quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ACIDENTES DE TRABALHO E DOENÇAS PROFISSIONAIS- quanto custa a não prevenção?

 «Despesa pública com baixas por doença disparou: trabalhadores aumentaram e estão mais velhos.

A despesa com o subsídio de doença disparou de 562,8 milhões de euros em 2018 para 885,2 milhões de euros em 2023, correspondendo a um acréscimo de cerca de 57,3%, revela o mais recente relatório do Tribunal de Contas, divulgado nesta quarta-feira.» (Publico de 28 de janeiro).

O número de doenças profissionais também tem aumentado nos últimos anos, embora apenas uma parte minoritária das doenças relacionadas com o trabalho seja efetivamente detetada e certificada.


Aponta-se o aumento e envelhecimento da população trabalhadora, bem como o aumento da idade de reforma como causas desta situação. Mas há outras tão importantes ou mais do que estas. A mais importante é, a meu ver, as deficientes condições de trabalho, nomeadamente as condições de segurança e saúde no trabalho. Há muito que se deixou de falar no «envelhecimento ativo» na EU. Foi moda que passou e pouco ou nada deixou!

Existem milhares de empresas que não têm qualquer serviço de segurança e saúde e centenas de milhar que apenas possuem um contrato com um serviço externo de prestação de serviços. Na generalidade os empresários preocupam-se apenas com o cumprimento formal da legislação, em terem a papelada em dia, mas estão alheios aos riscos profissionais existentes nas suas empresas.

Recentemente a Inspetora Geral do Trabalho, dirigente máxima da ACT, referia esta realidade, ou seja, a excessiva externalização dos serviços de segurança e de saúde no trabalho. Mas a própria ACT tem responsabilidades nesta situação não apenas porque participou na legislação que o permite, mas na sua prática processual ao facilitar que as empresas, mesmo médias e até de alguma dimensão, possam adotar serviços externos em substituição de serviços internos

Os espertos e negociantes descobriram que estava aqui uma oportunidade de negócio e quem fica a perder são os trabalhadores portugueses. Em muitas empresas os trabalhadores nunca viram o médico do trabalho e este nunca avaliou qualquer risco na sua empresa.

A falta de uma prevenção no trabalho e a falta de promoção de segurança e saúde no trabalho cria problemas a muitos trabalhadores e suas famílias com acidentes que poderiam ser evitados e doenças que deveriam ser prevenidas. Milhares de trabalhadores continuam a ir todos os dias para locais de trabalho que os adoeceram! Eles são descartáveis!

A notícia acima referida apenas nos diz qual o montante da despesa com o subsídio de doença que foi quase de quase 900 milhões! Mas, para além do enorme sofrimento de milhares de trabalhadores, temos as despesas com o absentismo decorrente dos acidentes de trabalho, em cerca de 5 milhões de dias perdidos por ano e alguns milhões também decorrentes das doenças profissionais que não se resumem ao subsídio de doença! Mas se incluirmos os custos das doenças psicológicas relacionadas com o trabalho então teremos muito mais absentismo e perdas económicas substanciais, bem como sofrimento e ambientes de trabalho nada saudáveis! Alguns estudos estimam que em qualquer país os custos decorrentes dos acidentes e doenças profissionais serão cerca de 3 a 4% do PIB! Uma enormidade! No nosso País será o equivalente a três ou quatro anos de riqueza produzida pela Autoeuropa!

É difícil assim aceitar que nas propostas legislativas do governo para alterar a lei laboral não se abordem a melhoria da legislação preventiva no domínio dos riscos profissionais, nunca mais seja publicada a Estratégia Nacional para a segurança e saúde no trabalho, que deveria ter sido publicada em 2022, nem a revisão da Lista de doenças profissionais, em que a última revisão foi em 2007!

Este governo, e em alguma medida até os anteriores, têm uma visão demasiado economicista e só pensam no curto prazo. Não investem na prevenção dos riscos onde até no domínio económico se poupariam biliões de euros! Por mais que se afirme que os euros gastos na prevenção não são um custo, mas um investimento, esta gente apenas pensa no curto prazo e nos votos para não perderem o poder!

