quinta-feira, 19 de março de 2026

PERDEDORES E VENCEDORES NAS REFORMAS LABORAIS!...sempre os mesmos!

 

Apesar do perigoso contexto internacional e da difícil situação de vida ao nível da subida dos combustíveis e dos preços em geral nomeadamente alimentares, Portugal e o seu governo autista


continuam num debate sobre a reforma laboral inoportuna, que ninguém, para além de algum patronato, verdadeiramente quer, pois ainda em 2023 tivemos uma, no mandato de António Costa e Ana Godinho!

A ministra Ramalho avançou com uma proposta ultraliberal, certamente fora do contexto constitucional, criticada pela maioria dos especialistas e pelos sindicatos de todos os quadrantes, inclusive por sindicatos afetos ao partido do governo!

Fora do contexto convoca os parceiros sociais para um debate viciado à partida porque tinham que ter como referência não uma metodologia de debate e uma eventual atualização de aspetos hodiernos do mundo do trabalho, mas um debate sobre a proposta radical do Ministério do trabalho, onde agora pontificam os assessores e juristas da iniciativa liberal e das confederações patronais! Não, nada de ideológico, apenas melhorar a produtividade do País e a competitividade- dizem candidamente os líderes patronais!

Para se ver a bondade do processo rejeitam-se à partida as propostas da CGTP e apenas se pretende negociar com uma central sindical, a UGT!” Porquê? -A CGTP nunca quer nenhum acordo- diz o governo! São quatro confederações patronais mais o governo contra uma confederação sindical! Impressionante negociação onde se vai entalando a parte sindical através da marginalização e pressão política e mediática sobre a UGT.

Estamos mesmo a ver qual vai ser o resultado desta grande negociação: perda de segurança, direitos e rendimentos dos trabalhadores como, aliás, tem sido uma constante de todos os acordos, reformas e revisões laborais do passado! Raramente se revertem reformas liberais, inclusive com governos do partido socialista! Basta ver os estudos que existem sobre os acordos e o seu cumprimento e sobre a evolução da lei laboral. Existe sempre uma parte perdedora e uma vencedora!

Pouco a pouco, reforma a reforma, os trabalhadores ganham menos no trabalho suplementar e nas indemnizações por despedimento, trabalham mais e de forma gratuita com bancos de horas, perdem direitos conquistados com a caducidade dos contratos, imaginam-se formas de despedimento coletivo e individual, ETC!

Estamos a ver assim que a parte vencedora tem sido a parte empresarial, escudada pelos diferentes governos! Mas por acaso os salários subiram, com exceção do salário mínimo? Subiram de forma insuficiente e muito longe dos lucros da banca e de algumas grandes empresas que tiveram ganhos escandalosos! E se nestes últimos anos houve um aumento significativo de alguns salários foi por falta de trabalhadores em quase todos os setores. Todavia, essa subida salarial não compensa as perdas que os trabalhadores tiveram no período da Troica!

O governo quer a assinatura da UGT antes de mandar a sua proposta para o Parlamento! Ambas as centrais sindicais estão a trabalhar para que a proposta do governo não passe! Centenas de organizações de trabalhadores já comunicaram à CGTP e à UGT que a proposta do governo, tal como como este a quer, não pode passar!

A Greve geral de dezembro, embora boa, mostrou que a mobilização popular não está na sua melhor forma! Há momentos destes em toda a nossa História! Cabe às organizações de trabalhadores manterem a chama da resistência às piores formas de escravidão, sabendo que não é o fim da exploração na« economia que mata»!

quarta-feira, 11 de março de 2026

NÃO TEMOS APENAS UM PROBLEMA LABORAL, TEMOS TAMBÉM UM PROBLEMA DE DIGNIDADE!

 

Há quem diga que a reforma laboral que o governo AD pretende fazer não tem pertinência.  Para o governo tem pertinência dado que está alinhado com as teorias sobre a competitividade e a guerra que assolam a Europa.

