Em França, nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, 42% dos católicos praticantes franceses votaram na extrema-direita, mais que duplicando o número das eleições anteriores
(18%). Em Espanha sabemos também que a maioria dos católicos que se dizem praticantes votam no partido popular ou no VOX da extrema-direita. Em Portugal não conheço estatísticas nem estudos neste campo, mas será de crer que alguns desses eleitores também tenham deslizado para o partido Chega.
Basta estar atento às notícias para percebermos que na
América Latina, em especial no Brasil, os cristãos e em especial os evangélicos
e alguns setores do catolicismo apoiaram e apoiam o reacionarismo e
autoritarismo de Bolsonaro. Países onde emergiu a Teologia da Libertação
fervilharam comunidades de base e centenas de movimentos sindicais e sociais
progressistas animados por padres e leigos cristãos! Terra dos Bispos Hélder
Câmara e Óscar Romero, padres guerrilheiros como Camilo Torres e resistentes à
ditadura como Frei Betto e muitos outros!
Há grupos de católicos a contestarem o Concílio Vaticano
II
Hoje vemos ainda alguns setores de cristãos conservadores
americanos apoiarem o presidente Trump e os seus acólitos, misturando decisões
de guerra com orações e com a Bíblia!
Vemos inclusive grupos ultraconservadores católicos a
contestarem o concílio Vaticano II e os últimos Papas desde João XXIII até este
Leão XIV.
Por outro lado, vemos líderes da extrema-direita a usarem e
abusarem da religião nas redes sociais a apresentarem-se como os defensores dos
cristãos contra os árabes, a aprofundarem antigas guerras ditas religiosas, a
divulgarem teorias da substituição, enfim a provocarem o ódio contra o outro, o
diferente, o imigrante!
Vemos ainda as hierarquias católicas divididas perante estes
fenómenos políticos, dando «uma no cravo e outra na ferradura», com um ou outro
bispo a pôr os pontos nos iis no que respeita à imigração, a terem muita
dificuldade em criticarem a extrema-direita política e até religiosa, a serem
incapazes de tomarem posição clara sobre questões como a degradação das
condições de trabalho com consequências terríveis sobre a saúde dos
trabalhadores, o descanso dos mesmos e a vida familiar.
Incompreensível ausência no mundo do trabalho
Os documentos regionais e globais sinodais são uma amostra
transparente de como a Igreja Católica e largos setores de católicos estão a
ver o momento atual da transformação do trabalho para a era digital. Pouco ou
nada se falou sobre o que se passa no mundo do trabalho. Muito se falou e escreveu,
e bem, sobre o papel das mulheres sobre a governação da Igreja, sobre o
acolhimento das minorias etc. O pouco que apareceu sobre o mundo no trabalho
ainda foi por influência de alguns militantes da Ação Católica.
O que se passa afinal? Por onde caminha a Igreja católica e
os católicos enquanto eleitores e militantes?
Os cristãos, e nomeadamente os católicos, vivem hoje
profundas clivagens. Tal como na sociedade a Igreja é trespassada pela
polarização, bem no fundo, trespassada por aquilo que não gosta de aceitar,
isto é, a luta de classes. O grande Papa Francisco foi um dos elementos de
fratura porque chegou ao Vaticano numa altura em que as bases da Igreja já
estavam de marcha à ré. Ele era de uma geração que bebeu da Teologia de
Libertação, das lutas progressistas a favor dos pobres e indígenas nas décadas
sessenta e setenta do século passado. Foi um Papa odiado pelos
ultraconservadores que não aceitavam a sua abertura às minorias, aos Movimentos
Populares a esse apelo de «Todos, todos, todos…!» A extrema-direita não se
coibia de o criticar e existia um movimento mundial para o derrubar!
Luta cultural e ideológica atravessa as sociedades
Neste contexto a luta cultural e ideológica que atravessa as
sociedades também existe no seio dos católicos. A hierarquia refugia-se nos movimentos
espiritualistas e de massas, ignora os Movimentos Operários e populares. Teme a
contaminação esquerdista, abandona ou distancia-se objetivamente dos Movimentos
sindicais. O clero, uma profissão liberal, não entende o mundo do trabalho, e são
poucos os que querem fazer uma carreira nos Movimentos de Trabalhadores ou
serem padres operários!
Creio que estes tempos são complexos e exigem muita coragem
e debate sobre como atuar. Mas não tenho dúvidas que há que atuar com o povo
mais pobre, com o seu sofrimento, alimentando a esperança. Creio que ser cristão
é também alimentar a esperança e não se abandonar no conforto da simbologia, da
celebração pela celebração! Celebramos o quê? A luta da transformação das
nossas vidas para melhor, inspirados pelos Evangelhos. A vida digna não pode
ser monopólio de alguns, mas de todos! A liberdade não pode ser sacrificada ao
medo e ao autoritarismo securitário!