Ao Movimento Sindical compete ser muito mais incisivo nestas matérias, nomeadamente na formação e na reivindicação! Há que defender a vida e a saúde física e psicológica como o pão para a boca! As novas gerações de trabalhadores estão mais sensíveis a estes problemas! Lembramos as sábias palavras de um Papa, que alguns querem esquecer muito depressa, o Papa Francisco: esta economia que mata!

Quando os políticos neoliberais falam em flexibilizar e modernizar as relações laborais como acontece com a Ministra Ramalho deste governo estão a incentivar as condições para que mais trabalhadores e trabalhadoras tenham acidentes e doenças profissionais! Acreditem! O problema são os interesses que defendem e o facto de nunca terem trabalhado numa fábrica ou num Mac Donald….

 

 

 



sábado, 7 de fevereiro de 2026

PORQUE FALHA O ESTADO NA PROTEÇÃO DAS PESSOAS NAS HORAS NEGRAS?

 

Mais uma vez somos apanhados por uma tragédia que abrange uma parte significativa do País.


No verão passado foram os incêndios e o elevador da Glória, agora as cheias e os ventos! Sempre as mesmas críticas: falta de coordenação e de meios, falta de rapidez e oportunidade. As pessoas queixam-se de que foram abandonadas pelos serviços, enfim, pelo Estado.

Continuamos assim com aquilo que parece ser uma fatalidade! Mas nada mais falso. Não é uma fatalidade, é uma mentalidade, uma cultura e uma política essencialmente economicista, que apenas visa os custos a curto prazo e não tem visão estratégica para apostar na prevenção e no planeamento.

As consequências estão à vista de todos e podemos enumerar apenas algumas: mortes que poderiam ser evitadas e milhões de euros em prejuízos que poderiam ser evitados também.

Poderemos resumir em poucos pontos o que nos falta e poderia ser feito:

1.       Falta de planeamento e prevenção

2.       Falta de manutenção permanente e inteligente

3.       Avaliação periódica dos riscos e tomada de medidas apropriadas

Queixamo-nos de que somos um povo que não planeamos, mas ao mesmo tempo desconfiamos dos que querem planear e prever para prevenir. Em todos os campos é necessário prevenir para evitar ao máximo os efeitos nefastos, seja na saúde, nas emergências, na guerra e na paz e nos locais de trabalho.Hoje com o desenvolvimento das ciências e das tecnologias o planeamento e a prevenção podem ser organizados com rigor! Temos que promover a visão científica contra o empirismo, a exigência contra o facilitismo e a negligência. Temos que ter responsabilidade social, preocupação pelo bem comum.

Esta exigência abrange a necessidade de um sistema de manutenção permanente e inteligente. Uma manutenção das infraestruturas e equipamentos rigorosos e que não facilite em nome do baixo custo. As ideias neoliberais que inundaram as instituições são uma das causas das catástrofes porque regateiam o investimento público. Em nome do menos estado e da privatização deixaram-se pontes e estradas a cair de podres ou com elevado risco. Os cortes orçamentais sempre incentivados por Bruxelas e pelos governantes neoliberais são uma das causas das catástrofes e da incapacidade do Estado perante as alterações climáticas.

É importante por fim investir numa cultura rigorosa de avaliação dos riscos em todos os departamentos responsáveis pelas obras públicas e pelos equipamentos. Como se pode aceitar que haja tanta construção licenciada nos rios e ribeiros? Há que melhorar os planos locais de emergência, contratar e formar pessoas que possam assumir as tarefas de planeamento, coordenação e ação nas emergências! Acreditem por favor que Nossa Senhora de Fátima não nos vai proteger toda a vida!

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A SAÚDE MENTAL NOS LOCAIS DE TRABALHO NÂO É LEVADA A SÉRIO!

 

No dia 24 do passado mês de janeiro participei num Encontro sobre saúde mental nos locais de trabalho, em Matosinhos, promovido pela BASE-FUT. Foram convidados dirigentes sindicais de alguns setores como saúde e setor social, limpeza, segurança e vigilância, vestuário, comércio, construção e jornalismo.

A parte mais interessante foram os testemunhos e depoimentos dos sindicalistas que participaram com conhecimento do terreno e que mostraram bem como ainda existe uma cultura de passividade, de fatalismo perante os acidentes e doenças profissionais! Uma cultura que passa as culpas para o trabalhador apesar de na legislação portuguesa e europeia estar escrito que os empresários são os responsáveis pela segurança e saúde dos seus trabalhadores. Os locais de trabalho é que adoecem os trabalhadores e, portanto, o problema está no ambiente de trabalho  doentio, tóxico.

