terça-feira, 14 de julho de 2020

A VISÃO ESTRATÉGICA DO SR.COSTA SILVA: e os trabalhadores?

Dei-me ao trabalho de ler, embora por alto, o documento do famoso António Costa Silva intitulado

pomposamente «Visão estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social»  com um total de 120 páginas na versão que me chegou.

Depois de analisar o indice e de ir lendo capítulo a capítulo  nota-se que o grande ausente desta grande visão é quem trabalha  e respectivas organizações.Ausente como actor porque como não poderia deixar de ser o documento contém um capítulo sobre a qualificação.Qualificação óbviamente dos recursos humanos.Estes são mais uma das questões  que devem ser tratadas como o mar, a floresta, as tecnologias etc.

Assim, neste documento retintamente tecnocrata onde se diz com todas as letras que é necessário pensar «fora das ortodoxias de direita e de esquerda e encontrar um equilibrio virtuoso entre Estado e Mercado»» os trabalhadores e suas organizações estão ausentes como actor social, económico e político.Não podemos deixar de sorrir com este virtuoso, um conceito tão pouco rigoroso num economista ou cientista social.Mas afinal onde se situa políticamente o sr. Costa?Lendo o documento ficamos a saber.

Embora se diga em vários locais que a competitividade não deve ser conseguida pelos baixos salários nada contém este documento no sentido de evitar essa estratégia empresarial.O Sr.Costa fala antes num ridículo pacto Empresas/Estado, dizendo claramente em várias páginas que o estado existe antes de mais nada para apoiar a competitividade e capitalização das empresas, para além da estafada função de regulador.

Esta visão estratégica do Sr. Costa é assim uma visão neo corporativa onde se desenha uma sociedade altamente tecnológica, verde e competitiva tendo por base uma «santa aliança» entre o Estado e o mercado, ou seja,teoriza um capitalismo pós corona, um capitalismo verde e digital, pretensamente regulado, mas igualmente explorador dos trabalhadores.

Mas então a «visão» do sr. Costa não tem nada, mesmo nada que se aproveite?Terá certamente, embora algumas ideias ali plasmadas já o foram por outros visonários do sistema e, em alguns casos, há décadas.A necessidade de se ter uma estratégia para o mar,para a floresta, para o digital, para as energias renováveis, etc,etc.

Apenas um reparo:embora dizendo que vamos ter fundos europeus como nunca tivemos,o que ainda não é absolutamente certo, esta visão estratégica para dez anos exigiria milhares de milhões de euros para se implementar.No entanto, mesmo com todos esses fundos europeus, a nossa dívida é enorme.Mas sobre este assunto, tão importante relativamente ao investimento o sr. Costa pouco ou nada diz.

Mas sendo esta visão estratégica tão pouco pertinente qual é a sua importância?Apenas porque o sr Costa poderá vir a ser ministro a curto ou médio prazo.Mais um ministro que tem uma visão moderna e futurista de um capitalismo verde mas onde não cabem as organizações de trabalhadores e o seu importante papel na sociedade, no aprofundamento da democracia, no bem estar dos trabalhadores, numa economia que não mate mas que alimente todo um povo.


sexta-feira, 10 de julho de 2020

TRABALHADORES POBRES MAIS VULNERÁVEIS À PANDEMIA

A pandemia COVID alastra por todo o mundo e continua a luta entre o confinamento como medida

principal de prevenção e o desconfinamento para se poder governar a vida, exigência também absoluta de quem precisa de trabalhar.

Pesem as múltiplas explicações para o que sucede na Região de Lisboa é certo que ainda temos muitas incógnitas e só mais para diante poderemos saber algo com mais segurança.Há quem se irrite com as festas dos jovens, com os transportes , com os safados que não usam máscara onde deveriam usar, com os assintomáticos que nem sabem que o são, com as chefias, com a DGS, com o governo, enfim, há para todos os amores e ódios.

Mais tarde ou mais cedo teremos que reflectir num ponto básico que será este:a pandemia propaga-se porque tem  condições económico- sociais,  sanitárias e culturais que a favorecem.Ou seja, o nosso País tem um conjunto de vulnerabilidades em termos de segurança e saúde estruturais entre as quais a pobreza e a precariedade.Quem tem rendimentos altos ou médios garantidos, através de pensões ou rendimentos de capital ou salários sem cortes está  à partida com a vida facilitada para se proteger do corona.Para sobreviver não precisa de arriscar para além de um certo limite.Esta questão não esteve evidente na primeira fase do medo, do confinamento,embora saibamos que tivemos sempre pessoas a trabalhar-os essenciais e outros.....