Os empresários mais fortes de toda a Europa constatam um conjunto de tendências favoráveis aos seus interesses, nomeadamente crescimento da extrema-direita, a estabilidade relativa do voto no centro-


direita, o desgaste dos sindicatos e dos partidos de esquerda, uma Comissão Europeia conservadora e virada para leste e um recente Relatório Draghi sobre a competitividade que é música para os ouvidos dos grandes empresários, banqueiros e acionistas.

A leitura que o governo e os empresários portugueses fazem é simples, tendo os países de leste como referência: há que flexibilizar a lei laboral, destruir o direito do trabalho que é um espartilho para a competitividade e criação de lucros.Com a lei do mais forte a funcionar, sem proteção do trabalhador, intensificam-se os horários de trabalho, despede-se com facilidade e pagam-se em contrapartida melhores salários a quem efetivamente os merecer aos olhos dos patrões, claro!

Juristas, empresários e políticos, que em geral vivem numa bolha e não são assalariados, acham esta narrativa lógica e interessante para os seus interesses.

Mas a vida de quem trabalha nas fábricas e nos campos leva-nos a outras narrativas como por exemplo este pequeno texto de um testemunho de uma sindicalista num encontro sobre saúde mental nos locais de trabalho: “Isto está a ir longe demais. Estamos a perder a humanidade.” Porque é isto que vemos: A trabalhadora que chorou no balneário, escondida, para ninguém ver. A que desmaiou na máquina porque já não tinha forças. A que foi humilhada pela chefia à frente de toda a gente. A que deixou de dormir por causa das metas impossíveis. A que perdeu a alegria porque o trabalho lhe tirou. Quando chegamos aqui — e já chegámos — não estamos apenas perante um problema laboral. Estamos perante um colapso moral. Um colapso das relações humanas. Um colapso daquilo que deveria ser o mínimo: respeito, cuidado, palavra, dignidade…..»

Debatem-se artigos de uma futura lei, puxando cada um para a sua barricada, os patrões portugueses estão dispostos a dar a estocada final para submeter ainda mais os trabalhadores! Os políticos dizem que querem melhores salários, mas é preciso criar mais riqueza, enfrentar a competitividade da China e de outros países como a Polónia onde os sindicatos estão submetidos a um partido conservador e iludidos com o crescimento económico!

Esta gente gestora e empresarial não sabe o que é trabalhar hoje na indústria e na agricultura e até nos serviços, como se vive com a precariedade durante muitos anos! Não sabem o que é trabalhar em locais de trabalho doentios anos seguidos e com salários incapazes de sustentar uma família! Esta gente sabe de leis e de política, mas perdeu a humanidade, gerem pessoas como se fossem coisas, sem respeito, sem humanidade! E, pasme-se, alguns até se licenciaram na Universidade Católica como a atual Ministra do Trabalho! Valha-nos Deus!!!

Falta gente que se indigne com o que se passa em muitos locais de trabalho. São muitos os trabalhadores que não acreditam na inspeção do trabalho e sentem uma impunidade total do chefe ou patrão! Aumenta o assédio moral e sexual, que o silêncio encobre com medo de se perder o emprego! Falta gente na Igreja Católica que seja profeta, que denuncie os ataques à dignidade do trabalhador, faltam empresários que mostrem que nas suas empresas existe bem-estar no trabalho e democracia. faltam sindicalistas mais audazes na luta pela dignidade e saúde dos trabalhadores! Faltam políticos que experimentem as agruras da vida de quem trabalha, que ouçam mais do que falam! Este não é o caminho de um  país  democrático onde os trabalhadores são chamados hipocritamente de «colaboradores» mas também de «mão de obra», «força de trabalho “ou «recursos humanos» ou «capital humano»!

 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O SONHO NÃO SECRETO DE MUITOS EMPRESÁRIOS!É TEMPO DE LUTA CONVERGENTE...

