quinta-feira, 2 de novembro de 2023

NOVA DIRETIVA EUROPEIA PARA OBRIGAR MULTINACIONAIS A RESPEITAREM DIREITOS HUMANOS?

 

Nos últimos anos tem havido um debate importante, nomeadamente na OIT e no


meio sindical ,sobre a necessidade imperiosa de estabelecer normas que obriguem as empresas, em particular as multinacionais, a respeitarem na sua actividade  os direitos ambientais e os direitos humanos fundamentais, incluindo a ação sindical e o direito a um ambiente de trabalho seguro e saudável.

Sabemos como tem sido difícil organizar um sindicato na Amazon ou na Google e na Raynair apenas para dar alguns exemplos.Basta ler os relatórios da Confederação Sindical internacional para ver os inúmeros atentados ao direito de greve e ação sindical em muitas empresas multinacionais!

Recentes Declarações e Resoluções da OIT falam em trabalho digno e defesa dos direitos fundamentais do trabalho mas é necessário ir mais longe,porque existem empresas que espezinham os direitos das pessoas e funcionam como se tal comportamento indigno fosse o mais natural deste mundo!

Os sindicatos mundiais, com destaque para a Confederação Sindical Internacional (CSI) e para a Confederação Europeia de Sindicatos (CES) têm pressionado as instâncias europeias e internacionais para que se aprovem normas concretas para que as empresas multinacionais respeitem os direitos dos trabalhadores em qualquer parte do mundo, seja na Europa, no Vietname ou Singapura.

Parlamento Europeu pretende que nova Directiva tenha disposições imperativas

Fruto desse debate e dessas pressões  o Parlamento Europeu aprovou em março de 2021 uma Resolução sobre esta matéria recomendando à Comissão Europeia a adopção de uma Directiva sobre dever de diligência das empresas e responsabilidade empresarial.

Dois pontos são significativos na referida Resolução do Parlamento Europeu:

9.  Salienta que, muitas vezes, as vítimas de efeitos negativos relacionados com a atividade empresarial não são suficientemente protegidas pelo direito do país em que os danos foram causados; considera, a este respeito, que as disposições pertinentes da futura diretiva deverão ser consideradas disposições imperativas, nos termos do artigo 16.º do Regulamento (CE) n.º 864/2007 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de julho de 2007, relativo à lei aplicável às obrigações extracontratuais (Roma II)(38);

30.  Insta a Comissão a propor um mandato de negociação para que a União participe de forma construtiva na negociação de um instrumento internacional juridicamente vinculativo das Nações Unidas para regulamentar, no direito internacional em matéria de direitos humanos, as atividades de empresas transnacionais e de outro tipo de empresas;

 

Entretanto, em fevereiro de 2022, o projecto de Directiva da Comissão que veio à luz do dia, não satisfaz de modo algum os sindicatos, nomeadamente a CES, dado que aponta para mínimos com pouca eficácia , não dando garantias suficientes dos direitos e participação dos sindicatos.

Projecto de Directiva não satisfaz sindicatos

«Apesar de alguns elementos interessantes o projecto está longe de responder às necessidades de proteção dos direitos humanos e do ambiente.»-diz a CES no preâmbulo da Petição que lançou online recentemente.Ou seja, se a Directiva ficar como foi apresentada pela Comissão Europeia não teremos garantias de que as grandes empresas não continuem a violar os direitos humanos e o ambiente.

Os sindicatos consideram que os direitos dos trabalhadores e dos sindicatos são direitos humanos e devem ser respeitados pelas empresas.

A futura Directiva deve ainda adoptar mecanismos obrigatórios e eficazes de diligência razoável cobrindo as actividades das empresas e relações de negócio, incluindo as cadeias de aprovisionamento e de subcontratação.

Vamos ver como fica o texto final da Directiva.A pedra de toque será se o direito comunitário estabelece disposições imperativas que obriguem as grandes empresas multinacionais a respeitarem os direitos humanos, nomeadamente o direito fundamental à segurança e saúde dos trabalhadores.

terça-feira, 10 de outubro de 2023

VINDIMAS! A Ermelinda vai deitando contas à vida!