Por outro lado, na maioria dos casos, a saúde mental ainda não é levada a sério pelos trabalhadores e muito menos pelos empresários. Frequentemente os próprios trabalhadores não falam da sua situação mental para não mostrarem fragilidades aos colegas e chefias! Vivem isolados situações terríveis de assédio e violência ou de burnout que, em geral, vão desaguar numa baixa ou no despedimento!

Temos que levar muito mais a sério as queixas e outros sinais dos trabalhadores que podem estar a viver situações de violência que, em certos casos, levaram inclusive ao suicídio! Pessoas que dizem que dormem mal, mostram claros sinais de esgotamento, que estão sem capacidade de se concentrarem, que faltam ao trabalho com demasiada ftrequenência.

No Encontro acima referido foram relatadas situações de humilhação e assédio, de horários desregulados de ligação permanente ao trabalho, trabalho intensivo até à exaustão! Os sindicalistas sentem-se muitas fezes impotentes para ajudar estes trabalhadores e a legislação. para além de nem sempre estar adequada, também nem sempre é devidamente conhecida.

Na opinião dos participantes aumentam as situações de risco psicossocial nos locais de trabalho e a maioria das empresas não realizam avaliação de riscos com a participação dos trabalhos nem promovem medidas adequadas de prevenção conforme estipula a lei 102/2009.

O novo projeto de lei para o trabalho do governo se não for retirado ou profundamente modificado irá piorar as condições de trabalho em Portugal, nomeadamente a precariedade, a desregulação dos horários a facilitação dos despedimentos e o trabalho clandestino ou não declarado! Haverá mais ansiedade, mais cansaço, menos tempo para o lazer e para a família! Tudo boas condições para as depressões e para o burnout.

É necessário dar condições políticas e técnicas à Inspeção do trabalho (ACT) para melhor atuar com maior rapidez e eficácia. Por outro lado, os sindicatos terão que priorizar o combate pela promoção da segurança e saúde no trabalho, nomeadamente a prevenção dos riscos psicossociais, em todas as empresas e serviços do país. Uma prevenção que não seja um «faz de conta» como acontece em inúmeras empresas que contratam serviços externos que são uma caricatura daquilo que deveria ser!

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

QUE FUTURO PARA OS MOVIMENTOS CRISTÃOS DE TRABALHADORES?

 

Os Movimentos Operários da Ação Católica portuguesa, JOC e LOC/MTC, cumprem este ano 90 anos de atividade junto das classes trabalhadoras. Estes Movimentos perfazem, no entanto, um


século desde que foram lançados por um padre belga, Joseph Cardijn, bem conhecido dos católicos sociais de todo o mundo! O arquiteto em Portugal destes Movimentos foi outro padre, também conhecido nos referidos meios, o Padre Abel Varzim.

Em Portugal a história destas Organizações da Igreja Católica já tem vindo a ser estudada, embora ainda haja muito a investigar sobre a História do catolicismo social português e, nomeadamente, sobre os Movimentos que formaram gerações de jovens trabalhadores no assumir responsabilidades e empenhamentos sociais em ordem a mudar a sociedade e defender os direitos dos trabalhadores. Muitos destes jovens acabaram por ter importantes responsabilidades na sociedade portuguesa, nomeadamente no mundo do trabalho, na política, na educação e na cultura!

A ditadura de Salazar e a Ação Católica

Há, no entanto, um capítulo, entre outros, de toda esta fantástica história que ainda está pouco estudada, trata-se das relações entre a hierarquia católica portuguesa e estes Movimentos operários! Os mais velhos contam que o Cardeal Cerejeira, amigo e cúmplice de Salazar, dava «uma no cravo e outra na ferradura», mas aceitou os constrangimentos que o ditador impôs à Ação Católica Portuguesa, ou seja, a de se remeter ao que ele considerava «assuntos religiosos» e caritativos e nunca realizar qualquer ação que cheirasse a política! E porquê?

 Porque na mesma altura a ditadura estava a consolidar-se liquidando a oposição, em particular a sindical, e a construir o modelo corporativo e de partido único. Há estudos que apontam para o facto de Salazar temer a emergência em Portugal de um partido democrata cristão. Isto foi mais evidente ao cortar logo pela raiz, no início da década de trinta, a ideia dos católicos de criarem sindicatos.