Todavia, os trabalhadores pobres que têm aumentado com salário mínimo ou menos,  cerca de 13% do total dos trabalhadores,os trabalhadores agrícolas e domésticos, os que laboram em milhares de pequenos empreiteiros da construção e da agricultura, os que fazem a manutenção e limpeza em fábricas, bancos e transportes, os que  trabalham à hora ou ao dia têm que arriscar para sobreviver, eles e suas famílias.Este conjunto enorme de população será no total os tais dois milhões de portugueses pobres ou no limiar da pobreza.

Os mais pobres não são culpados, são vítimas!

Estes portugueses não podem ser culpabilizados pela pandemia.Eles são vítimas de uma situação social de grande desigualdade, apesar das políticas de aumento do salário mínimo e das  pensões mais baixas, de recuperação de alguns rendimentos e de apoios sociais a crianças, nomeadamente do rendimento mínimo.

Ou seja, apesar dos esforços pós 25 de Abril e da carga de impostos que a maioria dos trabalhadores paga, Portugal ainda não derrotou a mâe de de todas as doenças e pandemias: a pobreza.Pobreza material e espiritual, de educação, de saúde, de baixos salários, de habitação degradada.São os mais pobres que também vão para o seu trabalho nos transportes públicos.

No final das contas, apesar de um ministro ou outro infectado, veremos que serão os países pobres os mais afectados pela pandemia e dentro de cada país veremos que foram os idosos e trabalhadores pobres.Aliás, históricamente sempre foi assim.As pestes arrasam os pobres e os velhos!

Para concluir,temos que tornar o nosso País mais forte irradicando a pobreza, reconstruindo os nossos sistemas públicos de saúde  e de proteção social. A ideia de um rendimento garantido a todos durante uma situação destas talvez pudesse prevenir melhor o dilema com que muita gente se confronta  entre confinamento e fazer pela vida.Mas o essencial é «Paz, pão, saúde, habitação...»


quinta-feira, 25 de junho de 2020

CONFINAMENTO E AÇÃO SINDICAL-NOVO RUMO?


O movimento sindical mundial está  ter um choque brutal com a pandemia do COVID 19.Um choque a

vários níveis.Em primeiro lugar teve que rever a nível nacional as suas reivindicações imediatas colocando  a proteção e saúde dos trabalhadores em primeiro lugar.A segurança e saúde dos trabalhadores foi sempre uma reivindicação histórica dos sindicatos.Todavia, ficava frequentemente em segundo plano nos cadernos reivindicativos e na negociação colectiva.Agora está em primeiro plano a par óbviamente da defesa do salário, dos rendimentos dos trabalhadores que estiveram e ainda estão cortados.

Com a actual pandemia muitos trabalhadores do sector privado e social sofreram o desemprego uns, e ,outros, viram os salários cortados por estarem em layoff.

Em segundo lugar o movimento sindical teve que enfrentar e ainda enfrenta, um tempo longo de confinamento de milhares de sócios e trabalhadores.Ora o sindicalismo vive do contacto com as pessoas, da reunião, da manifestação da afirmação no local de trabalho e na rua.Podemos verificar que  uma situação destas pode debilitar e até anular a ação sindical.Durante o confinamento os problemas dos trabalhadores aumentaram, os delegados sindicais tiveram que responder noite e dia a milhares de questões, desabafos e relatos de exploração, de risco de contágio e de aproveitamento patronal da situação.Trabalhadores em teletrabalho, nos lares, em layovff, nas empresas, nas escolas, enfrentaram, alguns em conjunto com os seus patrões, inúmeros problemas a resolver derivados da brutal pandemia que entretanto ia vitimando alguns.

    O confinamento seria mortal para o sindicalismo

A situação do confinamento seria mortal para o sindicalismo se, entretanto, a situação não fosse alterada.A CGTP compreendeu a situação e, com algum risco, procurou,dentro do quadro estipulado pelas autoridades de saúde,sair para a rua, construir cenas simbólicas, afirmar a sua existência e ação.Assim se inseriram diversas iniciativas, nomeadamente a polémica mnifestação do 1º de Maio na Alameda.