 

Da minha janela vejo a Ermelinda ainda de madrugada a correr pelo caminho do


tanque.Leva nos braços cansados o seu bebé que vai deixar na casa da vizinha e abalar para mais um dia de trabalho.Que bebé tão caladinho, não chora, agora arrancado do berço,ainda vai dormindo.

Há mais de um mês que a Ermelinda vai para as vindimas em S.João da Pesqueira.Ela pensa mais uma vez em fazer mil euros nesta época, uma ajuda preciosa para, com o abono do seu menino, enfrentar da melhor maneira o inverno que não está longe.Um mês interminável de calor e chuva, com o rosto curtido pelo sol abrasador, os pulsos a doerem da tesoura e as costas num calvário que nem a cama acalma.Milhares de videiras estão prontas para que lhe cortem os cachos pelas encostas ingremes e cascalhentas, os dias seguindo-se uns a seguir aos outros, intercalados por noites agora mais frescas e longas.

Corre Ermelinda que a carrinha do empreiteiro já estacionou no largo da Igreja e espera pelo grupo de trabalhadores para seguir viagem.Tens tempo de fazer contas à vida quando acabarem as vindimas e receberes os euros tão desejados das mãos do empreiteiro.Este pelo menos não te vigariza ,paga a segurança social e o seguro.Uma mulher sozinha e com um filho nos braços é fácil de enganar, quanto mais fracos sómos mais enganados e humilhados.Foste enganada para toda a vida quando o pai do teu menino abalou para o estrangeiro sem dizer água vai nem água vem.

Corre Ermelinda, corre! A carrinha do empreiteiro corre agora veloz pelas estradas serpenteadas do Douro enquanto a madrugada difusa dá lugar ao sol radioso que nasce de Espanha.São dez ao todo os que se amontoam na carrinha com os sacos e marmitas com as buchas do dia, esperando que o vinho não falte para empurrar a comida feita na véspera.O silencio impera, apenas se ouve o ruído do motor e do chassis protestando pela curvas de carrocel.Alguns ainda saboreiam os últimos bocados de sono,deixando embalar os corpos castigados.As quintas vinhateiras de patrões sem rosto e os barcos turisticos emergem serenos da neblina matinal.A Ermelinda vai deitando contas á vida e pensa no seu menino que ficou lá longe e só o verá á noite.Ai vida, vida!Ai Douro, Douro!

 

Dedicado a todas as mulheres trabalhadoras do Douro

 

 

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

DIA INTERNACIONAL DO TRABALHO DIGNO! o burnout que nos mata.....

 A data de sete de outubro é o Dia Internacional do Trabalho Digno comemorado pelas Organizações de Trabalhadores! A BASE-FUT e as centrais sindicais têm como objectivo central a promoção do Trabalho Digno,ou seja com direitos sociais, tendo em conta o a dignidade da pessoa !

Embora na Europa, e em alguns outros países do mundo, exista uma preocupação pela promoção do


trabalho digno a realidade mostra-nos que a economia capitalista actual continua não apenas a gerar condições de trabalho com riscos tradicionais como os acidentes de trabalho e doenças profissionais, como a surdez ou o cancro profissional, como ainda agravou  patologias como o burnout com origem nas formas de organização e gestão do trabalho próprias da intensificação do trabalho e da utilização das novas tecnologias em benefício dos acionistas.

Carga excessiva de trabalho como causa fundametal

Os dados estatisticos não enganam.Basta consultar informações da OIT ou da Agência Europeia para a Segurança e Sáude no Trabalho.Basta consultar estudos sobre professores, trabalhadores bancários,pilotos e até gestores!Estes bebem frequentemente do seu veneno!Mas também existe burnout em operários e trabalhadores independentes!

Numa pesquisa internacional recente, da consultoraTalkspace Employee Stress Chek o Burnout aparece como o segundo motivo de insatifação no trabalho (51%) depois do salário(57%).Um trabalho do ETUI,Instituto Sindical Europeu, revela que 4 em 5 quadros enfrentam problemas de stresse ligado ao trabalho.Outro estudo da Universidade  Católica  de Luvaina (Bélgica) junto de 5000 trabalhadores revela que 18% deles estavam em risco de esgotamento.Em causa estavam as directrizes contraditórias e uma carga de trabalho muito elevada!

