quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE-Uma estratégia festivaleira?

 

Faltam seis meses para as Jornadas Mundiais da Juventude que , segundo os organizadores poderão


concentrar em Lisboa um milhão de jovens.

Embora acompanhando o evento de forma lateral, de fora do evento,como aliás muitos portugueses, não me é indiferente esta manifestação politico religiosa que mobiliza a Igreja Católica e a sociedade portuguesa, nomeadamente o governo, as autarquias e dioceses

Permitam-me, no entanto, algumas reflexões críticas.Não sobre o preço do palco altar, ou sobre os milhões que Lisboa vai gastar enquanto tantos imigrantes e desalojados vivem na rua desta cidade!Não deixam de me sensibilizar estas noticias, claro...e até deveriam ser informações a dar aos jovens que caminham para Lisboa.

Na preparação desta mobilização juvenil vejo pouca substância teológica e social e muitos actos simbólicos , alguns deles próprios de uma pastoral tradicionalista e pietista.As páginas do facebook e do site da organização das Jornadas manifestam um pietismo pre -concílio Vaticano II.

Os apelos à oração e os actos piedosos tradicionalistas que circulam pelas dioceses sobrepõem-se a uma reflexão e debate sobre a juventude e a sua situação social, os desafios do presente e do futuro como a guerra que assola a Europa, o custo de vida e as alterações climáticas.Que tipo de espiritualidade alimenta esta mobilização?É toda uma linguagem acomodada, burguesa, numa estratégia que tem um pé no modelo festivaleiro(ver caso do palco) e outro numa espiritualidade ritualista e pouco ou nada comprometida com a vida concreta.Parece que tudo se passa noutro mundo, que este evento paira sobre toda a realidade que vivemos.

As Jornadas correm assim o risco de pouco significarem ou contribuirem para uma pastoral juvenil actualizada e consistente que coloque os jovens como actores da comprensão e transformação da realidade social e eclesial em qiue vivem nos seus países.Estas Jornadas correm o risco de não serem mais do que um grande evento mediático, acrítico e festivaleiro, pleno de balões, cruzes e hossanas.

E viva o papa!A figura carismática de Francisco vai ser o centro, a estrela desses dias, certamente coloridos e bem vividos pelos milhares de jovens de todo o mundo.Será que os organizadores e alimentadores da iniciativa vivem neste mundo?Querem demonstar o quê?

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

O SINDICALISMO CONTINUA COMO GRANDE ESCOLA DE CIDADANIA!

 

A luta dos professores  é mais uma demonstração da utilidade do sindicalismo como instrumento de


defesa dos direitos dos trabalhadores mas também como escola de civismo e de dignidade!

Historicamente o sindicalismo e concretamente o Movimento Operário, veio fazer uma ruptura com a cultura dominante assitencialista na idade média e até no liberalismo até meados do século XIX.As corporações, as mútuas e  associações de socorros tinham uma cultura de solidariedade, de ajuda aos mais fracos, nomeadamente viuvas,sinistrados do trabalho e órfãos.Mas ainda não tinham gerado uma cultura reivindicativa e de autonomia.Eram associações de solidariedade,muito importantes numa época em que ainda não existiam sistemas de proteção e segurança social.

Essa cultura reivindicativa e de autonomia das classes trabalhadoras nasceu com as primeiras associações sindicais de classe animadas num primeiro período pelo Partido Socialista e, mais tarde ,pelos sindicalistas revolucionários e anarco sindicalistas e pelos comunistas a partir de 2019.

O Movimento social católico teve sempre muita dificuldade em aceitar a cultura reivindicativa e de  autonomia das classes trabalhadoras.Alimentou sempre uma cultura caritativa e de solidadriedade e, no trabalho, de colaboração de classes.Em Portugal apenas a partir das décadas de 50/60 do século XX  é que uma significativa parcela dos Movimentos operários católicos fez uma ruptura com a ditadura e com o sistema capitalista.O Centro de Cultura Operária (CCO) e o grupo BASE tiveram aí um papel decisivo.