A actual semana de luta, que teve início no dia 22 de junho, insere-se nesta estratégia  de romper com o confinamento sindical.Mas também os plenários e congressos de sindicatos de Setúbal,Aveiro,Lisboa e de Évora seguidos de pequenas manifestações obedecendo ao distanciamento social.A imprensa, nomeadamente local é convocada, por vezes sem sucesso,para  que se possam anunciar as actividades sindicais presentes e futuras.

A CGTP entendeu, e a meu ver muito bem, que esta situação de pandemia comporta um risco assinalável para a ação sindical.Sai para a rua para dizer que existe ,que é preciso resolver os problemas dos trabalhadores que vão aumentar nos próximos meses e anos.A UGT, bem comportada, ficou no silêncio?

Todavia, a CGTP procura afirmar-se isolada nacional e internacionalmente.Afirmar-se com ações algo repetitivas e para os quadros: semanas de luta, plenários,greves simbólicas, passeatas, etc. Afirmar-se internacionalmente sem se juntar aos sindicatos considerados de direita ou social democratas como aconteceu recentemente na CES.A nova direção da CGTP parece ainda menos capaz de inovar tanto ao nível das propostas como das alianças.É verdade que logo após o Congresso veio a pandemia.No entanto já existem sinais de que vamos ter uma CGTP mais agarrada do que nunca ao guião tradicional, ou seja , a um sindicalismo autosuficente, de contestação política mas pouco eficaz no terreno.As estatisticas dos últimos anos apontam para resultados pouco animadores no que diz respeito aos resultados das greves.

A actual situação mundial do capitalismo e a emergencia das forças de extrema direita não exige ao sindicalismo o repensar as alianças e a  unidade sindical?Não será necessário privilegiar o que une os trabalhadores em vez de dispensar ou hostilizar potenciais aliados?

Algumas ideias para debate

Para além de sair para a rua o movimento sindical tem que aprofundar novas formas de ação tendo em conta este novo quadro.Apenas algumas ideias para o debate:

É muito importante reforçar e dinamizar todos os espaços sindicais online.Ou seja dinamizar as  páginas web dos sindicatos, dando-lhes critaividade ,informação actual e que esclareça e forme os trabalhadores.É importante construir uma imprensa sindical em rede capaz de informar os trabalhadores e de os fazer pensar no sentido da defesa dos seus interesses de classe;Será possível tal estratégia para quem defende um centralismo rigoroso que tolhe a criatividade e iniciativa?

Uma segunda ideia será fazer um debate participado sobre o teletrabalho no sentido de preparar eventualmente um melhor enquadramento legal do mesmo sem ter grandes ilusões sobre os apregoados benefícios de tal forma de trabalho.Aproveitar também para regulamentar  o trabalho em plataformas online,a obrigação/direito á desconexão, ao descanso, a um horário de 35 horas para todos.

Uma terceira ideia é  revalorizar a promoção da segurança e saúde dos trabalhadores, com destaque para a necessidade de eleger e formar um maior número de representantes para a segurança e saúde no trabalho.Seria também importante facilitar a eleição destes representantes com uma simplificação da legislação eleitoral dos mesmos.A actual legislação visa claramente dificultar a iniciativa dos trabalhadores.

Também seria importante aprofundar propostas que vão na linha de garantir rendimentos básicos a todas as pessoas para que nas crises não sejam mais necessários os bancos alimentares, as cantinas sociais, as sopas dos pobres.

Enfim, o confinamento  e a vida pós pandemia vai obrigar a um debate sobre o futuro e o futuro das organizações de trabalhadores.O capitalismo vai sair renovado desta crise?Vai continuar com uma estratégia de precarização, de divisão  e isolameto dos trabalhadores aproveitando a nova situação e o desenvolvimento tecnológico?vamos continuar na defensiva ou teremos condições para ter mais inicitiva?Espartilhados e divididos ou construindo cordões de solidariedade e de luta onde as divergências não são escamoteadas mas também não são impeditivas de novos avanços sociais e ambientais?

 


quinta-feira, 11 de junho de 2020

= 50º ANIVERSÁRIO DA CGTP: a maior vitória é estar no terreno!

