sábado, 27 de agosto de 2022

O PARTIDO CHEGA QUER UM SINDICATO PARA COMBATER O SINDICALISMO

 

Segundo notícia recente o partido «Chega», à semelhança do seu congénere espanhol VOX, também


pretende criar uma «frente sindical».Ambos foram buscar o nome de «Solidariedade» auto arvorando-se o direito de serem iguais no nome e pretensamente semelhantes na ideologia anticomunista  ao conhecido sindicato polaco «Solidarnosc» que enfrentou e derrotou a ditadura militar  do partdio comunista polaco na década de oitenta do século passado na base de um amplo movimento de massas liderado pelos operários polacos,fazendo assim uma ruptura histórica com o regime

Por outro lado, tal como o VOX entronca numa ideologia sindical franquista também os ideólogos do Chega irão buscar ideias ao sindicalismo corporativista de Salazar e do sindicalismo  nacional-fascista de Rolão Preto.

Os objectivos do pretenso sindicato ou frente sindical a criar serão os mesmos a que se propõe a extrema direita europeia , alguns dos quais e suscintamente passo a considerar:

1.      - Alargar a sua base de apoio social penetrando alguns sectores de trabalhadores descontentes e empobrecidos e, em especial ,entrar nas forças de segurança e militarizadas;

2.       -Descredibilizar os sindicatos portugueses existentes e muito em particular a CGTP, acusando-os de submissos e vendidos ao poder, acomodados e ineficazes;

3.       ~-Conquistar a sua parte de ocupação da rua que eles consideram entregue ás esquerdas.Organizar manifs e comícios« sindicais« em especial nos dias simbólicos para a democracia como o 25 de Abril, 1º de Maio e 5 de Outubro; se puderem organizarão provocações para virar trabalhadores  contra trabalhadores ou contra símbolos e partidos de esquerda.

4.      - Dividir os trabalhadores nos locais de trabalho atacando a organização sindical de classe e, em conluio com alguns sectores patronais,negociar acordos e contratos favoráveis a estes e implementando valores racistas, de ódio e de desigualdade de género;acusando os outros sindicatos de incentivarem a luta de classes, a destruição da economia nacional e a harmonia das empresas á boa tradição fascista.

Perante estes objectivos  que comportará essa «frente fascista» caberá às organizações de trabalhadores desenvolverem uma resposta global que pode passar por alguns dos seguintes pontos:

1.Responder com propostas arrojadas de reforço da unidade e de dinamização sindical nos locais de trabalho,nomeadamente reforçando os canais de diálogo entre a UGT , CGTP e sindicatos independentes progressistas;

2.Reforçar a autonomia e independencia sindical, despartidarizando os sindicatos e a dependência perante o Estado dando claros sinais aos trabalhadores descontentes com a ação sindical que os sindicatos são espaços de todos os trabalhadores ,qualquer que seja a sua orientação política e religiosa;

3.Reforçar o trabalho de base, nos locais de trabalho, bem como  a informação e formação sindical;melhorar a participação sindical dos imigrantes, jovens e das mulheres claramente deficitária.

4.Defender um sindicalismo de valores e reivindicativo que, sendo combativo, não visa destruir as pessoas nem as empresas, mas defender com audácia e eficácia os interesses e direitos dos trabalhadores;um sindicalismo de solidariedade entre todos os trabalhadores reforrmados, desempregados e no activo;precários e permanentes; a defesa dos sindicalizados como primeira obrigação, mas também os direitos dos não sndicalizados.

Eis uma primeira reflexão que pretende ser uma contribuição para que esta questão não seja ignorada com o argumenta de que não se lhe deve dar importância.Cada assunto merece a importância que lhe queremos dar.Esta , a meu ver, merece ser debatida e enfrentada.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

ULTRAPASSAR A CRISE? apenas com sindicatos fortes!

 

Nos tempos conturbados que vivemos sáo necessários sindicatos fortes.A subida histórica dos preços,


em particular dos bens alimentares e da energia, empurram muitos portugueses para a pobreza.Em contraste as grandes empresas cotadas na bolsa e os bancos aumentam extraodináriamente os lucros.Com o aumento das taxas de juro são muitas as pessoas que sentem no bolso o aumento das rendas de casa ou das mensalidades pagas aos bancos.E os salários? Na Função Pública estagnaram e no privado os aumentos estão longe da taxa de inflação.Perante esta situação ouvimos os gritos impotentes da CGTP que procura mobilizar o que resta dos sectores sindicalizados e também o silencio cumplice e ensurdecedor da UGT.Isto para não falar de uma Conferência Episcopal tolhida pelos casos de abusos de menores e silenciosa perante o drama do custo de vida.