Portanto, a cultura reivindicativa de direitos sociais e de cidadania, com origens na Comuna de Paris e na Associação Internacional de Trabalhadores, pertence ao Movimento Operário e Sindical.Esta questão é muito importante porque ainda hoje estas duas mentalidades  se confrontam no nosso País.A cultura reivindicativa é mais urbana e das organizações de trabalhadores ;a cultura caritativa e de solidariedade é mais rural e de influência da Igreja Católica e suas organizações.

Para a cultura cívica de reivindicação e de promoção e alargamento dos direitos políticos e sociais muito tem contribuído o sindicalismo.Os sindicatos, em particular quando dinamizam movimentos sociais de contestação e de defesa de direitos, são escolas de cidadania.«Também se ensina enquanto se luta»!Diria mais, é na ação concreta que melhor se aprende.Aprende-se  a ganhar autonomia e espirito crítico, a tomar a palavra, a ganhar confiança nas suas capacidades e do grupo, a liderar, a ouvir os outros e exprimir os seus anseios e pontos de vista.Treina-se a coragem psiquica e física,enfrenta-se o conflito e gere-se o diálogo e a relação de forças.

O sindicalismo não burocrático, de base, participado e autónomo é uma grande escola de civismo , de democracia de participação.Será que a sociedade democrática o reconhece?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

COM ESTA BARAFUNDA AS DIREITAS QUEREM DERRUBAR O GOVERNO ANTES DO TEMPO...PORQUÊ?

 

Os últimos acontecimentos ocorridos no governo de maioria socialista deixaram-nos verdadeiramente


estupefactos e preocupados.Os casos sucessivos de demissão devidos a compadrios políticos, eventual corrupção e problemas com a justiça serão, porventura, a ponta do icebergue do que se passa nos últimos tempos, não apenas no governo, mas também no Estado, nas empresas públicas e nas autarquias.O governo parece efectivamente sem norte, acomodado e sem dinâmica.

As direitas políticas PSD,IL,Chega, agarraram com todas as mãos estes casos para desgastarem o governo socialista que elas julgavam durar por quatro anos, gerindo a pandemia , as causas da guerra e a famosa «bazuca».

As esquerdas ,BE e PCP, sentem-se por sua vez numa situação incómoda porque, embora acusando o governo de se empenhar em políticas de direita,não querem facilitar a onda direitista que claramente cavalga o momento mau do governo.

A direita está em recomposição?

Mas todos estes fenómenos que são o gaudio da comunicação social,que nestes dias teve mais do que Boas Festas,não são mais do que espuma de um rio subterrâneo que atravessa a nossa sociedade.

E que rio é esse?Trata-se do que ocorre nos grupos económicos portugueses com ligações às multinacionais e com expressão nos grandes partidos do governo ,PSD e PS, e alguns mais á direita, como o a Iniciativa Liberal,e Chega.Efectivamente a maioria dos interesses económicos portugueses apostam no Partido Socialista e no Partido Social Democrata.Todavia, hoje, existem sectores da burguesia nacional que estão a mudar  a sua aposta política.Daí que alguns polítólogos digam a que a direita está em recomposição.Alguns sectores dos interesses económicos apostam hoje menos no PSD e PS e querem um governo mais á direita com a integração numa aliança da direita incluindo a Iniciativa Liberal e o Chega.

Serão sectores importantes económicos que não foram abrangidos pelos dinheiros da «bazuca», sectores descontentes com as lideranças e linha política do PSD, descontentes com os sucessivos aumentos do salário mínimo promovidos pelo PS nos últimos anos.

Objectivo é derrubar o governo socialista

Estas direitas embora pretendam o mesmo, ou seja, o derrube da maioria socialista e eleições antecipadas, não estão de acordo quanto ao ritmo da luta e ao tempo desse derrube.Existem sectores que estão apressados,porque acreditam que quanto mais barafunda existir melhor para uma estratégia de destruição do regime.Acreditam que a situação lhes é favorável em todos os cenários.Acreditam que a maioria eleitoral do PS se pulverizaria em novas eleições.Cheiram o poder para breve e sonham já com o ouro!Existem outros sectores que consideram não ser ainda o momento de derrubar o governo,talvez em 2024,quando estiver claro por sondagens que o PSD ganharia esses eleições.

