Agora em maio faz um século (1926-2026) que se implantou a ditadura militar em Portugal e que sob a orientação de Salazar e Caetano durou quase meio século. Tal acontecimento teve as suas causas, muitas das quais já foram avaliadas por historiadores e sociólogos conhecidos. Interessa, no entanto, recordar alguns acontecimentos dos meses anteriores e fazer algumas considerações a propósito....
Em 1924 teve lugar o XIº congresso do Partido Socialista Português onde se
confirma a adesão à Internacional Operária Socialista. O ambiente repressivo da República era tal que as organizações operárias fizeram um acordo de frente única contra as perseguições aos sindicalistas. Para além da repressão o capital constituiu a União dos Interesses Económicos para «levar a água ao seu moinho».
A ditadura foi sendo anunciada
A ditadura já se anunciava nesse ano pois as organizações
de trabalhadores realizaram importantes manifestações contra o «espectro da ditadura»
por parte da própria República!
Entretanto, e no mesmo ano, Salazar, um financeiro,
militante católico conservador discursa sobre «a harmonia das relações sociais»
no Congresso Eucarístico. Ele e o seu grupo já tinha uma teoria pensada, bebida em Maurras e Mussolini, aproveitando alguns aspetos do conservadorismo católico.A ocasião estava a chegar!
No ano de 1925 ocorrem também eventos significativos tais
como o IVº Congresso Operário e promove-se uma Frente Única composta pelo
Partido Socialista, Partido Comunista, recentemente fundado, a Confederação
Geral do Trabalho tendo como grande objetivo o apoio ao governo de esquerda de
Domingues dos Santos de pouca duração.
O golpe militar de 28 de maio de 1926 acabou com a República
e institui a ditadura militar fechando a Assembleia Nacional e demitindo o Presidente da República Bernardino Machado. Salazar é chamado para a pasta das
finanças e os partidos socialista e comunista realizam os respetivos
congressos.
Em 1927 será dissolvida a Confederação Geral do Trabalho
a principal organização de trabalhadores na altura com grandes divisões
internas entre a corrente comunista e anarco-sindicalista.
Hierarquia católica deixou-se colonizar
Por estes acontecimentos verificamos como se chegou á
ditadura e o papel que um quadro oriundo do conservadorismo católico veio a ter
em toda a arquitetura da mesma ao longo de décadas com o apoio clero e da hierarquia
católica.
Salazar criou o seu edifício corporativo bebendo aspetos
importantes da Rerum Novarum, mas sem liberdade associativa. O tirano não
permitia qualquer sindicato ou partido fora do edifício corporativo. Nem sequer
permitiu o partido da democracia cristã porque não queria simplesmente partidos!
O curioso é que a hierarquia da Igreja Católica
colonizada por Cerejeira e inculta permitiu que o ditador não permitisse nem
sindicatos católicos nem um partido democrata cristão! Coabitou bem com a tortura, com censura e com a formação medíocre do clero português. Nem com o seu irmão, o célebre Bispo do Porto, foi solidária! Uma desgraça!
Ainda hoje, apesar de existir uma faculdade de teologia e
de alguns padres estudarem no estrangeiro, a Hierarquia católica é pouco
informada e pouco entende e não quer entender do mundo do trabalho e das
relações laborais.
Veja-se a pobreza dos documentos sinodais no que ao
trabalho respeita e mais recentemente a nota da última Assembleia da Conferencia
Episcopal. Nela se referem os 70 anos da Caritas Portuguesa, fala-se da
pastoral juvenil, das jornadas mundiais da juventude, mas nem uma palavra sobre
os 90 anos dos Movimentos de trabalhadores cristãos (JOC e LOC/MTC).O silencio continuado é muito pior que a crítica! Na Igreja, o silêncio é a pior crítica que se pode ter!
Não falo por mim que nunca fui militante dos Movimentos Operários católicos mas por dezenas deles de que fui e sou amigo e que deram anos da sua vida a estes Movimentos quase seculares!

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