A maioria dos trabalhadores continua fora dos sindicatos

A grande maioria da população, nomeadamente dos trabalhadores portugueses, continuam fora dos sindicatos, entregues à caridade da Igreja ou à benevolência estatal, dependendo dos parcos subsídios dados pelo orçamento do estado, das cantinas sociais ou dos pequenos aumentos das pensões mais baixas.Ora, para piorar a situação não vamos ter eleições nos próximos tempos pelo que o governo de António Costa vai sendo avaro para mais tarde ser pródigo.

Neste quadro podemos ter perdido a confiança nos sindicatos ou não gostarmos deles por razões políticas.Não podemos, no entanto, argumentar que se precisa do dinheiro da quota, pois esse dinheiro irá cair-nos no bolso com juros aquando dos acertos do IRS.

Não podemos também argumentar que os sindicatos não fazem nada pois as pessoas vivem melhor nos países onde a maioria da população trabalhadora pertence aos sindicatos;nos sectores profissionais com fortes sindicatos como os médicos, professores, transportes e grandes empresas conseguem-se melhores salários , mais direitos e mas regalias.

Com sindicatos fortes não estariamos a viver este aumento de preços sem aumento de salários convenientes.O abandono dos sindicatos ou a não filiação dos mais jovens trabalhadores nos mesmos está, a par da precariedade e das mudançass tecnológicas, a empurrar a classe trabalhadora para uma situação de empobrecimento estrutural e para o aprofundamento das desigualdades em Portugal.E não é o plano social apregoado por Montenego no Pontal, nem o plano social do governo previsto para setembro, que vão resolver este grosso problema.

Um novo movimento de adesão aos sindicatos

Sem um rejuvenescimento sindical geracional, tático e ideológico, sem um novo movimento de adesão da classe trabalhadora aos sindicatos vamos ter mais pobreza, fuga de jovens quadros para o estrangeiro e mais imigrantes  a chegarem ao nosso País para alimentarem a nossa economia com baixos custos do trabalho.

Sinceramente não acredito que a «salvação» venha dos partidos que tradiconalmente  controlam o poder do Estado e das forças empresariais.Vão continuar a chorar lágrimas de crocodilo, dizendo que é necessário subir os salários e as pensões, fixar os jovens quadros no País, tornar a habitação acessívelA saída para a crise ou crises apenas pode vir dos trabalhadores organizados.Daí a pesada responsabilidade das organizações de trabalhadores, em particular da CGTP e da UGT.Se esta última Central sindical continuar amorfa e a CGTP a emagrecer terá que haver alterações no panorama sindical em Portugal,pois não acredito que o marasmo e ineficácia  possam continuar.

Podemos argumentar,como fazem alguns quadros do partido socialista, que a conjuntura é adversa, mesmo péssmia, com a guerra, a seca e a pandemia.Ninguém contesta tais factos e suas terríveis consequências.Todavia, o que os pobres e os trabalhadores não vão perdoar é que no meio destes terríveis factos haja tanta empresa que vê aumentar os seus lucros e tanta gente a valorização do seu capital , aproveitando precisamente o mal dos outros.Isso é inícuo porque esses senhores estão a roubar o pão dos mais pobres e fracos e o governo socialista pouco faz neste momnto para contrariar esta situação.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

HONORIS CAUSA PARA DURÃO BARROSO-a pouca vergonha de uma Universidade Católica

 

Uma breve notícia na primeira página do Expresso informava que «A Universidade Católica vai atribuir


o grau de doutor honoris causa ao ex Presidente da Comissão Europeia e director do Centro de Estudos Europeus da UCP, José Manuel Durão Barroso»

Que eu saiba ainda ninguém comentou esta lacónica notícia do Expresso.Todavia, ela merece alguns breves comentários.Em primeiro lugar a Universidade Católica deveria fazer o que outras universidades fazem que é não dar este título ou grau a uma pessoa que seja docente da mesma universidade.