Origem do burnout

Sendo hoje muito utilizada,a palavra inglesa burnout significa uma perturbação psíquica que se caracteriza pelo esgotamento físico e mental da pessoa.Essa perturbação desenvolve-se em geral pela acumulação de stresse no trabalho e por um ambiente agressivo e pouco amigo.Ou seja, uma dedicação excessiva à vida profissional, sem descanso, sem férias ,sem alternar o seu trabalho com outras actividades.Esta dedicação excessiva pode ser por vontade própria ou pelas solicitações e obrigações impostas pela entidade patronal.

Esta perturbação foi descrita pela primeira vez pelo psicólogo alemão Herbert Freudemberger.É considerada uma doença profissional pela Organização Mundial de Saúde.Segundo a legislação portuguesa os empregadores devem avaliar os riscos e tomar medidas adequadas de prevenção.

Determinados sectores da economia mundial, altamente competitiva, e uma gestão desumana de muitas empresas, conduzem milhares de trabalhadores a situações de esgotamento com graves consequências para a saúde e para a vida familiar.

Qualquer pessoa que tenha muita actividade e pressão deve estar alertada para alguns sinais como a exaustão e esvaziamento emocional, desgaste da empatia;desvalorizção de tudo o que se relaciona com o seu trabalho; aumento da desmotivação; fadiga, dores musculares, dores de cabeça, alterações do sono e níveis de tensão arterial;Sentir uma insatisafação geral com a vida;perda do sentido do trabalho;sentir que as relações com os familiares e amigos estão a piorar.

Factores que podem agravar a situação

Lembramos que existem factores que podem agravar a situação com destaque para a carga de trabalho superior á sua capacidade de resposta;pouca ou nenhuma autonomia e controlo sobre as suas tarefas e a organização do trabalho;estar responsável por tarefas perigosas ou de grande exigência emocional; dificuldades em conciliar a vida familiar e profissional.

Sabemos que o burnout afecta em especial profissões com grande carga física e pressão emocional como é o caso dos profissionais de sáude, professores, alguns profissionais da aviação, gestores e alguns sectores operários.

Os sistemas de avaliação competitivos e discriminatórios são também um poderoso factor de burnout.A destruição dos colectivos e da solidariedade entre trabalhadores agravou as condições propícias para o burnout.

O burnout não se vence sozinho

Por medo ou por pudor alguns trabalhadores não falam da sua situção de burnout como não falam de outras doenças!Medo de perder o emprego,medo de mostrar vulnerabilidades aos chefes e colegas com quem estão em competição por prémios de mérito ou de progressão na carreira.

As dicas e propostas individuais para vencer o burnout não são suficientes.Não basta fazer desporto ou  yoga e comer de forma vegetariana!Não basta mudar a vida pessoal!Há que mudar as condições de organização do trabalho,ou seja, há que mudar o que está mal no local de trabalho!A raiz do burnout existente numa empresa está frequentemente relacionado com as formas de gestão tóxicas existentes,no ambiente de trabalho doentio!

Realisticamente os serviços de recursos humanos e de segurança e saúde no trabalho não são suficientes e competentes para prevenir e acompanhar estas situações.Os primeiros porque estão a defender os interesses do patrão e os segundos porque, na sua generalidade ,são externos  e com a missão de apenas cumprir as normas legais.

A existência da estrutura sindical torna-se imperiosa

Neste  quadro é muito importante  a existência de uma estrutura sindical competente e reivindicativa capaz de colocar a prevenção dos riscos físicos e psicológicos no centro da sua ação sindical e confronte a gestão e os serviços da empresa não apenas com as carências neste capítulo , mas também com as práticas geradoras de doença no trabalho!