A sedução inicial e desilusão posterior pelo modelo corporativo por parte dos dirigentes da Ação Católica parece hoje ser uma questão consensual. Foram muitos os militantes que aceitaram fazer parte das direções dos sindicatos nacionais e de outros organismos corporativos. É verdade que desde o início houve reticencias dos padres que tinham estudado em Louvaina. Para eles o modelo corporativo português não previa a liberdade associativa. E aí contrariava claramente a encíclica «Rerum Novarum”. O grande objetivo era «cristianizar o mundo do trabalho” e combater as ideias socialistas, em particular a ideia da luta de classes, propondo a colaboração de patrões e trabalhadores.

 

Durante décadas Cerejeira e restante hierarquia, bem como a maioria do clero conseguiram, de facto, com a ajuda do aparelho repressivo, manietar os Movimentos Operários. No entanto, o contacto dos militantes católicos com a realidade social e económica do país, nomeadamente a miséria dos salários e a falta de habitação digna, formação e qualificação foi importante para ir mudando as consciências.

Mas também foi importante a verificação de que nem os sindicatos nacionais nem o aparelho corporativo, e concretamente o Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, que regulava as relações laborais, defendiam os trabalhadores perante os patrões que se tornavam mais ricos enquanto a pobreza, e até a miséria, era o normal na maioria dos trabalhadores portugueses!

Paradoxalmente foi uma geração de padres assistentes dos Movimentos Operários que proporcionaram importantes mudanças nas décadas de 60 e 70 do século XX.O mundo estava a mudar a grande velocidade e o concílio Vaticano II proporcionou uma grande abertura ao social e ao empenhamento dos cristãos. Aos Movimentos chegou uma geração de líderes oriundos quase todos da Juventude Operária Católica que deram um novo rumo ao catolicismo social, combatendo a ditadura de diferentes maneiras e em diferentes movimentos de resistência até ao glorioso dia do 25 de Abril de 1974.

Estes católicos não tiveram apenas problemas com a repressão e censura, mas também com a própria hierarquia da Igreja Católica. Essa realidade marcou profundamente um número considerável de militantes cristãos que abandonaram as suas referências religiosas, mas continuaram a dar contributos significativos à sociedade portuguesa e à luta pela democracia.

A Igreja Católica desistiu do mundo do trabalho?

Uma questão importante a investigar seria a partir da seguinte interrogação: O apoio da Hierarquia aos Movimentos foi diminuindo ao longo do século XX e não foi revertido no século atual. Para além dos conflitos políticos com os Movimentos a razão deste menor apoio tem a ver com o facto dos mesmos já não serem movimentos de massas, mas muito mais de quadros? Ou será porque a maioria do clero não teve em Portugal formação adequada sobre estas matérias? Ou será ainda que a Igreja Portuguesa desistiu do mundo do trabalho? Ou será ainda porque considera os objetivos e estrutura dos Movimentos questões ultrapassadas, não adequadas a uma pastoral moderna?

Embora a Igreja Portuguesa seja das mais pobres da Europa, não creio que o não apoio consistente à pastoral operária seja por falta de dinheiro.

Responder a estas questões é fundamental para repensar o futuro da pastoral operária e dos Movimentos. A caminho de um século creio que seria muito importante fazer uma reflexão sobre estas matérias com frontalidade, utilizando até o método da própria Ação Católica: ver a realidade-julgar-e agir em conformidade! Não é justo que não se enfrente a realidade, que não se tenha a coragem de dizer: «não, não vamos por aí, o trabalho não é a nossa prioridade pastoral. São as jornadas da juventude com muito folclore e sentimento».

Ou dizer: «não, as estruturas da Ação Católica fizeram história, mas já não servem…»

Mas num momento histórico tão importante como o que estamos a viver em que graças ao avanço tecnológico o trabalho está a mudar de lugar e de natureza, a exploração e escravidão podem por isso mesmo aumentar gerando riqueza apenas para uma minoria, a Igreja Católica abandone o mundo do trabalho e o destino dos trabalhadores! Mais, deixa de proclamar claramente a sua doutrina social considerada hoje, por muitos e pelo capital, um «manifesto esquerdista»!