 

Atrevo-me a dizer que o sonho não secreto da maioria dos patrões e administradores é regressar ao século XIX no que diz respeito às relações laborais. Ou seja, o sonho de precarizar as relações de trabalho num


século das novas tecnologias e daquilo a que chamam inteligência artificial! Basta ver que, com honrosas exceções, os empresários e suas organizações empresariais alinham com o projeto laboral regressivo do atual governo expresso no Anteprojeto Trabalho XXI de Maria do Rosário Ramalho.

Esse sonho é alargar a todo o mundo laboral o que já existe em muitos setores, nomeadamente na restauração, limpezas, construção, agricultura e outros…Contratar o trabalhador sem qualquer encargo nem direito para além de uma remuneração decidida pelo patrão, eis o sonho !A Argentina caminha a passos largos para esse mundo de precariedade e o projeto de Ramalho aprofunda essa precariedade e, ao facilitar ainda mais o outsourcing e os contratos a prazo articulados com a expansão do trabalho temporário, aponta nesse caminho !

 Hoje já temos milhões de trabalhadores europeus numa situação clandestina, precária e humilhante, sem qualquer contrato, sem qualquer subsídio de almoço, sem subsídio de desemprego e sem férias e descontos para a velhice. Trabalham à hora, ou à peça ou trabalham subcontratados para empreiteiros que não cumprem a legislação mínima do trabalho. São trabalhadores descartáveis e invisíveis, enchem os comboios suburbanos pelas primeiras horas do dia, limpam os escritórios, aeroportos e hospitais das nossas cidades. Não são tratados com humanidade e não ganham o suficiente para viverem com dignidade. Ao longo da vida realizam trabalhos que os adoecem e continuam anos nos mesmos locais ou locais semelhantes com os mesmos riscos profissionais!

Decorreu no sábado passado, em Coimbra, um Congresso Extraordinário da Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos, uma Organização da Igreja Católica que perfaz em 2026 os 90 anos de atividade e que foi criada precisamente para defender a dignidade dos trabalhadores que passa pela defesa dos seus direitos inalienáveis de pessoas. Têm um grande desafio pela frente:  convencer os próprios cristãos e Bispos de que se pode viver o cristianismo no mundo conflitual do trabalho onde existe muita infelicidade, quando o trabalho deveria ser fonte de realização pessoal e de realização do bem comum. Como desenvolver reivindicações próprias e uma espiritualidade que seja expressão viva de uma fé que é a encarnação militante na vida dos trabalhadores? Uma espiritualidade atrativa para os jovens trabalhadores e que ultrapasse a «lamechice espiritualista»?

O Movimento Sindical debate-se hoje com um projeto laboral do governo que é humilhante para quem trabalha, retira direitos e torna cada trabalhador um burro de carga mais barato. É tempo de luta convergente pela dignidade de quem trabalha, é tempo de não aceitar a regressão civilizacional!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ACIDENTES DE TRABALHO E DOENÇAS PROFISSIONAIS- quanto custa a não prevenção?

 «Despesa pública com baixas por doença disparou: trabalhadores aumentaram e estão mais velhos.

A despesa com o subsídio de doença disparou de 562,8 milhões de euros em 2018 para 885,2 milhões de euros em 2023, correspondendo a um acréscimo de cerca de 57,3%, revela o mais recente relatório do Tribunal de Contas, divulgado nesta quarta-feira.» (Publico de 28 de janeiro).

O número de doenças profissionais também tem aumentado nos últimos anos, embora apenas uma parte minoritária das doenças relacionadas com o trabalho seja efetivamente detetada e certificada.


Aponta-se o aumento e envelhecimento da população trabalhadora, bem como o aumento da idade de reforma como causas desta situação. Mas há outras tão importantes ou mais do que estas. A mais importante é, a meu ver, as deficientes condições de trabalho, nomeadamente as condições de segurança e saúde no trabalho. Há muito que se deixou de falar no «envelhecimento ativo» na EU. Foi moda que passou e pouco ou nada deixou!

