar no jogo do capital e tirar daí proveitos e riscos. O sindicato de classe por princípio não aceita participar e pactuar com este tipo de fundos nem na sua gestão nem na associação a outros fundos externos.

A realidade concreta, porém, e os interesses dos sócios, poderão obrigar a participar nos fundos das empresas, sem que tal signifique uma adesão ideológica à ideia. Muito importante será sempre a fiscalização pelo sindicato e a transparência destes fundos!

As reformas propostas pelo Grupo do governo são na generalidade pouco pertinentes e até perigosas para a realidade portuguesa! Este relatório pretende ser aparentemente um contributo para um debate, mas que traz no seu ventre um projeto de privatização da segurança social. A maior preocupação que temos pela frente são os baixos salários e pensões da maioria dos portugueses! Mas o debate vai continuar!

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

A INSPEÇÃO DO TRABALHO ENTRE AS VÌTIMAS DESTE CAPITALISMO!

 

No contexto geral da evolução das economias liberais das últimas décadas notam-se algumas tendências que fazem perigar a própria liberdade, em particular a liberdade dos mais pequenos e mais fracos.

Enquanto aumentam os investimentos nas forças de segurança e na defesa diminuem ou estagnam os investimentos nas instituições da educação e do trabalho, nomeadamente naquelas que nasceram para regular e fiscalizar as relações laborais como é o caso da Inspeção do trabalho.

Quem se der ao trabalho de fazer uma simples leitura de alguns documentos da ACT, a Inspeção do Trabalho em Portugal, nota que na última década o investimento nesta instituição fundamental do trabalho foi pouco significativo enquanto o legislador em cada diploma laboral aprovado foi atribuindo funções à ACT. Basta ver os relatórios anuais, em geral pouco atualizados, para sabermos que o orçamento tem andado sempre pelos cinquenta milhões, o número total de funcionários até diminuiu em alguns dos últimos anos e o de inspetores do trabalho nunca chegou aos 500, número considerado aceitável pela OIT para Portugal.

Mas a ACT não tem apenas as funções inspetivas de regulação laboral. Tem ainda a nobre função de promover as políticas públicas de prevenção e promoção da segurança e saúde dos trabalhadores, nomeadamente de certificar a formação e certificação de empresas e técnicos de segurança e saúde no trabalho.

Esta instituição tem assim um imenso campo de ação no terreno e um volumoso trabalho burocrático num País de pequenas e médias empresas, de muito trabalho não declarado, de uma enchente de trabalhadores imigrantes e de uma profunda mudança nas relações de trabalho e na natureza do próprio trabalho em particular no pós-covid.

Então o que acontece neste quadro? Muita dificuldade em cumprir a sua missão com consequências para a erosão dos direitos dos trabalhadores, agravamento de riscos profissionais como o assédio, bounout, selvajaria nas relações de trabalho. Ainda mais grave é a incapacidade de combater de forma significativa a sinistralidade e a doença profissional A DGS estima que morrem entre três a quatro trabalhadores por dia em consequência de acidentes e doenças profissionais.

Esta situação de insensibilidade política e social da governação para o que acontece no mundo do trabalho contribui de forma muito significativa para a degradação do regime. O que cada vez mais ocorre no mundo do trabalho é a liberdade do forte contra o fraco! O governo com as propostas de legislação laboral que promove e com o abandono da ACT está a ser cúmplice na opressão do forte contra o fraco, deixando o trabalhador sem proteção em que é o patrão que faz a lei na sua empresa!

 A liberdade do forte contra o fraco não é democracia, mas sim uma tirania disfarçada que periodicamente vai a votos!

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A GESTÃO NO CONFRONTO COM O SINDICALISMO!

 

Gestão e sindicalismo estão frequentemente em conflito nas empresas. A experiência de muitos trabalhadores é o registo de que a gestão tem uma visão alheada ou hostil face à estrutura sindical da empresa e em particular ao sindicato. Para o gestor o sindicato é


considerado frequentemente um elemento perturbador das diretrizes e objetivos da empresa. As razões são diversas e não apenas de ordem dos interesses em jogo. Existem razões de ordem cultural ou ideológica e de gestão do poder na organização.

Efetivamente o sindicato também é um poder ou contrapoder na empresa ou serviço. É uma das modalidades do poder dos trabalhadores organizados. Essa é a realidade de um país democrático. As chefias e a gestão devem estar preparadas e conviver com esta situação.
Atualmente os gestores estão numa situação difícil. Por um lado, estão pouco preparados para saberem lidar com a organização sindical. Uma ou outra empresa com cultura de cogestão, como as alemãs, poderão estar mais preparadas para esta situação. Em geral a formação académica dos gestores negligencia a formação sindical, não os prepara verdadeiramente para um diálogo com estas estruturas. Nos cursos de gestão o sindicalismo é apresentado por professores de economia que, em geral, têm uma visão redutora e economicista, e até por vezes hostil, do sindicalismo.

Os gestores estão pressionados pelos acionistas

Por outro lado, e para além desta deficiência académica, os gestores estão pressionados pelos acionistas, pelos detentores do capital que querem ver resultados a curto prazo, numa dinâmica de intensificação e exploração do trabalho que caracteriza o capitalismo atual a nível mundial! As próprias escolas de gestão estão frequentemente sob patrocínio ou influência de grandes empresas.
A maioria dos gestores têm hoje um estatuto muito precário, tipo mercenário. Vão para uma empresa para uma missão muito concreta e pagam-lhe como príncipes. Acabada a missão, que em geral tem a ver com ajustamentos e reestruturações, ou seja, despedimentos e mais lucros, os gestores podem ser despedidos ou se despedem e vão para outra missão de outra empresa que lhes paga mais!
Os gestores são quase uma classe com interesses próprios. A sua ideologia é a do capital e assumem atualmente a dimensão predadora deste capital. Os trabalhadores são para explorar ao máximo e depois deitar fora! Sobre esta questão valerá a pena reler um livro de Vincente Gaulejac intitulado «La Societé Malade de la Gestion- idéologie gestionnaire, pouvoir managérial et harcèlement social» das Editions du Seuil , 2005.

A gestão também é uma ideologia que legitima a guerra económica

Para este investigador e professor universitário em França a «gestão, sob uma aparência pragmática, constitui uma ideologia que legitima a guerra económica, a obsessão do rendimento financeiro e que é largamente responsável pela crise atual.…»
Existem exceções a esta regra? Claro! Em várias empresas os gestores percebem que os trabalhadores são a condição essencial de sucesso! Existe um bom relacionamento, bom ambiente de trabalho. Mas quando se fala em aumentos salariais, distribuição da riqueza e melhores condições de trabalho as simpatias param por aqui! Veja-se a oposição que existe no nosso País ao aumento do salário mínimo. E a resistência não vem só dos patrões privados. Vem do próprio Estado que suporta as IPSS e a Função Pública! Mas então a valorização salarial não é boa? Boa para os trabalhadores e boa para a economia e a mais importante forma de distribuir a riqueza numa sociedade como a nossa!
A valorização do trabalho e do trabalhador é essencial para uma economia sustentável! O gestor do futuro tem de perceber esta questão!