Este relato mostra a cultura política de abertura de Abel Varzim e a atenção que demonstrava relativamente à situação dos trabalhadores portugueses!
Num livro de história muito bom, Edgar Silva, ex-padre madeiren
se e dirigente comunista, aborda um facto histórico elucidativo sobre a visão estratégica do padre Abel Varzim, fundador e um dos maiores obreiros dos Movimentos de Trabalhadores Católicos na primeira metade do século XX. Um facto pouco divulgado tanto por comunistas como pelos católicos. De que se trata, afinal?
Em dezembro de 1941, em plena ditadura, e na IIª Guerra
Mundial, o Padre Abel Varzim escreve uma carta ao Presidente da Junta Central
da Ação Católica Portuguesa em que numa longa exposição escrita aquele padre
descreve pormenores sobre uma reunião que ele e o Padre Alves Correia tiveram
com 18 quadros comunistas na sede da Liga Operária Católica. E relata os factos
desta maneira: «Na rua da Direção-Geral da LOC, à Rua das Janelas Verdes,
deu -se ontem um facto inédito: eu e o sr. Padre Alves Correia falámos a 18
homens que desejavam ouvir-nos, mas que militam em campos diferentes do nosso. Entre
eles estavam cinco que já sofreram os maiores tormentos pelo seu ideal; um
deportado, depois de muitas torturas, em Tomar durante largos anos; outro com
três anos de «campo de concentração» no Tarrafal, em Cabo Verde, obrigado a
trabalhar com uma picareta, tendo sido sempre empregado de escritório; outro
ainda com vinte e oito meses de prisão no desterro no forte de Angra, etc. O
nosso contacto durou três horas e meia».
Edgar Silva comenta, e com fundamento, que uma reunião
destas com pessoas que viviam na clandestinidade e perseguidas pela polícia
política, a famigerada PIDE, teria de ser bem preparada para se realizar em
segurança para os dirigentes comunistas. Teria de existir já bastante confiança
de parte a parte com contactos prévios e objetivos da reunião.
Da parte comunista já existiam decisões em congressos no
sentido de se realizarem alianças com as centenas de milhares de operários
católicos que, segundo Cunhal, seria necessário seduzir para a luta contra o
fascismo e para que não reforçassem precisamente a ditadura. Aqueles dirigentes
ao pedirem esta reunião estavam a falar com o interlocutor certo e
concretizando decisões da sua organização. Nestes anos a Hierarquia Católica
dava apoio claro à ditadura de Salazar em troca de algumas regalias e respeito público
e pregava o anticomunismo. Os Movimentos Operários Católicos ainda estavam numa
estratégia de cristianizarem os sindicatos corporativos e eram concorrentes da
militância comunista. Embora em conflito ideológico ambas as militâncias praticaram
o «entrismo», ou seja, entrarem para os sindicatos nacionais para os
transformar por dentro. O Partido conseguiu convencer os seus militantes mais
renitentes que essa era a melhor política porque os trabalhadores eram
obrigados a pertencerem ao sindicato. Os militantes católicos acabariam
desiludidos com os sindicatos nacionais que lhes roubavam os melhores quadros
sem grandes mudanças e, posteriormente, desiludidos com o regime corporativo
que não resolvia os problemas dos trabalhadores!
Estes contactos com os dirigentes comunistas mostram dois
padres com uma extraordinária visão política e social, lançando os alicerces do
que mais tarde na década de 60 viria a ser a convergência sindical e a
construção da Intersindical.
Note-se que se estava longe do Concílio vaticano II e dos
debates entre marxistas e cristãos que tiveram grande relevância política e
criaram condições para a cooperação na ação, na luta pela democracia, pela
justiça social e pela paz!

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