Digamos assim que a organização sindical é uma das condições de saúde nos locais de trabalho.O sindicato por um lado confronta e chama a atenção da gestão para a perversão de algumas práticas de discriminação ,competição e intensificação do trabalho  que geram doença e, por outro, mobiliza os trabalhadores para a criação de um ambiente preventivo  solidário.

Fontes:ETUI,OSHA,Seminários e grupos de trabalho EZA


 

 

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

URGENTE REFORÇAR COMBATE À PRECARIEDADE!

 

A Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) lançou no passado dia 20 deste mês de agosto uma ação de combate à precariedade, notificando 80 mil empresas para que regularizem os contratos de 350 mil trabalhadores.Enfim, mais uma ação informtiva de uma instituição  que está sempre a receber


incumbências do legislador sem que tenha meios e respaldo político adequados.

Com efeito, segundo dados do INE deste mesmo mês o emprego aumentou em Portugal mas  também aumentou a precariedade do mesmo.De facto nos últimos meses 80% do emprego disponibiliazado era precário.

A imprensa também deu conta de que a precariedade aumentou no sector do Estado nos últimos anos, bem como o número de trabalhadores não qualificados.Como é possível quando até se instituiram mecanismos de integração de trabalhadores precários na legislatura anterior?

Nos últimos anos, e apesar da constante denúncia do trabalho precário sem justificação pelos sindicatos,as políticas de emprego, inclusive as concertadas nos acordos sociais,não terão sido eficazes no terreno.Ou seja, acordam-se coisas entre os Parceiros Sociais que depois ficam em «águas de bacalhau».Mais uma prova de que o «diálogo social»terá que ser repensado e reavaliado nas nossas sociedades.

A ideia, por vezes muito comum, de que vale mais um emprego precário do que nenhum, tem singrado nos meios empresariais e políticos facilitando o aumento dos vínculos precários no emprego e concomitantemente o esvaziamento dos direitos laborais dos trabalhadores e a fragilização da ação sindical.

A sociedade portuguesa deve encarar com seriedade o combate à precariedade laboral.Ela é causa da erosão  dos direitos sociais e sindicais e da democracia no local de trabalho.Prevalecendo em larga medida nos jovens trabalhadores estamos a criar condições hostis a uma carreira profissional digna, a um futuro de vida estável e saudável !Estudos diversos demonstram com clareza que a precariedade é uma condição geradora de riscos físicos e psíquicos,podendo ser devastadoira para a saúde dos trabalhadores!

Em convergência com outras dinâmicas na nossa sociedade como a emigração de quadros jovens e a fraca natalidade a precariedade fragiliza o nosso tecido social e empobrece-nos!

Inquérito recente realizado pela Unión Sindical Obrera (USO) na vizinha Espanha mostra que os jovens daquele País consideram -se também hostilizados pelas politicas de emprego e práticas empresariais,nomeadamente pela precariedade que lhes rouba um futuro com dignidade.

Não basta dar tarefas à Autoridade para as Condições do Trabalho.Para além dos meios a dar a esta entidade fiscalizadora do Estado há que penalizar as empresas que tenham trabalhadores com vínculos precários durante anos seguidos em lugares permanentes de trabalho, sem lhes dar a necessária estabilidade e direitos.

As empresas hoje já podem despedir com relativa facilidade.Logo, não existe a velha desculpa para manterem percentagens tão altas de trabalhadores precários!

 

 

sexta-feira, 21 de julho de 2023

TEMOS UM NOVO MUNDO? Sim, o das multinacionais e tecnologias!

 

São muitos os investigadores sociais e filósofos que nos dizem que estamos numa fase da História em


que estando em crise vários valores tradicionais vão emergindo novos valores, alguns dos quais entrando em choque com os anteriores.Falamos em conflito de gerações, de mentalidades , enfim de ideologias, de visões do mundo e da vida!

Partidos políticos, igrejas,associações, empresas e fundações vão trabalhando as ideias , produzindo valores e procurando fazer valer as suas, promovendo-as nos «midia»,nas artes, na política e até e principalmente nas universidades, nas escolas de gestão e finança.