A CGTP-Intersindical é a maior organização social do País.Mas não apenas social, mas também

reivindicativa e transformadora.Ou seja, a CGTP é hoje a principal organização de trabalhadores filha dos ideais da Revlução Francesa, da Comuna de Paris, da Revolução Russa , da CGT da Primeira República, dos socialistas, dos católicos progressistas  e do 25 de Abril.É fruto e materialização das aspirações dos trabalhadores portugueses que participaram activamente, por vezes com a sua própria vida,na luta contra a ditadura e pela democracia, à qual imprimiram uma dimensão económica e social e cultural única na Europa.

Infelizmente, embora reconhecendo a CGTP como organização uma parte significativa da sociedade portuguesa procura ignorar,menorizar e combater a sua ação com o argumento de que é uma organização do PCP.Outra parte da sociedade nunca perduou à Central Sindical o seu papel fundamental nas transformaçõe sociais, e conómicas e jurídicas do Portugal democrático.

Neste meio século a CGTP esteve em todos  os grandes momentos da democracia.É verdade que nesta luta houve vitórias e derrotas.Creio que uma das grandes vitórias com sabor a derrota foi o Congresso de Todos os sindicatos onde se procurou evitar a cisão do Movimento Sindical Português após a luta fratricida sobre a unicidade sindical.Mas o sectarismo de uns e o dvisionismo encomendado pelo imperialismo já tinham realizado o trabalho necessário à divisão dos trabalhadores portugueses.

No livro Pela Dignidde do trabalho dos 40 anos da BASE-FUT podemos ver relatos impressionntes da intromissão politica no sindicalismo português no quadro da «guerra fria».Mário Soares foi figura central nesta luta pela divisão sindical.

Todavia, o Congresso de todos os sindicatos mostrou uma CGTP aberta a todas as correntes, inclusive aos que entretanto já tinham planeado a divisão sindical, uma CGTP com grande potencial agregador , juntando mais de centena e meia de organizações sindicais.

Se bem que em 1980 a CGTP, com todo o seu potencial não conseguiu evitar um governo de toda a direita estruturada na AD,é verdade que foi a organização mais combativa contra as políticas desta aliança e da recuperação do capitalismo português, nomeadamente de antigos grupos económicos do tempo da ditadura.Duas grandes greves gerais em fevereiro,a primeira depois do 25 de Abril, e em maio de 1982  debilitaram a governação da direita que viria a claudicar mais tarde.Foi assim uma derrota vitória numa década em que os demónios do neoliberalismo andavam à solta no planeta.

As sucessivas mudanças da legislação laboral flexibilizando as relações laborais  a precariedade , nomeadamente os contratos a prazo, as crises e o desemprego ajudaram o poder dos negócios dando-lhes força, prestígio e dinheiro.Entretanto a UGT nunca arrancaria para uma central combativa, ficando-se por ser uma moleta dos governos e das empresas, em particular da banca e dos banqueiros.O seu maior falhanço foi a conivência, em nome de um mal menor, com as condições da Troika.

Uma outra vitória com sabor a derrota da CGTP foi sem dúvida a sua entrada na Confederação Europeia de sindicatos em  1994.A Central tinha na altura uma equipa de direção de grandes sindicalistas.Conseguiu convencer e ter o apoio de quase todas as centrais sindicais da Europa na sua candidatura apesar da oposição lamentável da UGT portuguesa.A BASE-FUT fez um excelente trabalho na área do sindicalismo de inspiração cristã (CMT), nomadamente com a CSC belga, para que a candidatura da CGTP tivesse êxito.Joaquim Calhau e Fernando Abreu, membros da BASE-FUT, mantinham contactos importantes e históricos com o sindicalismo de inspiração cristã na Europa.

Infelizmente, embora com altos e baixos, a CGTP parece que esteve sempre com um pé dentro e outro fora da CES, desvalorizando-a e desvalorizando a sua participação na mesma.Persiste num soberanismo que é um espartilho a um internacionalismo combativo e transformador.Tirando a inédita greve europeia em novembro de 2012 contra a austeridade onde a direção de Arménio Carlos com os sindicatos espanhóis tiveram um papel central, a CGTP opta mais por afirmar as diferenças perante a «social-democracia»do que as bases em comum.A Central portuguesa perante uma  CES  que também tem perdido dinamica poderia ter outra estratégia muito mais empenhada e mobilizadora.