Por outro lado expliquem porque razão este senhor merece tal honra de uma Universidade Católica.Pelo seu curriculo jurídico e inteligência?Talvez.Mas nunca pelo seu curriculo como político, nomeadamente como Presidente da Comissão Europeia;nunca como Primeiro Ministro de Portugal

É aceite pela generalidade dos estudiosos da dimensão social europeia e pelos sindicatos que a Comissão Barroso estagnou nesta matéria durante o consulado Barrosos .Durante esses anos a Comissão andou a rever legislação para a tornar mais favorável aos empregadores, nomeadamente no campo da segurança e saúde dos trabalhadores.A ideia de um pilar Europeu dos direitos sociais nunca passaria com Barroso, nem qualquer directiva sobre os salário minimo europeu,ideias há tanto tempo ventiladas pelos sindicatos e outras organizações de trabalhadores de todos os quadrantes politicos e ideológicos.Se houve Comissão conservadora foi a de Barroso que bloqueou um verdadeiro diálogo social.Barroso foi o expoente máximo do conservadorismo europeu na altura, apesar do seu brilhantismo.

Mas como político nacional foi um desastre abandonando a governação para ir para a Comissão Europeia e deixando o país entregue a Santana Lopes e ,passado meio ano eleições legislativas.

Foi ele porém que patrocinou a cimeira dos Açores com Bush,Tony Blair e Aznar,onde se congeminou o embuste da invasão do Iraque com o argumento de que aquele País seria detentor de armas de destruição massiça.Deixou-se enganar e enganou o então Presidente da República, Jorge Sampaio.

Nos anos seguintes vimos o que foi o desastre do Iraque para aquele povo  e para os próprios USA.E onde estão essses bravos da cimeira dos Açores?Uns a gozar a vida como Aznar e Tony Blair e outros como Durão Barroso sendo consultor de um grande banco americano que esteve bem dentro do furacão da crise de 2010 que nos levou em 2012 , a nós portugueses, à troica e à famosa austeridade com corte de salários, pesados impostos e pobreza.

Então é a este político e profissional que a Universidade Católica vai entregar o titulo de «doutor honoris causa»?Uma Universidade Católica que vai homenagear um banqueiro do grande capital malfeitor, um fautor de uma guerra que teve centenas de milhar de mortos civis inocentes e a destruição de um País,de um comissário que foi um atraso de vida na UE em particular no domínio social.Mas quais são os valores subjacentes a esta Universidade?Não tinham outra personalidade para entregar o título?Comunga a UCP dos valores e feitos do Durão Barroso?Quem são as forças negras que estão na retaguarda desta universidade?

sexta-feira, 1 de julho de 2022

TRABALHO E TRABALHADORES: os grandes ausentes da reflexão do Sínodo da Igreja Católica?

 

Para começar devo dizer que o que aqui vou escrever são reflexões empíricas fruto de algumas leituras de sínteses de grupos católicos que


têm sido publicadas em alguns órgãos como o jornal online «Sete Margens» em Portugal.Num ou noutro caso também tenho lido reflexões de grupos católicos alemães, franceses e brasileiros.Diagamos que ainda é cedo para tirar conclusões fundamentadas.No entanto, devo dizer que, por aquilo que vou lendo, já é possível avançar algumas hipóteses de trabalho.

Algumas reflexões dos grupos católicos já têm décadas de debate e quase nada se avançou como é o caso paradigmático do celibato obrigatório do clero.Já foi tema candente no Concílio Vaticano II mas o Papa Paulo VI cabou por confirmar mais uma vez a doutrina tradicional.A falta de padres nas comunidades Católicas e a pedofilia vieram acrescentar actualidade ao tema.Neste caso o actual Papa tem sido discreto mas não no caso da pedofilia.

A este tema juntou-se um relativamente novo que é o clericalismo ou o poder do clero na estrutura da Igreja e a pouca participação e responsabilidade dos leigos, em particular das mulheres.Foi também um tema do Vaticano II e muito caro ao actual papa Francisco, mas que o coloca como alvo dos sectores conservadores da Igreja Católica.

Outro tema que preocupa muitos grupos no estrangeiro e em Portugal é, sem dúvida, o afastamento dos jovens e a incapacidade que a Igreja mostra em ter uma abordagem correcta, inclusive uma linguagem, para este segmento de pessoas.

Economia e trabalho pouco presentes nas reflexões do sínodo

Mas a grande lacuna que eu noto são as referências à economia e ao trabalho, bem como á importância dos movimentos sociais como actores de transformação social e cultural.Um tema muito caro ao Papa Francisco que, por diversas vezes, se referiu a esta economia neo liberal que descarta pessoas como a« economia que mata».Tem promovido diversos encontros com os movimentos sociais de todo o mundo,de jovens, de economistas, de indígenas de camponeses, propondo a luta pelo teto, pela terra e pelo pão.