 

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

AS DESIGUALDADES MOSTRAM-SE TAMBÉM NO ACIDENTE E DOENÇA PROFISSIONAL!

 

As desigualdades no trabalho não se manifestam apenas ao nível salarial, mas também ao nível das condições de trabalho, nomeadamente ao nível dos riscos profissionais.

Podemos colocar a seguinte questão: quem sofre mais acidentes de trabalho no trabalho? Os homens


mais do que as mulheres! Quem é mais afetado por doenças profissionais? As mulheres mais do que os homens! A partir de 2018 observa-se uma subida significativa das doenças profissionais com as tendinites em primeiro lugar! Entre as quase 14 mil doenças certificadas mais de 8 mil originaram incapacidade para o trabalho. As operárias são as mulheres mais afetadas pela doença profissional!

Quem esteve em primeiro lugar nos acidentes de trabalho em 2022? Os trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices! Em segundo lugar? Os trabalhadores não qualificados! Em 2022 morreram no trabalho 54 trabalhadores qualificados da indústria, 28 dos quais eram operadores de máquinas!

Na década de 2011 a 2022 morreram mais 100 trabalhadores imigrantes. Os brasileiros estiveram em primeiro lugar!

Há vários estudos que revelam a desigualdade neste domínio. Empregos de escritório e intelectuais sofrem menos acidentes de trabalho e até tinham mais longevidade! Em vários países, nomeadamente em Portugal os sindicatos negociaram reformas antecipadas para trabalhadores de profissões perigosas desgastantes ou de grande penosidade. Em Portugal existe um grupo de trabalho que prepara um relatório sobre as profissões penosas e de desgaste rápido com medidas e recomendações para o governo e para a Segurança Social.Não se iludam, porém, as propostas de cariz neoliberal e de proteção aos patrões irão no sentido de negligenciar as reivindicações sindicais de justiça para quem trabalha por turnos e noturno ou numa mina, num hospital, no controlo do tráfego aéreo, num cal center…

Toda esta situação está em grande mudança na medida em que a natureza do trabalho e de várias profissões estão a sofrer grandes mudanças. O trabalho de esforço mental, digital, passa a ser dominante nas sociedades mais evoluídas tecnologicamente. Novos riscos tornam-se dominantes como a precariedade, o stresse, o assédio, a conexão permanente ao trabalho e a intensificação do mesmo. A depressão, o bournout a ansiedade são doenças que afetam os trabalhadores de forma transversal colocando a questão da saúde mental na ordem do dia! Assistimos a uma desumanização do trabalho e a perdas económicas consideráveis para a sociedade e para os mais pobres!

No projeto de reforma laboral do governo AD, contestado com uma Greve Geral, assiste-se a alterações importantes do Código do Trabalho que afetará a vida dos trabalhadores para pior! Não existe um artigo sobre medidas para reforçar a prevenção dos riscos profissionais e melhorar a proteção dos trabalhadores no trabalho. A proposta vai ainda aumentar as desigualdades laborais e sociais, entre homens e mulheres, entre trabalhadores imigrantes e nacionais, entre precários e efetivos, nivelando as condições de trabalho pelos mínimos! Em troca acenam-nos com a cenoura de um salário mínimo irrealista de mera propaganda!

Nos locais de trabalho de Portugal, com algumas exceções, paira o espectro da precariedade, dos baixos salários e do risco de acidente e da doença profissional!

São razões mais que suficientes para nos informarmos, debatermos e lutarmos em unidade nos nossos sindicatos!

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A GREVE GERAL FOI BOA....mas não chega, pá!

 A Greve Geral de 11 de dezembro conseguiu vários importantes objetivos, nomeadamente a adesão


de sindicatos de todas as correntes, dar um sentimento de unidade aos trabalhadores e dar conforto a alguns que não aderem se a greve não se realizar em conjunto. Admirável nomeadamente a realização de grandes manifestações nas grandes cidades, tendo em conta as dificuldades de transporte público.

Em consequência o governo, embora menorizando a Greve Geral, ficou algo surpreendido com a forte adesão à mesma e com o comportamento da UGT e do seu secretário-geral, Mário Mourão, que capitalizou e capitaliza ainda de todo o processo.