A maior vitória da CGTP é a sua presença no terreno

A maior vitória da CGTP ,no entanto, é a sua presença no terreno, nas empresas, nas lutas dos trabalhadores.É a sua bandeira que aparece nos quatro cantos do País onde existem conflitos e protestos dos trabalhadores.É o seu símbolo e o seu hino que é cantado por milhares de activistas sindicais.Quer se queira quer não!

Concluindo, porque não vou fazer hsitória,a CGTP ao fazer meio século irá certamente repensar a sua ação nacional e internacional.É fundamental ver quais as oportunidades e limitações presentes ,avaliar a nossa cultura sindical, o seu discurso, as abordagens aos jovens trabalhadores e estudantes.Como travar a abstenção sindical que cresce na classe trabalhadora?Como prestigiar o sindicato e os sindicalistas?Como tornar o sindicato a casa comum dos trabalhadores?Como tornar o sindicato cada vez mais participado pelos trabalhadores?São interrogações comuns a muitos sindicalistas e trabalhadores.

 


terça-feira, 9 de junho de 2020

SINDICATOS SÃO A CHAVE NO COMBATE AO COVID 19

Estamos num momento chave no combate à pandemia do COVID 19.A Confederação Sindical

Internacional (1) diz que na retoma económica é altura de priorizar a segurança e saúde dos trabalhadores, mas a Comissão Europeia não inclui esta matéria nas suas prioridades (2).

 Recentemente o Secretário Geral da Confederação Europeia de Sindicatos(3) escreve afirmando que os sindicatos são a chave no combate ao corona nas empresas.A CGTP, entretanto, mostra-se preaocupada com os rendimentos dos trabalhadores e a precariedade no trabalho.

Pelo que se está passar na Região de Lisboa a pandemia afecta em particular os trabalhadores e regiões pobres, os bairros das perfierias onde vivem milhares de imigrantes e trabalhadores precários.Em alguns sectores económicos não estão a ser tomadas as necessárias medidas de proteção,nomeadamente em muitas empresas da construção , agricultura e distribuição.

Basta viajar em algumas áreas suburbanas da grande Lisboa para verificarmos que as medidas sanitárias não estão a ser cumpridas.Apenas se cumpre, em geral, a colocação da másara,mas não o distanciamento social.Os autocarros são poucos, as pessoas esperam por vezes uma hora ou mais e quando o transporte chega já está cheio.Trabalhadores e reformados pobres obrigados a deslocações para trabalho, compras ou para irem aos centros de saúde.

Não se pode negligenciar a saúde das pessoas

Mais uma vez se está a negligenciar a saúde das pessoas e a colocar a retoma económia, nomeadamente os interesses das empresas privadas de transporte em primeiro lugar.Grandes empresas que distribuem dividendos querem prolongar o layoff que prejudica o rendimento dos trabalhadores.E conseguiram.Outras pensam no teletrabalho como forma de produzir e explorar com menores custos.Os lucros e a economia acima das pessoas;os sindicatos ouvidos mas esquecidos nos locais de trabalho,diz o Secretário Geral dos Sindicatos Europeus.

O PEE, o Plano económico e social agora divulgado pelo governo ,é parco no que respeita ao apoio dos trabalhadores em layoff e trabalhadores desempregados.A perda de rendimentos foi grande para os trabalhadores em layoff e em teletrabalho.

Os sindicatos terão que se mobilizar de forma mais contundente para que a recuperação salarial e a segurança e a saúde dos trabalhadores sejam uma prioridade.Sem força sindical, sem organização dos trabalhadores nos locais de trabalho as empresas olham apenas para os seus interesses e objectivos materiais.

Ora, se existe tempo e local para o diálogo social é nesta matéria.A Comissão Europeia e os governos nacionais deveriam exigir de forma mais eficaz o cumprimento da legislação sobre a segurança e saúde no trabalho e a participação dos trabalhadores.As organizações de trabalhadores são efectivamente elemento chave neste combate pela vida humana.O nosso sindicato é uma barreira contra a pandemia.A hora é de apoiar o sindicato, não do abandonar!