É impressionante como os católicos são sensíveis ao sofrimento e morte, nomeadamente animam em todo o mundo as lutas anti aborto,e  estão pouco ou nada sensíveis ao sofrimento e morte  no trabalho.Nas sinteses que tenho lido é quase absoluta esta lacuna!Parece que a maioria dos grupos já consideram o mundo do trabalho uma guerra perdida, mesmo para os católicos mais abertos e progressistas.

Parece que aceitam como um dado adquirido que o mundo do trabalho e as organizações de trabalhadores não são vida das pessoas que exiga também uma leitura ou abordagem à luz da fé cristã.

Ora, o sofrimento no trabalho e o bem estar dos trabalhadores são temas tão importantes que ocupam uma parte significativa da investigação na área das ciências sociais,  afecta milhões de trabalhadores e motiva organizações internacionais como a OIT e a OMS.O mal estar no trabalho , que se tornou  uma questão aguda e pertinente neste modelo do capitalismo, coloca questões várias ao nosso modelo de sociedade.Questões até de dignidade da pessoa humana, núcleo central do cristianismo.A intensidade do trabalho até ao esgotamento, o assédio moral e sexual até ao suicídio, a morte por doença profissional ou acidente de trabalho afectam profundmente a dignidade e destino das pessoas.

A morte e o sofrimento no trabalho não preocupam os católicos?

As mortes no trabalho, acidentes e doenças profissionais, que matam anualmente mais do que qualquer guerra,não preocupam a maioria dos grupos católicos que estão no caminho sinodal?A exploração intensiva e as criminosas lacunas no domínio da segurança e saúde dos trabalhadores existentes em algumas empresas não são causas de morte no trabalho?Segurança e saúde no trabalho que foi agora considerada pela OIT, em junho, principio e direito fundamental dos trabalhadores a par do combate ao trabalho infantil e ao trabalho escravo.

Nesta linha a maioria dos católicos, incluindo parte do clero, nem conhece nem se interessa por movimentos como a Liga Operária Católica/Movimento de Trabalhadores Cristãos ( LOC/MTC) que se destina a organizar os trabalhadores e a ler o mundo com os olhos do evangelho e a agir em consequência numa luta constante pelo trabalho digno!

É caso para dizer:trabalho e trabalhadores? Tarenego!

 

terça-feira, 21 de junho de 2022

A SEGURANÇA E SAÚDE DOS TRABALHADORES É DIREITO FUNDAMENTAL, E AGORA?

 

A 110ª Conferência Internacional do Trabalho (CIT) realizada neste mês de junho em Geneve, Suiça,


aprovou uma Resolução que junta  um ambiente de trabalho seguro e saudável aos quatro Principios e Direitos Fundamentais  no Trabalho já existentes:liberdade de associação e negociação colectiva; eliminação de todo o trabalho forçado ou obrigatório; eliminação efectiva do trabalho infantil  e a eliminação da discriminação no trabalho e no emprego.Estes principios e direitos integram a Declaração da OIT de 1998 a que todos os Estados membros se obrigaram a cumprir.

Claro que esta Resolução pode não passar do papel em muitos países se o Movimento Sindical Mundial e  outros movimentos sociais e cívicos não continuarem o seu trabalho neste domínio.

Todavia, a OIT tem um conjunto de meios para verificar se os Estados  cumprem ou não as suas decisões.A partir de agora saíram reforçadas as convenções da OIT sobre esta matéria, nomeadamente a Convenção 155 sobre a segurança e saúde dos trabalhadores ,bem como a Convenção 187 sobre o quadro de promoção da segurança e saúde dos trabalhadores.

Os Estados membros da OIT vão ter que responder perante esta Organização e a comunidade internacional se cumprem nos locais de trabalho o direito fundamental á segurança e saúde dos trabalhadores, um direito aliás constitucionalmente garantido em Portugal.Cada Estado fica agora com uma obrigação acrescida no garantir este direito fundamental a par dos outros quatro direitos fundamentais.

Hoje em dia nas nossas sociedades, apesar de muito anestesiadas quanto ao sofrimento no trabalho,qualquer pessoa fica escandalizada quando se noticia a existência de trabalho forçado ou escravo.Infelizmente o mesmo não acontece porém , quando trabalhadores morrem em acidentes de trabalho ou de doença ocupacional, estão expostos ao assédio ou estão em esgotamento.