Agora estamos no meio do caminho do processo. Há uma grande incógnita sobre como vai ser o comportamento da UGT e do governo. Sabemos, no entanto, qual a posição da CGTP que muitos consideram firme, sem dúvida, mas previsível. Tudo indica que sob ponto de vista tático as duas Organizações caminham em paralelo sem uma posição comum.

Ora, o que a GREVE GERAL mostrou com evidência foi que os trabalhadores reagiram muito bem â convergência sindical para uma ação conjunta. Mas esta ação não pode ser apenas algo casual e único, sem novas articulações, sem novas posições concertadas sem informação permanente entre os líderes.

Caminhando cada um por seu lado vamos ficar pelo caminho e poderemos frustrar os trabalhadores e muitos sindicalistas. O que a Greve mostrou, o que a rua mostrou, é que perante a situação social e política atual apenas o caminho da convergência nos pode salvar! O governo deve perceber que a situação no campo dos trabalhadores também mudou perante o novo quadro político e social em que se pretende a mudança de regime, começando com a mudança nas relações laborais!

Pese as mazelas históricas e tendo em conta as diferenças sindicais temos que fazer o que os sindicatos franceses, belgas e espanhóis estão a fazer há muito tempo- CONCERTAR EM CONJUNTO, DEBATER EM CONJUNTO, LUTAR EM CONJUNTO para enfrentar o projeto de submissão completa ao capital!

 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A GREVE GERAL E OS TRABALHADORES POBRES

 

Algumas estatísticas apontam para entre 11 a 12% de trabalhadores que vivem na pobreza porque não


auferem nomeadamente salários suficientes, nem têm qualificações para superar essa pobreza! Aliás, mais de dois milhões e meio de trabalhadores não levam para casa um salário líquido de mil euros!

Mas caso queiramos deixar as estatísticas e passarmos para a vida real podemos apanhar de manhã bem cedo os comboios suburbanos do Porto e Lisboa, ou tomar o café nas estações de embarque do Terreiro do Paço ou do Cais do Sodré entre as quatro e sete da tarde. O que vemos? Milhares de pessoas, na sua maioria jovens, não brancos, vestidos pobremente rumo aos seus trabalhos ou no regresso dos mesmos. Se aprofundarmos a situação veremos que a maioria trabalha nos setores de baixos salários e com vínculos precários tais como a restauração, limpezas domésticas e industriais, construção e obras públicas, pequenas oficinas e comércios!

Esta gente trabalha demasiadas horas em cozinhas e restaurantes sem condições, outros em obras e biscates com martelos pneumáticos e nas pinturas, os mais sortudos com máquinas, em lojas e armazéns sem higiene e doentios, derreados e derreadas outras todos os dias com baldes e escovas, plenos de produtos tóxicos! Trabalhos duros, sujeitas e sujeitos alguns ao assédio moral e sexual, acumulando fadiga e longos percursos para chegar ao emprego e depois a casa.

É esta gente que enche os comboios e autocarros suburbanos amontoados como gado de manhã e à tarde, sem conforto e dignidade, acumulando longas horas de trabalho a mais outras de transporte para chegar a casa e preparar ainda a escola dos filhos, a roupa e a comida na lancheira para o outro dia. Foram eles que não deixaram de trabalhar na pandemia!

Esta gente é a primeira a ser despedida no emprego em caso de crise ou de algum ato insubmisso! Nada está garantido, nem o salário, nem o horário, nem o trabalho ao outro dia. É a exploração na sua realidade mais crua!

Para esta gente a Greve Geral é um ato de revolta e de luta para mudar as suas vidas, afirmar a sua dignidade como pessoas trabalhadoras, Porém, para a maioria destas pessoas a Greve Geral, ou qualquer greve, é impossível.

É impossível porque a maioria deles já vive na prática, e no dia a dia, aquilo que o governo /patrões portugueses pretendem impor a todos os trabalhadores portugueses, ou seja, precariedade, submissão total na ilegalidade, sem direitos e apenas com as obrigações do patrão!

Por isso mesmo esta greve  é fundamental! Todos os que podem fazer a Greve Geral devem aderir porque o que está em causa com esta contrarreforma do governo de Montenegro é a submissão total do nosso corpo e alma aos ditames empresariais de competitividade, produtividade e lucros! Em troca teremos alguns euros para sobreviver e ter a ilusão que poderemos ser ricos se jogarmos todas as semanas no Euromilhões!