Existem milhares de empresas que não têm qualquer serviço de segurança e saúde e centenas de milhar que apenas possuem um contrato com um serviço externo de prestação de serviços. Na generalidade os empresários preocupam-se apenas com o cumprimento formal da legislação, em terem a papelada em dia, mas estão alheios aos riscos profissionais existentes nas suas empresas.

Recentemente a Inspetora Geral do Trabalho, dirigente máxima da ACT, referia esta realidade, ou seja, a excessiva externalização dos serviços de segurança e de saúde no trabalho. Mas a própria ACT tem responsabilidades nesta situação não apenas porque participou na legislação que o permite, mas na sua prática processual ao facilitar que as empresas, mesmo médias e até de alguma dimensão, possam adotar serviços externos em substituição de serviços internos

Os espertos e negociantes descobriram que estava aqui uma oportunidade de negócio e quem fica a perder são os trabalhadores portugueses. Em muitas empresas os trabalhadores nunca viram o médico do trabalho e este nunca avaliou qualquer risco na sua empresa.

A falta de uma prevenção no trabalho e a falta de promoção de segurança e saúde no trabalho cria problemas a muitos trabalhadores e suas famílias com acidentes que poderiam ser evitados e doenças que deveriam ser prevenidas. Milhares de trabalhadores continuam a ir todos os dias para locais de trabalho que os adoeceram! Eles são descartáveis!

A notícia acima referida apenas nos diz qual o montante da despesa com o subsídio de doença que foi quase de quase 900 milhões! Mas, para além do enorme sofrimento de milhares de trabalhadores, temos as despesas com o absentismo decorrente dos acidentes de trabalho, em cerca de 5 milhões de dias perdidos por ano e alguns milhões também decorrentes das doenças profissionais que não se resumem ao subsídio de doença! Mas se incluirmos os custos das doenças psicológicas relacionadas com o trabalho então teremos muito mais absentismo e perdas económicas substanciais, bem como sofrimento e ambientes de trabalho nada saudáveis! Alguns estudos estimam que em qualquer país os custos decorrentes dos acidentes e doenças profissionais serão cerca de 3 a 4% do PIB! Uma enormidade! No nosso País será o equivalente a três ou quatro anos de riqueza produzida pela Autoeuropa!

É difícil assim aceitar que nas propostas legislativas do governo para alterar a lei laboral não se abordem a melhoria da legislação preventiva no domínio dos riscos profissionais, nunca mais seja publicada a Estratégia Nacional para a segurança e saúde no trabalho, que deveria ter sido publicada em 2022, nem a revisão da Lista de doenças profissionais, em que a última revisão foi em 2007!

Este governo, e em alguma medida até os anteriores, têm uma visão demasiado economicista e só pensam no curto prazo. Não investem na prevenção dos riscos onde até no domínio económico se poupariam biliões de euros! Por mais que se afirme que os euros gastos na prevenção não são um custo, mas um investimento, esta gente apenas pensa no curto prazo e nos votos para não perderem o poder!

Ao Movimento Sindical compete ser muito mais incisivo nestas matérias, nomeadamente na formação e na reivindicação! Há que defender a vida e a saúde física e psicológica como o pão para a boca! As novas gerações de trabalhadores estão mais sensíveis a estes problemas! Lembramos as sábias palavras de um Papa, que alguns querem esquecer muito depressa, o Papa Francisco: esta economia que mata!

Quando os políticos neoliberais falam em flexibilizar e modernizar as relações laborais como acontece com a Ministra Ramalho deste governo estão a incentivar as condições para que mais trabalhadores e trabalhadoras tenham acidentes e doenças profissionais! Acreditem! O problema são os interesses que defendem e o facto de nunca terem trabalhado numa fábrica ou num Mac Donald….

 

 

 



sábado, 7 de fevereiro de 2026

PORQUE FALHA O ESTADO NA PROTEÇÃO DAS PESSOAS NAS HORAS NEGRAS?

 

Mais uma vez somos apanhados por uma tragédia que abrange uma parte significativa do País.


