quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

ACIDENTES DE TRABALHO E DOENÇAS PROFISSIONAIS- quanto custa a não prevenção?

 «Despesa pública com baixas por doença disparou: trabalhadores aumentaram e estão mais velhos.

A despesa com o subsídio de doença disparou de 562,8 milhões de euros em 2018 para 885,2 milhões de euros em 2023, correspondendo a um acréscimo de cerca de 57,3%, revela o mais recente relatório do Tribunal de Contas, divulgado nesta quarta-feira.» (Publico de 28 de janeiro).

O número de doenças profissionais também tem aumentado nos últimos anos, embora apenas uma parte minoritária das doenças relacionadas com o trabalho seja efetivamente detetada e certificada.


Aponta-se o aumento e envelhecimento da população trabalhadora, bem como o aumento da idade de reforma como causas desta situação. Mas há outras tão importantes ou mais do que estas. A mais importante é, a meu ver, as deficientes condições de trabalho, nomeadamente as condições de segurança e saúde no trabalho. Há muito que se deixou de falar no «envelhecimento ativo» na EU. Foi moda que passou e pouco ou nada deixou!

Existem milhares de empresas que não têm qualquer serviço de segurança e saúde e centenas de milhar que apenas possuem um contrato com um serviço externo de prestação de serviços. Na generalidade os empresários preocupam-se apenas com o cumprimento formal da legislação, em terem a papelada em dia, mas estão alheios aos riscos profissionais existentes nas suas empresas.

Recentemente a Inspetora Geral do Trabalho, dirigente máxima da ACT, referia esta realidade, ou seja, a excessiva externalização dos serviços de segurança e de saúde no trabalho. Mas a própria ACT tem responsabilidades nesta situação não apenas porque participou na legislação que o permite, mas na sua prática processual ao facilitar que as empresas, mesmo médias e até de alguma dimensão, possam adotar serviços externos em substituição de serviços internos

Os espertos e negociantes descobriram que estava aqui uma oportunidade de negócio e quem fica a perder são os trabalhadores portugueses. Em muitas empresas os trabalhadores nunca viram o médico do trabalho e este nunca avaliou qualquer risco na sua empresa.

A falta de uma prevenção no trabalho e a falta de promoção de segurança e saúde no trabalho cria problemas a muitos trabalhadores e suas famílias com acidentes que poderiam ser evitados e doenças que deveriam ser prevenidas. Milhares de trabalhadores continuam a ir todos os dias para locais de trabalho que os adoeceram! Eles são descartáveis!

A notícia acima referida apenas nos diz qual o montante da despesa com o subsídio de doença que foi quase de quase 900 milhões! Mas, para além do enorme sofrimento de milhares de trabalhadores, temos as despesas com o absentismo decorrente dos acidentes de trabalho, em cerca de 5 milhões de dias perdidos por ano e alguns milhões também decorrentes das doenças profissionais que não se resumem ao subsídio de doença! Mas se incluirmos os custos das doenças psicológicas relacionadas com o trabalho então teremos muito mais absentismo e perdas económicas substanciais, bem como sofrimento e ambientes de trabalho nada saudáveis! Alguns estudos estimam que em qualquer país os custos decorrentes dos acidentes e doenças profissionais serão cerca de 3 a 4% do PIB! Uma enormidade! No nosso País será o equivalente a três ou quatro anos de riqueza produzida pela Autoeuropa!

É difícil assim aceitar que nas propostas legislativas do governo para alterar a lei laboral não se abordem a melhoria da legislação preventiva no domínio dos riscos profissionais, nunca mais seja publicada a Estratégia Nacional para a segurança e saúde no trabalho, que deveria ter sido publicada em 2022, nem a revisão da Lista de doenças profissionais, em que a última revisão foi em 2007!

Este governo, e em alguma medida até os anteriores, têm uma visão demasiado economicista e só pensam no curto prazo. Não investem na prevenção dos riscos onde até no domínio económico se poupariam biliões de euros! Por mais que se afirme que os euros gastos na prevenção não são um custo, mas um investimento, esta gente apenas pensa no curto prazo e nos votos para não perderem o poder!

Ao Movimento Sindical compete ser muito mais incisivo nestas matérias, nomeadamente na formação e na reivindicação! Há que defender a vida e a saúde física e psicológica como o pão para a boca! As novas gerações de trabalhadores estão mais sensíveis a estes problemas! Lembramos as sábias palavras de um Papa, que alguns querem esquecer muito depressa, o Papa Francisco: esta economia que mata!

Quando os políticos neoliberais falam em flexibilizar e modernizar as relações laborais como acontece com a Ministra Ramalho deste governo estão a incentivar as condições para que mais trabalhadores e trabalhadoras tenham acidentes e doenças profissionais! Acreditem! O problema são os interesses que defendem e o facto de nunca terem trabalhado numa fábrica ou num Mac Donald….

 

 

 



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