Esta Resolução vai obrigar a que os Estados melhorem as suas políticas de prevenção dos riscos profissionais, em particular os sistema de proteção da sáude dos trabalhadores que em alguns países, inclusive europeus, são miseráveis.

Mas também a melhoria dos sistemas inspectivos que passam por grandes dificulades de modernização e adaptação ás profundas mudanças laborais, nomeadamente em Portugal.

A Estratégia Nacional para a Segurança e Saúde no Trabalho 2022-2027, que ainda não  viu a luz do dia, deve já assumir esta nova realidade e há que rever a legislação nacional nesta matéria, nomeadamente no que respeita aos serviços de segurança e saúde nas empresas que, em larga medida, são um «faz de conta», basta falar com meia dúzia de trabalhadores de meia dúzia de empresas.

Mas esta Resolução é também um enorme desafio para o Movimento Sindical  e outras organizações de trabalhadores que vaõ ter que colocar a Segurança e saúde dos trabalhadores no coração das suas reivindicações e lutas, nomeadamente na negociação colectiva onde tem havido pouca inovação, para alem do que diz a lei.

A Resolução da OIT é antes de mais uma vitória do movimento sindical, mas também um efeito da pandemia da Covid 19 que mostrou quão impreparados estavam e continuam a estar os locais de trabalho para enfrentar os riscos .

quarta-feira, 8 de junho de 2022

DESLIGAR DO TRABALHO É MAIS DO QUE UMA QUESTÃO JURIDICA

 

Tem havido nos últimos tempos um debate muito interessante sobre o «direito a desligar ou


desconexar» do trabalho.Um debate muito jurídico mas também de análise sociológica e sindical.A França foi talvez um dos primeiros países a colocar a questão em lei e este ano ,no quadro do diploma 83/2022, sobre o teletrabalho, integrou também o nosso quadro jurídico sob a denominação de obrigação da entidade patronal em não ligar ao trabalhador no tempo de descanso deste.O direito do trabalhador exige assim uma obrigação patronal.

No entanto temos que reconhecer que na prática esta obrigação patronal vai ser muitas vezes violada com inúmeras justificações e, num quadro de precariedade, o trabalhador não tem coragem de não atender o chefe ou patrão a qualquer hora.Ou seja, por razões objectivas este direito pode ter poucas condições para se efectivar.

Por outro lado, são muitos os trabalhadores que não desligam e não são capazes de se desligar do trabalho e dos seus problemas profissionais.Por vezes, ouvimos alguns colegas afirmarem que deixam todas as questões do trabalho á porta do mesmo.São uns felizardos!

Todavia, também existem muitos trabalhadores que transportam para casa todos os problemas que têm com as chefias ou com os colegas,o ambiente competitivo e pouco saudável que existe no local de trabalho,os conflitos sociais, como greves, doenças, absentismo,etc.Basta que um ou dois colegas entrem de baixa para que a equipa se ressinta, aumente o trabalho, aumente a crispação.Mesmo que o patrão ou chefe não nos ligue estamos com o trabalho na cabeça.Uma angustia se apodera de nós

Por outro lado,as novas tecnologias, que de certa maneira são uma maravilha do nosso século, principalmente com a internet,comportam frequentemente novas escravidões.É o whatsApp,os mails, as redes sociais.O chefe cria um grupo de whatsApp,manda uma notícia para o face a fazer um aviso, um apelo, etc.

O nosso trabalho, do qual cada vez queremos falar menos,apodera-se do nosso cérebro da nossa vida, ao mesmo tempo que temos dificuldade em nos distanciarmos desta rede que nos enreda.A competição e os sistemas de avaliação isolam-nos, fazem-nos desconfiar dos colegas;o discurso do sucesso e meritocrático tornam-nos inseguros porque não conseguimos atingir os objectivos, subir a pulso, ser o máximo.Podemos passar a uma fase de esgotamento ,de «bournout» de doença, num ciclo vicioso que alguns quebram da pior maneira, ou seja, com a baixa prolongada ou o suicidio.

Saber desligar do trabalho cada vez é mais difícil.Com o teletrabalho a situação vai piorar na medida em que a nossa casa passa também a ser um local de trabalho.Casa e trabalho confundem-se, para alguns é a liberdade mas para outros, é a confusão,o não distanciamento entre a vida familiar e profissional!