No verão passado foram os incêndios e o elevador da Glória, agora as cheias e os ventos! Sempre as mesmas críticas: falta de coordenação e de meios, falta de rapidez e oportunidade. As pessoas queixam-se de que foram abandonadas pelos serviços, enfim, pelo Estado.

Continuamos assim com aquilo que parece ser uma fatalidade! Mas nada mais falso. Não é uma fatalidade, é uma mentalidade, uma cultura e uma política essencialmente economicista, que apenas visa os custos a curto prazo e não tem visão estratégica para apostar na prevenção e no planeamento.

As consequências estão à vista de todos e podemos enumerar apenas algumas: mortes que poderiam ser evitadas e milhões de euros em prejuízos que poderiam ser evitados também.

Poderemos resumir em poucos pontos o que nos falta e poderia ser feito:

1.       Falta de planeamento e prevenção

2.       Falta de manutenção permanente e inteligente

3.       Avaliação periódica dos riscos e tomada de medidas apropriadas

Queixamo-nos de que somos um povo que não planeamos, mas ao mesmo tempo desconfiamos dos que querem planear e prever para prevenir. Em todos os campos é necessário prevenir para evitar ao máximo os efeitos nefastos, seja na saúde, nas emergências, na guerra e na paz e nos locais de trabalho.Hoje com o desenvolvimento das ciências e das tecnologias o planeamento e a prevenção podem ser organizados com rigor! Temos que promover a visão científica contra o empirismo, a exigência contra o facilitismo e a negligência. Temos que ter responsabilidade social, preocupação pelo bem comum.

Esta exigência abrange a necessidade de um sistema de manutenção permanente e inteligente. Uma manutenção das infraestruturas e equipamentos rigorosos e que não facilite em nome do baixo custo. As ideias neoliberais que inundaram as instituições são uma das causas das catástrofes porque regateiam o investimento público. Em nome do menos estado e da privatização deixaram-se pontes e estradas a cair de podres ou com elevado risco. Os cortes orçamentais sempre incentivados por Bruxelas e pelos governantes neoliberais são uma das causas das catástrofes e da incapacidade do Estado perante as alterações climáticas.

É importante por fim investir numa cultura rigorosa de avaliação dos riscos em todos os departamentos responsáveis pelas obras públicas e pelos equipamentos. Como se pode aceitar que haja tanta construção licenciada nos rios e ribeiros? Há que melhorar os planos locais de emergência, contratar e formar pessoas que possam assumir as tarefas de planeamento, coordenação e ação nas emergências! Acreditem por favor que Nossa Senhora de Fátima não nos vai proteger toda a vida!

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A SAÚDE MENTAL NOS LOCAIS DE TRABALHO NÂO É LEVADA A SÉRIO!

 

No dia 24 do passado mês de janeiro participei num Encontro sobre saúde mental nos locais de trabalho, em Matosinhos, promovido pela BASE-FUT. Foram convidados dirigentes sindicais de alguns setores como saúde e setor social, limpeza, segurança e vigilância, vestuário, comércio, construção e jornalismo.

A parte mais interessante foram os testemunhos e depoimentos dos sindicalistas que participaram com conhecimento do terreno e que mostraram bem como ainda existe uma cultura de passividade, de fatalismo perante os acidentes e doenças profissionais! Uma cultura que passa as culpas para o trabalhador apesar de na legislação portuguesa e europeia estar escrito que os empresários são os responsáveis pela segurança e saúde dos seus trabalhadores. Os locais de trabalho é que adoecem os trabalhadores e, portanto, o problema está no ambiente de trabalho  doentio, tóxico.

Por outro lado, na maioria dos casos, a saúde mental ainda não é levada a sério pelos trabalhadores e muito menos pelos empresários. Frequentemente os próprios trabalhadores não falam da sua situação mental para não mostrarem fragilidades aos colegas e chefias! Vivem isolados situações terríveis de assédio e violência ou de burnout que, em geral, vão desaguar numa baixa ou no despedimento!