Mas, nas últimas décadas do século passado e deste século os grandes actores  da promoção de valores, em particular do mercado,são as grandes multinacionais.Elas estimularam e beneficiaram da globalização com os avanços tecnológicos na comunicação e informação e promoveram o mercado global como o «grande senhor», o maestro do progresso capitalista, da exploração desenfreada dos recursos da natureza e humanos.Os avanços enormes na mobilidade,nomeadamente na aviação e na rodovia e na comunicação, com a internet, permitem às multinacionais um desempenho extraordinário e uma acumulação de capital nas mãos de poucos.A riqueza nunca esteve tão concentrada como hoje!

As multinacionais definem a moda, o consumo ,a informação

Este mundo moderno é assim configurado pelas grandes multinacionais ligadas aos recursos naturais e agroindústria, química e farmaceutica bem como às teconologias de comunicação e informação.São elas que definem a moda, os padrões de consumo,a informação que deve ser dada ao povo, as músicas a vender no mercado , a saúde e até a gastronomia.São elas que dominam as grandes escolas de gestão e do direito através de parcerias e financiamentos de estudos e laboratórios.Algumas delas têm importantes interesses em aspectos vários da logistica da guerra e na produção de armamento.

As multinacionais avançaram para formas de organização do trabalho e de gestão que visam por um lado promover a subcontratação e o outsourcing,e por outro, a flexibilidade , o falso trabalho independente, o contrato individual, a destruição da negociação colectiva e a ação sindical.Fazem  a rotação de pessoal  e de gestores, promovem sistemas de avaliação injustos e distribuição de premios segundo critérios discriminatórios.Aparecem frequentemente com slogans e medidas de bem estar no trabalho nos países europeus mas exploram, por vezes, o trabalho infantil, promovem a desmatação e a exploração dos recursos de países pobres.

A ação sindical na maioria das multinacionais está hoje muito complicada com excepção de algumas empresas alemãs onde a cultura empresarial da cogestão ainda tem alguma tradição.Foram as comissões de trabalhadores que se extinguiram em algumas empresas e noutras se debilitou a estrutura sindical.A diminuição do «poder operário», das oficinas ou fábricas dessas multinacionais e o crescimento dos quadros e colarinhos brancos contribuiu para a menor ação sindical.Grandes fábricas que tinham centenas de operários à cinquenta ou sessenta anos estão hoje com algumas dezenas de engenheiros à frente de computadores.

O sindicalismo terá que superar estas novas dificuldades próprias das mudanças profundas ocorridas no trabalho decorrentes em particular da introdução das tecnologias de informação e comunicação e de formas de organização do trabalho que promovem a competição entre trabalhadores,a divisão e isolamento.O teletrabalho, no quadro da pandemia, permitiu acelelarar o trabalho em casa de milhões de trabalhadores em todo o mundo com proveito de várias multinacionais.

As multinacionais promovem e estimulam uma cultura individualista e competitiva tendo por base o consumismo e a submissão da vida às regras do mercado.Dominam a bolsa e a circulação financeira em todo o mundo,fazem chantagem aos governos e até provocaram a queda de alguns.

Para as multinacionais não existem pessoas nem trabalhadores, mas antes colaboradores e clientes.Estes são entes abstratos, objectos de estudo de mercado,eventualmente descartáveis se o negócio e os lucros dos acionistas o exigirem.As multinacionais têm várias caras e ramificações.Na América e na Europa têm uma cara na Africa e  na China outra!Aliam-se aos militares na América Latina, aos oligarcas na Rússia, aos burocratas na UE e aos altos funcionários do Estado na China!Para elas não existem fronteiras e, em geral, pagam os impostos que elas mesmas querem.

Ao controlarem a tecnologia de informação e comunicação as multinacionais estão a percorrer um caminho que nos levará cada vez mais a uma sociedade vigiada e controlada social e polticamente.

Seremos controlados na rua,no trabalho e em casa!

Seremos controlados na rua, no trabalho  até em casa!Se não existirem resistências na sociedade e se a democracia se degradar teremos sociedades totalitárias, absolutamente controladas.