Realmente o direito a desligar é muito mais que uma questão jurídica,é uma questão existencial, é mais do que o direito a descansar.Na medida em que o trabalho se torna cada mvez mais imaterial mais problema temos em desligar, em separar o trabalho da vida social e familiar.

Estamos a passar a uma fase em que o trabalho mais árduo e monótono deve ser realizado por máquinas e aos humanos deve ser reservado o trabalho mais criativo, mais humano, mais nobre.Uma fase em que se deve trabalhar menos horas e muito mais bem pagas!

Mas no capitalismo  esse tipo de trabalho, com menos horas e bem pago será sempre reservado a uma minoria que coexiste com uma maioria de gente mal paga, trabalhando de forma flexível e nos piores trabalhos ou na situação de desempregado.

domingo, 5 de junho de 2022

SOBRE UM APELO À CONVERGÊNCIA SINDICAL

 Nos últimos dois anos e apesar de passarmos por uma terrível pandemia, e agora por uma


guerra,não se vislumbram ações significativas de convergência/diálogo sindical entre as duas maiores organizações sindicais portuguesas.

Tanto no campo da CGTP como da UGT o que se ouve é um silêncio ensurdecedor ou um ou outro remoque ou diatribe, muito mais até no campo da segunda do que na primeira.

No último congresso da UGT, porém ouviu-se um corajoso apelo ao diálogo e convergência de ação sindical por parte de Fernando Gomes que estava a representar a corrente socialista da CGTP naquele congresso.Julgo que em ambos os campos o apelo caíu em saco roto.

No entanto, é uma tomada de posição que julgo ter eco em centenas de sindicalistas que estão dispostos nos locais de trabalho a convergir cada vez mais na defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores.Só que por razões estratégicas diferentes os partidos com influência sindical não fomentam essa convergência.Objectivamente quem perde são os trabalhadores portugueses,a maioria dos quais nem militante é de qualquer partido.Os banqueiros e os acionistas dos grandes grupos económicos podem dormir descansados.

Se com Arménio Carlos a política era ignorar a UGT sem recusar uma ou outra  ação em conjunto, organizada por sindicatos filiados ou afectos,com Isabel Camarinha esta política endureceu um pouco mais.Por seu lado, o ex-secretário geral da UGT, Carlos Silva, não desperdiçou nenhuma oportunidade para dar uma «bicada» na CGTP.Vamos ver a orientação do Mário Mourão, o novo secretário geral recentemente eleito.

Chegados aqui podemos concluir que nem a pandemia,nem os efeitos nefastos de uma guerra, nem as condições difíceis em que actualmente se movem os sindicatos no quadro de uma globalização injusta conduzem a curto prazo à superação das fracturas históricas  do movimento sindical português.O que muitos trabalhadores se questionam é o que será preciso mais para que vejamos uma mudança desta situação.

Sim,porque são muitos os trabalhadores que já nada esperam do movimento sindical nesta matéria, apesar de ainda se gritar nas manifestações «Unidade Sindical!».Mas são também muitos os que esperam uma mais forte convergência de ação para defender valores e direitos essenciais que são a base do trabalho digno e de uma sociedade democrática e que o capitalismo actual já demonstrou não estar disposto a respeitar na sua essencia.

O capitalismo das multinacionais ,da Amazon, da Tesla e das grandes plataformas digitais trabalham para um regresso ao passado mascarado de futuro, onde largas camadas de trabalhadores atomizados, sem organização,sejam os novos escravos de uma sociedade onde impera a desigualdade, o trabalho á hora ou á peça, por encomenda e sem qualquer regulação.

Os dirigentes da UGT e da CGTP têm uma pesada responsabilidade na hora actual que é irem ao encontro dos anseios de muitos trabalhadores que ainda estão nos sindicatos.

Apesar da história, é um facto que a UGT nasceu contra a CGTP,apesar da concorrência sindical no terreno,com atropelos vários, nomeadamente na negociação colectiva, apesar do sectarismo existente nos dois campos, o sindicalismo português tem que se articular melhor no futuro promovendo plataformas de entendimento para as lutas que se avizinham e para as quais somos todos necessários.Assim não vamos lá!

Não há muitas escolhas neste capítulo.Ou o sindicalismo português supera as divergências e luta  de forma cada vez mais unida e eficaz, proporcionando melhores condições de trabalho e de vida a quem trabalha, ou os trabalhadores ainda sindicalizados vão abandonando os sindicatos ou nem neles se filiam, no caso dos mais jovens.