 

1.CSI As normas de saúde e segurança são essenciais no regresso ao trabalho. https://www.ituc-csi.org/las-normas-de-salud-y-seguridad

2. CES-https://www.etuc.org/en/pressrelease/workplace-safety-not-commissions-top-40-priorities-despite-coronavirus

3.Luca Visentini: https://www.socialeurope.eu/trade-unions-are-key-to-a-safe-exit-from-the-pandemic?fbclid=IwAR2O-2dqiAwrMKmhCwyIzrrgjKOut7ar_OqNc1vq3dowvOYj45RpXrE9wos

 


sábado, 23 de maio de 2020

TRABALHADORES INVISÍVEIS ,MAS ESSENCIAIS!


Será que a pandemia global que estamos a atravessar nos abriu os olhos para novas realidades, nomeadamente sobre a maneira como olhamos para determinadas classes profissionais que desempenham tarefas essenciais importantes na sociedade mas que se tornaram invisíeis, quase clandestinos desde sempre, porque têm valor reduzido no mercado?
Estamos a falar, por exemplo, dos milhares  de trabalhadores auxiliares de saúde e de educação,dos homens do lixo ou cantoneiros, dos trabalhadores agrícolas,  dos operários da construção, da limpeza, enfim centenas de milhar de trabalhadores , muitos dos quais produzem ou prestam serviços essenciais a toda a sociedade.
Os médicos, professores, bombeiros e enfermeiros revelaram-se nas televisões,fizeram-se públicos e merecidos agradecimentos aos mesmos.Mas os trabalhadores invisíveis continuaram invisíveis. Os auxiliares de saúde continuaram a ser as formiguinhas nos hospitais e centros de saúde, os auxiliares de educação ficaram confinados em casa, na sua maioria, mas sem qualquer programa, nomeadamente de formação e actualização.Agora na retoma das escolas eles e elas vão estar novamente expostos, sendo que, alguns e algumas, têm idades avançadas e vulnerabilidades crónicas.
Para além da invisibilidade estes trabalhadores têm em geral baixos salários e deficientes condições de trabalho.Mais grave ainda é que com a retoma da economia estes trabalhadores estão ainda mais expostos ao risco.
Acontece ainda que enquanto os médicos, enfermeiros e professores têm organizações sindicais fortes e reivindicativas os trabalhadores invisíveis e de baixos salários não possuem sindicatos fortes e são pouco sindicalizados.Uma quota sindical de cinco euros por mês para quem ganha o salário mínimo é dinheiro.
Os auxiliares de educação e da saúde, que fazem todo o trabalho nas escolas e hospitais ganham o salário mínimo ou pouco mais e pertencem aos sindicatos da Função Pública que são um albergue de dezenas de profissões.Na Função Pública são os assistentes operacionais e até a categoria  e carreira de auxiliares lhe retiraram.Em geral estes trabalhadores não têm formação profissional adequada nem utilizam as horas para a mesma a que legalmente  têm direito.
O Movimento Sindical tem aqui um grande desafio: contribuir para que estes trabalhadores se tornem mais visíveis na sociedade, melhorem as suas condições de trabalho, tenham uma carreira própria e digna e valorização salarial justa.Lembram-se dos motoristas de matérias perigosas?Claro que todos nos lembramos agora destes profissionais que podem alterar as nossas vidas, parar os nossos carros, o comércio, a indústria e  a agricultura!Eles tornaram-se visíveis a partir do momento em que decidiram dizer BASTA!
Os próprios trabalhadores invisíveis também terão que se esforçar mais para darem dignidade e sentido á sua profissão.Terão que investir mais em formação e qualificação, terão que exigir mais dos patrões, das direções das escolas e hospitais, bem como dos seus sindicatos.
Qualquer profissão é digna.No entanto, são os respectivos profissionais o principal actor dessa dignidade.O sindicato é uma arma fundamental para que a nossa profissão seja reconhecida socialmente.Em determinados momentos temos que dizer colectivamente:ESTAMOS AQUI!SOMOS GENTE!