A «cultura» empresarial das multinacionais conduz à competição global, à exploração desenfreasda do planeta e à sua destruição!Têm uma «cultura» do progresso e da acumulação infinita como o nosso planeta não se pudesse esgotar e alterar.É para a política das multinacionais que teremos que olhar e serão elas o nosso, da humanidade, adversário principal!Os governos, na sua maioria estão ao seu serviço, as autarquias perdoam-lhe impostos para se inplantarem no respectivo concelho,os outros empresários são delas dependentes nos seus negócios

Os consumidores organizados, os trabalhadores organizados e os estados que queiram ser soberanos podem enfrentar as multinacionais.Em vários locais do globo temos organizações de jovens ecologistas,associações de indigenas,sindicatos de trabalhadores,diversos movimentos sociais  a lutarem ,por vezes com risco da própria vida dos seus membros, contra as políticas e «valores» predadores das multinacionais.

domingo, 9 de julho de 2023

JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE- afirmação de um catolicismo de massas?

 

Ao ver  pelo País grupos de jovens com os simbolos das JMJ-a cruz e o ícone de Maria-não pude deixar de me interrogar sobre o tipo de cristianismo que está a ser transmitido a esta juventude portuguesa que se vai juntar a outras centenas de milhar de jovens de todo o mundo.


De facto o que aparece nas manifestações públicas são jovens bastante jovens, liderados por membros do clero transportando pelas ruas e igrejas uma grande cruz e um belo quadro de Maria.Ontem até li uma notícia que nos dizia que as reliquias de Santa Teresinha de Lisieux estavam em Lisboa no âmbito das JMJ.

O principal simbolo e o centro da mensagem das JMJ é a cruz! Ora, a cruz é a cara de um cristianismo do sacrifício.Onde está a ressurreição , a vitória sobre a morte e sobre a dominação? Onde está a indignação por um mundo fratricida, com milhões de espoliados da sua dignidade e dos bens que também lhe pertencem?

O que, entretanto, se prepara, e vai aparecer  na grande manifestação de agosto, é a grandiosidade e poder da Igreja na sua simbologia, mobilizando milhares de jornalistas seduzidos pelas potencialidades mediáticas do acontecimento.As cadeias de TV farão cobertura parcial ou integral de alguns actos e comentadores mais ou menos encartados farão uma exurrada de comentários, uns mais acertados que outros como aconteceu recentemente com a morte de Isabel !!

Apesar da modernidade,bondade  e argúcia do Papa Francisco este não se pode furtar totalmente a esta dinâmica festivaleira, muito mais própria de um João paulo II  e de um Vaticano desejoso de fazer esquecer os seus escândalos financeiros, bem como os de um clero perturbado pelos abusos de menores e por um sínodo altamente questionante do seu poder.

Referem algumas notícias que os portugueses não querem que seja o Estado a pagar as JMJ.Uma parte dos portugueses calam-se,outros consideram que as JMJ trarão benefícios para o País.Enfim há pouco debate e avaliação crítica de evento.

Convém dizer no entanto que existe muita hipocrisia nesta matéria.Esquerda e direita, de forma mais exuberante uns do que outros,não criticam as JMJ e até louvam a iniciativa mesmo sendo dclaradamente agnósticos.Têm muito respeitinho pela Ugreja Católica mas de forma polida e oportunista.São coniventes com a confusão entre o que é de César e o que é de Deus, confusão essa que começa com a Concordata estabelecida entre o estado Português laico e republicano e o Vaticano ou Santa Sé.

As JMJ são uma manifestação mundial de massas promovida pelo Vaticano  e pela Igreja Católica debilitada no seu poder e na sua missão.É um acto que procura contrariar o progressivo laicismo e abandono das populações do culto e da doutrina católica na Europa e o crescimento de outras doutrinas de raiz protestante, como os evangélicos e seitas diversas, em particular nas américas.

Bem no fundo é uma resistência do velho catolicismo de massas que orientava os povos e os seus dirigentes.Aproveitou-se um Papa pop, João Paulo !!, feito santo precocemente, para lançar estas manifestações entre a juventude.