Temos que levar muito mais a sério as queixas e outros sinais dos trabalhadores que podem estar a viver situações de violência que, em certos casos, levaram inclusive ao suicídio! Pessoas que dizem que dormem mal, mostram claros sinais de esgotamento, que estão sem capacidade de se concentrarem, que faltam ao trabalho com demasiada ftrequenência.

No Encontro acima referido foram relatadas situações de humilhação e assédio, de horários desregulados de ligação permanente ao trabalho, trabalho intensivo até à exaustão! Os sindicalistas sentem-se muitas fezes impotentes para ajudar estes trabalhadores e a legislação. para além de nem sempre estar adequada, também nem sempre é devidamente conhecida.

Na opinião dos participantes aumentam as situações de risco psicossocial nos locais de trabalho e a maioria das empresas não realizam avaliação de riscos com a participação dos trabalhos nem promovem medidas adequadas de prevenção conforme estipula a lei 102/2009.

O novo projeto de lei para o trabalho do governo se não for retirado ou profundamente modificado irá piorar as condições de trabalho em Portugal, nomeadamente a precariedade, a desregulação dos horários a facilitação dos despedimentos e o trabalho clandestino ou não declarado! Haverá mais ansiedade, mais cansaço, menos tempo para o lazer e para a família! Tudo boas condições para as depressões e para o burnout.

É necessário dar condições políticas e técnicas à Inspeção do trabalho (ACT) para melhor atuar com maior rapidez e eficácia. Por outro lado, os sindicatos terão que priorizar o combate pela promoção da segurança e saúde no trabalho, nomeadamente a prevenção dos riscos psicossociais, em todas as empresas e serviços do país. Uma prevenção que não seja um «faz de conta» como acontece em inúmeras empresas que contratam serviços externos que são uma caricatura daquilo que deveria ser!

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

QUE FUTURO PARA OS MOVIMENTOS CRISTÃOS DE TRABALHADORES?

 

Os Movimentos Operários da Ação Católica portuguesa, JOC e LOC/MTC, cumprem este ano 90 anos de atividade junto das classes trabalhadoras. Estes Movimentos perfazem, no entanto, um


século desde que foram lançados por um padre belga, Joseph Cardijn, bem conhecido dos católicos sociais de todo o mundo! O arquiteto em Portugal destes Movimentos foi outro padre, também conhecido nos referidos meios, o Padre Abel Varzim.

Em Portugal a história destas Organizações da Igreja Católica já tem vindo a ser estudada, embora ainda haja muito a investigar sobre a História do catolicismo social português e, nomeadamente, sobre os Movimentos que formaram gerações de jovens trabalhadores no assumir responsabilidades e empenhamentos sociais em ordem a mudar a sociedade e defender os direitos dos trabalhadores. Muitos destes jovens acabaram por ter importantes responsabilidades na sociedade portuguesa, nomeadamente no mundo do trabalho, na política, na educação e na cultura!

A ditadura de Salazar e a Ação Católica

Há, no entanto, um capítulo, entre outros, de toda esta fantástica história que ainda está pouco estudada, trata-se das relações entre a hierarquia católica portuguesa e estes Movimentos operários! Os mais velhos contam que o Cardeal Cerejeira, amigo e cúmplice de Salazar, dava «uma no cravo e outra na ferradura», mas aceitou os constrangimentos que o ditador impôs à Ação Católica Portuguesa, ou seja, a de se remeter ao que ele considerava «assuntos religiosos» e caritativos e nunca realizar qualquer ação que cheirasse a política! E porquê?

 Porque na mesma altura a ditadura estava a consolidar-se liquidando a oposição, em particular a sindical, e a construir o modelo corporativo e de partido único. Há estudos que apontam para o facto de Salazar temer a emergência em Portugal de um partido democrata cristão. Isto foi mais evidente ao cortar logo pela raiz, no início da década de trinta, a ideia dos católicos de criarem sindicatos.