sábado, 2 de maio de 2020

1º DE MAIO DE 2020 É INESQUECÍVEL PELOS PIORES MOTIVOS



Tal como o 1º de Maio de 1974 nunca será esquecido pelos melhores motivos, também o 1º de Maio de 2020 nunca será esquecido pelos piores motivos.Uma pandemia súbita alterou a nossa vida de forma bem radical.
Neste 1º de Maio duas posições mais vincadas no Movimento Sindical estiveram presentes aos olhos da sociedade:uma a da UGT que comemorou o Dia do Trabalhador pela internet e outra a da CGTP que num gesto de afirmação levou centenas de activistas sindicais para a rua no quadro das regras sanitárias acordadas com as autoridades.Embora não inteiramente consensual no interior da histórica Central Sindical, foi a posição dos sindicalistas comunistas que prevaleceu e que organizou todo o cenário.
Embora compreenda esta posição de afirmação sindical também entendo as reticencias de outros sindicalistas que queriam uma comemoração mais simbólica, com poucas pessoas expostas em pleno quadro de confinamento e de estado de emergência.É dar algumas armas aos empresários quando os trabalhadores exigirem confinamento e medidas de proteção?´É possíve!Foi uma ação contraditória com o que se exige a outros portugueses?Foi.Todavia, no plano do significado  foi semelhante ao que se passou nas comemorações do 25 de Abril.O 1º de Maio tem para os trabalhadores e para o Movimento Sindical um significado histórico e reivindicativo mais abrangente que o próprio 25 de Abril.
Claro que alguns cronistas que defendem as posições empresariais aproveitaram a ocasião para mais uma vez identificarem a ação da CGTP com as estratégias do PCP.E diga-se em abono da verdade que a Central nos últimos tempos tudo faz para que essa identificação seja cada vez maior.Este 1º de Maio, com as entrevistas a Jerónimo de Sousa, como único líder partidário presente, mais vincaram aos olhos dos portugueses essa identificação.
Históricamente a direita em Portugal sempre identificou toda a oposição com os comunistas.Existiam outras forças progressistas como socialistas, católicos, anarquistas,revolucionários de várias cores e tendências, mas para o regime tudo era comunista.Tal identificação era boa para o regime porque lhe permitia tratar duramente todo o opositor e era boa para clandestino PCP que aparecia como a única força de oposição, a única referência e medida.
Sobre a CGTP a direita faz algo semelhante.Ao identificar a CGTP com o PCP retira desta potenciais trabalhadores e activistas sindicais, empobrece o movimento sindical português, coloca um carimbo a todo o sindicalista.Mas, por vezes, parece que esta identificação não desgrada ao PCP.Por uma questão eleitoral, óbviamente, não por uma questão sindical.
O que fez grande a CGTP foi a unidade na pluralidade
Se olharmos para a História Sindical no nosso País veremos que o que fez grande a CGTP foi a unidade de várias correntes numa estratégia de aceitação da pluralidade procurando-se o consenso como método de decisão, óbviamente tendo em conta a relação de forças e a militancia sindical.
Em determinado momento, precisamente quando a CGTP estava no seu máximo, apesar das duras lutas contra as políticas da AD, alguns sindicalistas comunistas recearam perder o controlo da Central.Foi nos tempos de grande sindicalistas  como Luis Judas, Florival Lança, Maria Emília Reis, Kalidás Barreto, entre outros.
Na dinâmica social também é verdade que hoje, tanto na corrente comunista como nas outras correntes, até mais nestas, existem grandes dificuldades  de atrair militantes para a ação sindical.Existem dirigentes profundamente empenhados, com prejuízo das suas vidas pessoais.Todavia, o mundo mudou muito, os problemas no trabalho aumentaram, diminuiram os sindicalizados e centralizaram-se as estruturas sindicais.O objectivo central é hoje  manter a estrutura e o discurso repetitivo e autojustificativo.
A formação sindical e política dos sindicalistas modernizou-se na forma mas pouco nos conteúdos .Temos activistas que não fazem fronteiras entre o partido e o sindicato e ate´ficam desconfiados se, por acaso, aparece um trabalhador que, sendo activista, não é partidário.Convocam-se hoje os activistas para uma ação sindical e amanhã o mesmo dirigente convoca os mesmos para uma ação eleitoral do partido.No entanto,   em plena manifestação gritam há décadas «unidade sindical»!
Esta não transparência e promiscuidade não ajuda ao recrutamento de novos trabalhadores e ao alargamento da base sindical.Poderemos ter  um sindicato  pequeno mas coeso e útil para a pressão política, mas não teremos um sindicato que seja a casa de todos os trabalhadores da profissão ou classe.
Nas comemorações dos 50 anos da CGTP seria bom que, para além da festa e do discurso mobilizador, houvesse debate e reflexão sobre os caminhos da unidade e da renovação, de como fazer da CGTP ainda uma maior Central sindical , travando o seu continuado emagrecimento que nenhuma campanha de sindicalização ocultará!