Embora senhores da maioria dos órgãos de comunicação e com um representante ministerial no governo e com a cumplicidade de António Costa na área laboral os interesses económicos querem mais do Estado, mais apoios financeiros, mais liberalização das leis laborais.Julgam que uma coligação de direita seria neste momento oportuna porque é bom desembaraçar-se do Partido Socialista.

Alguns aspectos da chamada «Agenda do Trabalho Digno»,apesar de já terem sido limados pelo governo ainda não são do agrado da maioria do patronato económico e de algumas multinacionais.

O Partido Socialista continua a dar uma no cravo e outra na ferradura na área laboral.A sua benevolência para com os interesses económicos não lhes vai trazer mais votos.É um partido que deve fazer uma limpeza política do oportunismo que abunda no seu seio.A raiva surda que existe em muitos dos seus militantes pode acabar pela desistência, pelo abandono do trabalho cívico e político.O actual governo está a danificar  muito profundamente a história do Partido Socialista.

Ao ver a actuação da oposição da direita e dos órgãos de comunicação nesta crise política, interrogo-me se efectivamente já não existem sectores da direita que querem enterrar o actual regime constitucional.Por outro lado, os casos de corrupção que aparecem na classe política ligada ao poder são um sinal claro de degenerescência do regime.

 

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

O CATAR E O PARLAMENTO EUROPEU-pobre de quem trabalha!

 

Afinal estamos a verificar que um rico e pequeno país como o Catar para além de escravizar trabalhadores também parece corromper poderosos organismos de futebol,bem como ilustres instituições da União


Europeia como é o caso do Parlamento Europeu.

A julgar pelas informações que nos chegam o Parlamento Europeu tornou-se, não apenas numa plataforma demasiado vulnerável aos lobis, mas também se tornou num antro de lavagem de dinheiro,lugar de uma rede criminosa de tráfico de influências poderosas com ligações a países ricos e não democráticos.É verdade que o processo ainda vai no adro e oxalá que forças ocultas não mandem arquivar o mesmo e o cancro não seja assim extirpado o que seria um formidável tiro nos pés!

Se bem que a situação de corrupção no Parlamento Europeu seja grave, muito mais é ainda a questão de que o objectivo do corruptor-o Catar- é lavar a cara perante o mundo e o Mundial de Futebol relativamente ao denunciado espezinhamento dos direitos humanos, nomeadamente as degradantes condições de vida e trabalho dos trabalhadores imigrantes naquele país.Em vez de investir dinheiro na melhoria das condições de trabalho dos seus trabalhadores-quase todos estrangeiros-o Catar investe milhões em corromper personalidades e organizações influentes para melhorar a sua imagem após o terrivel massacre de trabalhadores (mais de sete mi mortes no trabalhol) na construção dos estádios do mundial de futebol.

Perante a actuação deste país em termos internacionais as instituições da UE não sugerem sanções ao mesmo, considerando-o antes um parceiro económico e político.

Mas, mais grave será, ainda, este caso se, porventura, estiver envolvido neste escândalo algum alto dirigente sindical da Confederação Sindical Internacional (CSI).Esta Organização Mundial foi rápida a actuar dado que o seu Secretário Geral, Luca Visentini, também investigado neste caso e recentemente eleito, pediu  agora a demissão sendo em breve substituído  à frente  da CSI.

As instituições europeias prometem actuação eficaz neste caso e medidas preventivas para o futuro.O problema é que a burocracia comunitária tornou-se numa quase classe com autonomia, interesses próprios e poderes excessivos.Longe dos cidadãos e pouco controláveis pelos mesmos os funcionários e eleitos da União tornaram-se quase numa casta cheia de privilégios e mordomias.O caso é grave a vários títulos!

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

A EXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES IMIGRANTES É VERGONHA NACIONAL!

No passado dia 23 de novembro uma mega operação policial desmantela uma rede mafiosa de exploração de trabalhadores imigrantes na região de Beja.Três destes trabalhadores foram hospitalizados no mesmo dia por esgotamento.A rede controlava o trabalho de centenas de

estrangeiros e nacionais submetendo-os a uma situação de escravatura.A maioria dos responsáveis da rede, nacionais e estrangeiros,ficou em prisão preventiva.