Mas estas manifestações não têm nada de positivo?Pois terão, pelo menos o convívio entre jovens de várias nações, quase todos de uma classe com alguma capacidade financeira para suportarem, com alguns apoios é verdade, uma viagem e uma estadia numa das cidades mais caras do mundo.

Acredito nas boas intenções de Francisco no sentido de reorientar a mensagem, mas será sempre ele a atração principal e tudo será promovido numa onda folclórica e clerical, com centenas de bispos e de padres comandando as operações.

Na minha opinião não passa por aqui o futuro do cristianismo nem a sua capacidade de indignação e de transformação social e pessoal em direção à fraternidade universal!.Isto é muito mais um festival que sai em alguns aspectos da norma coca-cola e sumol.


terça-feira, 20 de junho de 2023

PODEMOS SER FELIZES NO TRABALHO?

 

O tema da felicidade no trabalho regressa de vez em quando ao discurso de


alguns gestores e investigadores sociais.Ainda nos últimos dias deparei com alguns artigos e entrevistas onde pessoas ligadas à gestão de recursos humanos falavam do tema como se fosse uma novidade, ou mesmo uma boa nova de uma religião.

Dizia uma gestora e consultora(!) que «a felicidade no trabalho é lucrativa», ou seja, criar condições de trabalho boas pode levar a uma melhor produtividade por trabalhador.Este tipo de pensamento ,que tem um fundo de verdade, é uma das componentes do discurso patronal e da gestão.O bem estar notrabalho é rentável para a empresa e para o trabalhador.Aliás um ou outro estudo diz que por cada euro investido na promoção da segurança , saúde e bem estar no trabalho tem um retorno de, pelo menos, o dobro!Será?

Temos verificado que tal ideia se apregoa há muito sem que tenha grandes efeitos na maioria das empresas.Os investimentos a longo prazo não são hoje muito atrativos para os acionistas!

Mas, inclusive nas empresas onde existe essa ideia de que a felicidade e o bem estar é produtiva não passa muitas vezes de propaganda e de medidas avulsas e superficiais de natureza psicologizante e individual sem alterações na organização do trabalho, nomeadamente nos ritmos de trabalho e na carga mental e física.Recomendam esses gurus medidas sociais, alguma flexibilidade no horário de trabalho e medidas de combate individual do stresse.

Existem ainda empresas internacionais e nacionais que têm fama de  melhores empresas para trabalhar e ,na prática , ocorrem casos de assédio moral e sexual e outras violências sobre os trabalhadores.

Numa perspectiva sindical e de prevenção dos riscos psicossociais não basta promover medidas avulsas de bem estar, nomeadamente eventos sociais, flexibilidade de horários, yoga e ginásio embora tais ações não não sejam desprezíveis.A promoção do bem estar no trbalho, porém, exige um plano de prevenção global e multidisciplinar dos riscos psicossociais.Efectivamente a promoção da segurança e saúde no trabalho deve assentar numa ação integral nos locais de trabalho ,com avaliação de riscos físiscos, biológicos,químicos e psicossociais.Ações avulsas e voluntaristas não previnem os riscos e não promovem um ambiente de trabalho saudável e de bem estar.

Elementos essenciais para promover o bem estar no trabalho

Existem elementos essenciais para a promoção da saúde e bem estar dos trabalhadores nos locais de trabalho:

1.Forte empenhamento da administração/gestão;

2.Um serviço de segurança e saúde no trabalho organicamente ligado à administração/gestão;

3.Um plano de prevenção com avaliação de riscos e medidas de prevenção com monitorização das mesmas;

4.Participação dos trabalhadores e das suas organizações, nomeadamente dos representantes dos trabalhadores para a segurança e saúde.

A participação dos trabalhadores e suas organizações é fundamental, não apenas porque eles conhecem os riscos nos locais de trabalho, mas também porque são eles que melhor defendem os seus interesses.

Enquanto a perspectiva empresarial do bem estar no trabalho é fundamentalmente produtivista, ou seja, visa melhorar «a força de trabalho» para obter melhores resultados económicos, a perspectiva sindical visa a prevenção e a promoção da saúde mental e física dos trabalhadores como direito fundamental dos mesmos.