Acabei de fazer uma primeira leitura da Encíclica «Magnifica Humanidade» e fiquei com um duplo sentimento: por um lado achei um belo e bom documento e por outro tive no final uma sensação de «saber a pouco» em alguns domínios, nomeadamente no que respeita em particular às consequências da Inteligência artificial para o trabalho digno! Mas vamos por partes:
Em primeiro lugar salientemos alguns aspetos genéricos. No aspeto formal o documento, versão
portuguesa, está muito bem escrito e estruturado. Vai ser um documento de referência sobre esta temática não apenas para a Igreja Católica, mas para toda a Humanidade. Um documento que coloca os principais desafios ético-filosóficos que enfrentamos e que viremos a enfrentar com a IA!
Um belo e desafiante documento
Com uma linguagem cuidada e simples a Encíclica consegue ser
acessível a largas camadas da população sem especial formação nestas matérias.
Em segundo lugar a Encíclica faz uma síntese muito bem
conseguida do que foram os diferentes documentos sociais da Igreja Católica até
ao momento presente. O leitor menos familiarizado com a «Doutrina Social» da
Igreja tem acesso ao essencial de cada documento produzido nos últimos 136 anos.
No IIIº Capítulo encontramos uma excelente reflexão sobre a
IA e o que ela pode significar para o presente e futuro dos humanos, quais as
consequências para todos se não existir regulamentação, transparência e
democracia em todo o processo desde a conceção, produção e utilização, com
controlo e vigilância das orientações que estão subjacentes aos algoritmos.
As ameaças são grandes e diversas. Desde o facto de existir
uma minoria ultra rica que controla a tecnologia e a IA até ã modelação da consciência
humana com alterações profundas no conhecimento e relacionamento humanos. Se
não houver sentido ético e democracia a IA pode levar a um mundo sem
humanidade, frio, e até a um futuro de homens-máquina.
Este capítulo é muito rico e espelha uma profunda reflexão e
sabedoria que não é de agora, sobre o nosso futuro, caso essa minoria ultra
rica destrua, através da IA ,o bem comum, a solidariedade e a democracia! O que
as grandes multinacionais do MUSK, Amazon, Googles, etc, estão a fazer aos
trabalhadores e aos sindicatos e à própria democracia são indiciadores de um
futuro nada risonho para todos nós.
A inteligência artificial e o trabalho digno
Um dos aspetos que a meu juízo ficaram aquém do que esperava
é a reflexão sobre o trabalho na transição digital e os impactos da IA. Tudo o
que se escreve é pertinente, mas não se dá o devido relevo às implicações das
tecnologias e nomeadamente da IA para o trabalho digno e para a dignidade do
trabalhador.
Confesso que esperava um firme repúdio das práticas antissindicais
e de descarte de milhares de trabalhadores promovidas pelas grandes multinacionais.
Esperava uma crítica mais assertiva às práticas de seleção, utilização de dados,
controlo e vigilância dos trabalhadores que afetam a dignidade humana dos
mesmos, nomeadamente no trabalho de plataformas. Esperava uma reafirmação mais
firme e plena da luta pelo trabalho digno e importância decisiva dos atores
sociais, nomeadamente dos Movimentos Populares e o Movimento Sindical, que
estão numa posição de grande vulnerabilidade perante os colossos das
tecnologias.
Sei que os oligarcas e magnatas das tecnologias, bem como
outros poderosos civis e religiosos vão tecer loas a esta Encíclica e citar de
quando em quando o papa Leão XIV. Mas não será por eles que as coisas poderão
mudar. Aliás, certos setores católicos vão calar este documento passada a novidade
e, outros, vão considerar esta encíclica uma cartilha esquerdista! Será o
movimento social, o esclarecimento dos povos, a luta pela dignidade de cada homem
e mulher que poderão mudar o essencial! Enquanto houver gente a resistir haverá
esperança!

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