O probelma não é novo em Portugal, embora relativamente escondido para favorecer a tão famosa agricultura moderna, intensiva e exportadora que destruiu os últimos baluartes da agricultura familiar naquelas regiões e teve um aumento de mais de 30% de assalariados nos últimos anos e ainda precisa de mais gente a trabalhar e de muita água,muita água num país em crescente seca…

O Ministro Luis Carneiro da Administração Interna disse recentemente que o problema não é novo e é internacional, que «é um problema estrutural e que quando as forças policiais estão a intervir é porque a sociedade está a falhar».Reforça a ideia de que é necessária uma boa articulação entre estas forças (PJ,SEF,GNR,ACT).

Mas será que o Estado, nomeadamente a justiça e a sociedade portuguesa têm reagido adequadamente  a esta situação ?

“São dezenas, ou até centenas, de pessoas a viver em condições degradantes, a passar fome e frio e a ganhar uma miséria”, disse ao Correio da Manhã em Dezembro de 2010 o Bispo D.António Vitalino Dantas sublinhando que “é lamentável que uma coisa destas ainda ocorra em Portugal”.

António Vitalino Dantas diria que “os imigrantes chegam em camionetas, são descarregados nas herdades e colocados a residir em barracões sem o mínimo de condições”.O Bispo denuncia as situações de escravatura humana no Alentejo promovidas por mafiosos.

Porém, muito raramente a Igreja Católica denuncia estas situações típicas de escravidão, indignas e inaceitáveis!Curiosamente nas reflexões do sínodo nada aparece sobre esta matéria,ou seja, a maioria dos católicos não se sente interrogada pelo que se passa

ao nível dos direitos humanos no terreno laboral.
Algumas associações de imigrantes (ONGS), partidos (PCP e BE), alguns sindicatos da CGTP e autarquias também denunciaram esta situação nas últimas décadas.Mas depois remetem-se ao silêncio porque efectivamente não possuem meios para combater esta situação ou as suas propostas são chumbadas no Parlamento!

Existe legislação mas não se aplica a todos

A Ordem dos Advogados na sua página na internet colocava, porém, a mão na ferida quando afirmava em dezembro de 2021:«Os donos de terras e as explorações agrícolas que contratam imigrantes ilegais a intermediários que os exploram nunca são responsabilizados criminalmente, sofrendo meras contraordenações. Há quase dez anos que existe uma lei que prevê penas de prisão pelo crime de “utilização da atividade de cidadão estrangeiro em situação ilegal”, mas ainda ninguém foi condenado.

E continua:«Na prática, a ação da Justiça tem-se limitado a perseguir as empresas de trabalho temporário que fornecem a mão de obra migrante e cujos sócios muitas vezes são absolvidos ou desaparecem, deixando para trás dívidas ao Fisco e à Segurança Social e trabalhadores a viver em condições miseráveis.»

E continua o texto referido:Quem está no terreno (…) considera que enquanto não se responsabilizar criminalmente toda a cadeia de contratação as redes de exploração de migrantes continuarão com terreno aberto.

Consultando as estatísticas oficiais na Direção-Geral da Política da Justiça, não há registo de qualquer condenação ao abrigo do artigo 185-A do Regime Jurídico de Entrada, Permanência, Saída e Afastamento de Estrangeiros do Território Nacional (lei 23 de 2007) que prevê penas de prisão até seis anos (ou mais em caso de reincidência) pelo crime de “Utilização da atividade de cidadão estrangeiro em situação ilegal” para “quem, de forma habitual, utilizar o trabalho de cidadãos estrangeiros que não sejam titulares de autorização de residência ou visto que habilite a que permaneçam legalmente em Portugal”.

O artigo, aditado em 2012 à lei que, em 2007, agregou várias diretivas europeias, penaliza também gravemente “o empregador ou utilizador do trabalho ou serviços de cidadão estrangeiro em situação ilegal, com o conhecimento de ser este vítima de infrações penais ligadas ao tráfico de pessoas”. Bem como se forem verificadas “condições de trabalho particularmente abusivas ou degradantes”. »

Mas então o que se passa?