A sedução inicial e desilusão posterior pelo modelo corporativo por parte dos dirigentes da Ação Católica parece hoje ser uma questão consensual. Foram muitos os militantes que aceitaram fazer parte das direções dos sindicatos nacionais e de outros organismos corporativos. É verdade que desde o início houve reticencias dos padres que tinham estudado em Louvaina. Para eles o modelo corporativo português não previa a liberdade associativa. E aí contrariava claramente a encíclica «Rerum Novarum”. O grande objetivo era «cristianizar o mundo do trabalho” e combater as ideias socialistas, em particular a ideia da luta de classes, propondo a colaboração de patrões e trabalhadores.

 

Durante décadas Cerejeira e restante hierarquia, bem como a maioria do clero conseguiram, de facto, com a ajuda do aparelho repressivo, manietar os Movimentos Operários. No entanto, o contacto dos militantes católicos com a realidade social e económica do país, nomeadamente a miséria dos salários e a falta de habitação digna, formação e qualificação foi importante para ir mudando as consciências.

Mas também foi importante a verificação de que nem os sindicatos nacionais nem o aparelho corporativo, e concretamente o Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, que regulava as relações laborais, defendiam os trabalhadores perante os patrões que se tornavam mais ricos enquanto a pobreza, e até a miséria, era o normal na maioria dos trabalhadores portugueses!

Paradoxalmente foi uma geração de padres assistentes dos Movimentos Operários que proporcionaram importantes mudanças nas décadas de 60 e 70 do século XX.O mundo estava a mudar a grande velocidade e o concílio Vaticano II proporcionou uma grande abertura ao social e ao empenhamento dos cristãos. Aos Movimentos chegou uma geração de líderes oriundos quase todos da Juventude Operária Católica que deram um novo rumo ao catolicismo social, combatendo a ditadura de diferentes maneiras e em diferentes movimentos de resistência até ao glorioso dia do 25 de Abril de 1974.

Estes católicos não tiveram apenas problemas com a repressão e censura, mas também com a própria hierarquia da Igreja Católica. Essa realidade marcou profundamente um número considerável de militantes cristãos que abandonaram as suas referências religiosas, mas continuaram a dar contributos significativos à sociedade portuguesa e à luta pela democracia.

A Igreja Católica desistiu do mundo do trabalho?

Uma questão importante a investigar seria a partir da seguinte interrogação: O apoio da Hierarquia aos Movimentos foi diminuindo ao longo do século XX e não foi revertido no século atual. Para além dos conflitos políticos com os Movimentos a razão deste menor apoio tem a ver com o facto dos mesmos já não serem movimentos de massas, mas muito mais de quadros? Ou será porque a maioria do clero não teve em Portugal formação adequada sobre estas matérias? Ou será ainda que a Igreja Portuguesa desistiu do mundo do trabalho? Ou será ainda porque considera os objetivos e estrutura dos Movimentos questões ultrapassadas, não adequadas a uma pastoral moderna?

Embora a Igreja Portuguesa seja das mais pobres da Europa, não creio que o não apoio consistente à pastoral operária seja por falta de dinheiro.

Responder a estas questões é fundamental para repensar o futuro da pastoral operária e dos Movimentos. A caminho de um século creio que seria muito importante fazer uma reflexão sobre estas matérias com frontalidade, utilizando até o método da própria Ação Católica: ver a realidade-julgar-e agir em conformidade! Não é justo que não se enfrente a realidade, que não se tenha a coragem de dizer: «não, não vamos por aí, o trabalho não é a nossa prioridade pastoral. São as jornadas da juventude com muito folclore e sentimento».

Ou dizer: «não, as estruturas da Ação Católica fizeram história, mas já não servem…»

Mas num momento histórico tão importante como o que estamos a viver em que graças ao avanço tecnológico o trabalho está a mudar de lugar e de natureza, a exploração e escravidão podem por isso mesmo aumentar gerando riqueza apenas para uma minoria, a Igreja Católica abandone o mundo do trabalho e o destino dos trabalhadores! Mais, deixa de proclamar claramente a sua doutrina social considerada hoje, por muitos e pelo capital, um «manifesto esquerdista»!