quarta-feira, 29 de julho de 2026

OS CATÓLICOS E A EXTREMA DIREITA!

 

Em França, nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, 42% dos católicos praticantes franceses votaram na extrema-direita, mais que duplicando o número das eleições anteriores


(18%). Em Espanha sabemos também que a maioria dos católicos que se dizem praticantes votam no partido popular ou no VOX da extrema-direita. Em Portugal não conheço estatísticas nem estudos neste campo, mas será de crer que alguns desses eleitores também tenham deslizado para o partido Chega.

Basta estar atento às notícias para percebermos que na América Latina, em especial no Brasil, os cristãos e em especial os evangélicos e alguns setores do catolicismo apoiaram e apoiam o reacionarismo e autoritarismo de Bolsonaro. Países onde emergiu a Teologia da Libertação fervilharam comunidades de base e centenas de movimentos sindicais e sociais progressistas animados por padres e leigos cristãos! Terra dos Bispos Hélder Câmara e Óscar Romero, padres guerrilheiros como Camilo Torres e resistentes à ditadura como Frei Betto e muitos outros!

Há grupos de católicos a contestarem o Concílio Vaticano II

Hoje vemos ainda alguns setores de cristãos conservadores americanos apoiarem o presidente Trump e os seus acólitos, misturando decisões de guerra com orações e com a Bíblia!

Vemos inclusive grupos ultraconservadores católicos a contestarem o concílio Vaticano II e os últimos Papas desde João XXIII até este Leão XIV.

Por outro lado, vemos líderes da extrema-direita a usarem e abusarem da religião nas redes sociais a apresentarem-se como os defensores dos cristãos contra os árabes, a aprofundarem antigas guerras ditas religiosas, a divulgarem teorias da substituição, enfim a provocarem o ódio contra o outro, o diferente, o imigrante!

Vemos ainda as hierarquias católicas divididas perante estes fenómenos políticos, dando «uma no cravo e outra na ferradura», com um ou outro bispo a pôr os pontos nos iis no que respeita à imigração, a terem muita dificuldade em criticarem a extrema-direita política e até religiosa, a serem incapazes de tomarem posição clara sobre questões como a degradação das condições de trabalho com consequências terríveis sobre a saúde dos trabalhadores, o descanso dos mesmos e a vida familiar.

Incompreensível ausência no mundo do trabalho

Os documentos regionais e globais sinodais são uma amostra transparente de como a Igreja Católica e largos setores de católicos estão a ver o momento atual da transformação do trabalho para a era digital. Pouco ou nada se falou sobre o que se passa no mundo do trabalho. Muito se falou e escreveu, e bem, sobre o papel das mulheres sobre a governação da Igreja, sobre o acolhimento das minorias etc. O pouco que apareceu sobre o mundo no trabalho ainda foi por influência de alguns militantes da Ação Católica.

O que se passa afinal? Por onde caminha a Igreja católica e os católicos enquanto eleitores e militantes?

Os cristãos, e nomeadamente os católicos, vivem hoje profundas clivagens. Tal como na sociedade a Igreja é trespassada pela polarização, bem no fundo, trespassada por aquilo que não gosta de aceitar, isto é, a luta de classes. O grande Papa Francisco foi um dos elementos de fratura porque chegou ao Vaticano numa altura em que as bases da Igreja já estavam de marcha à ré. Ele era de uma geração que bebeu da Teologia de Libertação, das lutas progressistas a favor dos pobres e indígenas nas décadas sessenta e setenta do século passado. Foi um Papa odiado pelos ultraconservadores que não aceitavam a sua abertura às minorias, aos Movimentos Populares a esse apelo de «Todos, todos, todos…!» A extrema-direita não se coibia de o criticar e existia um movimento mundial para o derrubar!

Luta cultural e ideológica atravessa as sociedades

Neste contexto a luta cultural e ideológica que atravessa as sociedades também existe no seio dos católicos. A hierarquia refugia-se nos movimentos espiritualistas e de massas, ignora os Movimentos Operários e populares. Teme a contaminação esquerdista, abandona ou distancia-se objetivamente dos Movimentos sindicais. O clero, uma profissão liberal, não entende o mundo do trabalho, e são poucos os que querem fazer uma carreira nos Movimentos de Trabalhadores ou serem padres operários!

Creio que estes tempos são complexos e exigem muita coragem e debate sobre como atuar. Mas não tenho dúvidas que há que atuar com o povo mais pobre, com o seu sofrimento, alimentando a esperança. Creio que ser cristão é também alimentar a esperança e não se abandonar no conforto da simbologia, da celebração pela celebração! Celebramos o quê? A luta da transformação das nossas vidas para melhor, inspirados pelos Evangelhos. A vida digna não pode ser monopólio de alguns, mas de todos! A liberdade não pode ser sacrificada ao medo e ao autoritarismo securitário!

 

 

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