Mas então o que se passa podem perguntar os portugueses:

Ministério Público  e advogados consideram que a lei de 2007 não é usada e que prova é difícil de fazer.

Diz o texto da Ordem dos advogados:Alberto Matos, diretor em Beja da Associação Solim – Solidariedade Imigrante e coordenador distrital do Bloco de Esquerda , não tem dúvidas de que “sem uma responsabilização direta de toda a cadeia contratante, a escravização e exploração da mão de obra vai continuar”. Mas a questão não é simples e não há uma explicação definitiva para que do referido artigo 185-A do Regime Jurídico de Entrada, Permanência, Saída e Afastamento de Estrangeiros do Território Nacional, que parece ter sido criado para englobar toda essa cadeia contratante, nunca tenha resultado qualquer condenação.

Os proprietários conseguem fugir às suas responsabilidades

A Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados considera que “o Ministério Público parece não estar a enquadrar os factos como indícios do crime de ‘utilização da atividade de cidadão estrangeiro em situação ilegal’”. E que “talvez isso explique em boa parte a ausência de condenações”. Adão Carvalho, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, admite que existe “alguma dificuldade em demonstrar que os utilizadores do trabalho de cidadãos estrangeiros conheciam que as pessoas que estavam a trabalhar nas suas explorações agrícolas não eram titulares de visto ou autorização de residência”. São fornecidos por empresas de contrato temporário ou similares e “os donos das explorações agrícolas refugiam-se nesse facto para afirmar o seu desconhecimento”, explica.

“As leis existem para ser utilizadas”, afirma o magistrado. “Estou convencido que, perante a perceção pública e atual dessa realidade, será mais difícil aos donos da exploração agrícola escudar-se na relação contratual e de igual forma, quer os magistrados do MP quer os juízes deixarão de aceitar como credível essa defesa”. Para Belchior de Sousa, advogado em Ferreira do Alentejo, a responsabilização solidária também é difícil porque o utilizador final faz “um contrato de prestação de serviços e não um contrato de trabalho”. “Faz toda a diferença. (…) Não são obrigados a saber quem são e de onde vêm”, explica.

Após visitar Odemira, a Comissão de Direitos Humanos traçou um quadro negro da realidade vivida pelos migrantes num relatório que emitiu naquele mês. A maioria chega ilegal depois de pagar a intermediários 18 mil euros pela promessa de um contrato de trabalho. A legalização pode custar mais oito mil e a renda de casa, em condições precárias e em grupo, ronda os 800 euros. Dos dois salários mínimos pagos pelos contratadores, em média, sobram-lhes 130/150 euros. O resto é para o intermediário.

Pelo menos desde 2003 que o esquema é conhecido. As redes que exploram imigrantes ilegais criam empresas unipessoais para colocar os trabalhadores. Há um responsável por cada meia centena de imigrantes e é este quem negoceia com os agricultores os salários a pagar. Um grupo de 4/5 pessoas que pode apanhar cerca de mil quilos de azeitona num dia e só recebe do “angariador” 50 euros para dividir por todos. Nalguns casos, os “empresários” desaparecem sem pagar ao Fisco e à Segurança Social.

A lei 28/2016 prevê a responsabilidade solidária dos contratantes “face às violações para com trabalhadores temporários, cedidos ocasionalmente ou dos trabalhadores ao serviço de empresas prestadoras de serviços” quando laboram nas suas instalações”. Mas como quem contrata não é arguido, só após condenação transitada em julgado dos visados é que a responsabilidade se efetiva.»

Conclusão

Vamos continuar periodicamente com noticias sobre esta vergonha nacional!As Autoridades e o Ministério Público quaixam-se da legislação e da falta de meios para actuar.Os partidos da governação (PSD e PS) não querem perturbar as grandes exolorações agrícolas da famosa «agricultura moderna e exportadora»

É verdade que a realidade da exploração dos trabalhadores agrícolas  e sua escravização é uma questão dificil não apenas na sua deteção e investigação e levantamento mas principalmente na penalização dos utilizadores agrícolas, mafiosos e exploradores.

Mas, não nos enganemos, estas situações não existem apenas no Alentejo.Em alguns concelhos do norte de Lisboa e Ribatejo, nas Beiras, no Algarve e no Douro existem redes de trabalho não declarado,ilegal e clandestino.Claramente falta vontade política nas elites portuguesas para pôrem na ordem este capitalismo agrário que não respeita os direitos humanos nem a legislação nacional.Também temos os nossos «Quatares»!


quarta-feira, 2 de novembro de 2022

O SINDICALISMO PORTUGUÊS TERÁ QUE ALCANÇAR UM NOVO PATAMAR!

 Para enfrentarmos a situação presente e desenvolvermos uma democracia económica, social e política inscrita na Constituição Portuguesa é necessário um sindicalismo forte e mobilizador.Todos estarão de acordo com esta afirmação, no entanto nem todos concordarão com os caminhos a prosseguir para atingir tal objectivo.

Sindicatos perdem influência social

Não é segredo para ninguém a progressiva perda de influência social e política do conjunto do movimento sindical português nas últimas décadas.É notória a ausência de influência da UGT que continua a ser «muleta» dos sucessivos governos perdendo a sua credibilidade.Patrões e governos sabem que a UGT não impõe grande respeito ao poder político .

Os seus sindicatos acomodados vivem ainda de sindicalistas em idade de reforma e do chamado «diálogo social» que pouco mais tem sido de que uma negociação «de faz de conta» e de cúpula.Mesmo quando os seus dirigentes fazem ameaças de virem para a rua, os patrões e governos não levam a sério tal discurso.A UGT é ordeira, burocrática e acomodada.

No outro lado temos a CGTP que nunca esteve tão isolada nacional e internacionalmente.Teima em  slogans,muito vazios de conteúdos, e de uma segunda linha de dirigentes com menor consistencia e formação do que a geração abrilista.A sua ação, muito repetitiva, acompanha um discurso pobre e colado ao partido político que mais influência tem na Central.Os funcionários sindicais e o núcleo de activistas levam ás costas o grosso das ações num activismo  permanente  de rua e de assembleia, sobrando pouco tempo para a visita aos locais de trabalho, informação e formação dos trabalhadores.

Esta estratégia de trabalhar apenas com as suas organizações próximas politicamente, de olhar as instituições do Estado com desconfiança, de confundir participação com colaboração, de privilegiar a crítica ao Estado e aos governos relegando para segundo lugar  a crítica aos empresários e ao capital, conduziu a uma perda clara de influência da CGTP na sociedade portuguesa.Uma CGTP que, no entanto, continua a ser a maior organização social militante.

Os restantes sindicatos independentes ou não alinhados com uma das centrais estão fragmentados e são raras as estratégias de concertação,imbuidos uma parte deles de um corporativismo estiolante.

A nossa democracia exige sindicatos fortes

Temos assim, não se pode esconder o sol com uma peneira,um movimento sindical em erosão e desgastado, embora com o seu núcleo activista e estrutura intactos.Essa erosão é notória particularmente nos locais de trabalho, a base essencial do sindicalismo reivindicativo e transformador.

Ora, uma democracia como a entendemos hoje exige sindicatos fortes e mobilizadores.Sindicatos que tanto na concertação de cúpula como na negociação colectiva, como na luta de rua e nas empresas consigam ganhos para os trabalhadores e impeçam o seu  contínuo empobrecimento e desvinculação sindical.

Para que tal aconteça os sindicatos terão que ter os trabalhadores com eles e não apenas os activistas e funcionários sindicais.Mas ainda mais,tal como fazem os patrões as diferentes famílias sindicais terão que agir de forma concertada e alcançar novos patamares de convergência sindical para travar a regressão social em curso e as ameaças á democracia.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

PORQUE ESTÃO AFASTADOS OS JOVENS DOS SINDICATOS?

 

Hoje temos em Portugal uma juventude mais instruída do que no passado.Dizem


que temos a geração com mais habilitações académicas de todos os tempos.

Esta democratização do ensino e da instrução é um sinal de desenvolvimento do País.Esta juventude formada vai entrando nas empresas sem uma correspondente informação sindical onde se inclui a importância de pertencer a um sindicato.Estranhamente a maioria das famílias não incentiva a filiação sindical dos mais jovens nem acompanham as condições de trabalho dos mesmos ,nomeadamente de segurança e saúde, exceptuando a questão salarial.Quanto vais ganhar é a questão principal.Alguèm quer saber se o filho tem seguro de acidentes no seu trabalho?

Uma parte significativa dos jovens entra tardiamente e de forma precária no trabalho.Esta situação inibe não apenas  a adesão ao sindicato mas também retarda o desenvolvimento de uma consciencia laboral, nomeadamente de procura de informação e formação sobre os seus direitos.

Temos assim milhares de jovens trabalhadores que não conhecem os seus direitos sobre segurança e saúde,paternidade, contrato colectivo, férias, despedimento etc.Alguns consideram até que não é necessário saber estas coisas pois a empresa encarrega-se disso,sem suspeitarem que, por vezes, não lhes dizem tudo,ou dizem aquilo que é mais conveniente.

Dificuldades ou barreiras à adesão dos jovens aos sindicatos

Existem no entanto algumas dificuldades ao trabalho para que os jovens se possam organizar sindicalmente.Podemos elencar alguns com destaque para:

1.O desconhecimento das vantagens de estar sindicalizado;

2. A forte precariedade laboral que afecta em especial os jovens;

3.A cultura anti sindical da maioria dos empresários e gestores que se manifesta de forma mais brutal ou mais subtil;

4.A desvalorização social dos sindicatos e sindicalistas em particular pelos «media»;

5.A percepção social de que os sindicatos estão muito ligados a determinados partidos políticos;

6.A existencia de discursos e práticas sindicais pouco criativas e que não envolvem os jovens

Embora poucos estudos (1) existam sobre esta matéria um ou outro conclui que os jovens aproximam-se dos sindicatos por influência dos familiares ou amigos.

Vantagens de ser sindicalizado

É importante saber que estar sindicalizado é um direito desde que nos tornamos trabalhadores.Podemos informar a empresa ou não da nossa situação sindical.Podemos pagar a quota sindical por transferência bancária sem que a empresa tenha que estar informada.

Estar sindicalizado tem várias vantagens, nomeadamente uma informação específica sobre a nossa profissão ou o nosso sector económico, sobre os nossos direitos gerais e do nosso contrato.Uma outra vantagem significativa é que podemos usufruir do apoio jurídico em caso de conflito com a empresa.Os sindicatos promovem também diversas ações de formação que nos podem ser úteis.

Qual é o papel do sindicato numa empresa

Um sindicato numa empresa tem por missão representar os trabalhadores seus associados e defender os direitos e interesses dos mesmos face ao patrão ou administração.Os trabalhadores sindicalizados na empresa são o primeiro e mais importante pilar do sindicato.Assim, ao contrário do que muitos pensam o sindicato não é uma organização exterior à empresa e aos trabalhadores.Por vezes nesta matéria o próprio discurso sindical é ambiguo ao não deixar claro que o sindicato é o conjunto dos trabalhadores sindicalizados e organizados.

A existência de um sindicato numa empresa facilita a vida dos trabalhadores e da gestão/administração.Quais são os problemas?Vamos dialogar e resolver os problemas de forma justa,sempre na defesa dos interesses e direitos dos trabalhadores.Havendo um sindicato a administração tem mais cuidado e respeito com a gestão das pessoas.Empresa sem sindicato é um local de trabalho sem possibilidade de contrabalançar o poder  da administração.Havendo discriminação e atentados aos direitos de um trabalhador entra em ação o delegado sindical, que é um trabalhador eleito democraticamente pelos sócios do sindicato no local de trabalho.O delegado sindical ou a comissão sindical é o porta-voz e representante dos trabalhadores.A Constituição Portuguesa e a lei do trabalho protege o delegado sindical e a ação sindical na empresa.O delegado sindical pode constituir com outros delegados uma comissão sindical de empresa.Todos fazem parte do sindicato.

(1)        Tese de mestrado de Batriz Maria Ribeiro Cid «Sindicalismo:um contributo para a compreensão da sua diminuição junto dos trabalhadores mais jovens» ISCTE,2019