Atrevo-me a dizer que o sonho não secreto da maioria dos patrões e administradores é regressar ao século XIX no que diz respeito às relações laborais. Ou seja, o sonho de precarizar as relações de trabalho num
século das novas tecnologias e daquilo a que chamam inteligência artificial! Basta ver que, com honrosas exceções, os empresários e suas organizações empresariais alinham com o projeto laboral regressivo do atual governo expresso no Anteprojeto Trabalho XXI de Maria do Rosário Ramalho.
Esse sonho é alargar a todo o mundo laboral o que já existe
em muitos setores, nomeadamente na restauração, limpezas, construção,
agricultura e outros…Contratar o trabalhador sem qualquer encargo nem direito para além de uma remuneração decidida pelo patrão, eis o sonho !A Argentina
caminha a passos largos para esse mundo de precariedade e o projeto de Ramalho aprofunda
essa precariedade e, ao facilitar ainda mais o outsourcing e os contratos a
prazo articulados com a expansão do trabalho temporário, aponta nesse caminho !
Hoje já temos milhões
de trabalhadores europeus numa situação clandestina, precária e humilhante, sem
qualquer contrato, sem qualquer subsídio de almoço, sem subsídio de desemprego
e sem férias e descontos para a velhice. Trabalham à hora, ou à peça ou
trabalham subcontratados para empreiteiros que não cumprem a legislação mínima
do trabalho. São trabalhadores descartáveis e invisíveis, enchem os comboios
suburbanos pelas primeiras horas do dia, limpam os escritórios, aeroportos e
hospitais das nossas cidades. Não são tratados com humanidade e não ganham o
suficiente para viverem com dignidade. Ao longo da vida realizam trabalhos que
os adoecem e continuam anos nos mesmos locais ou locais semelhantes com os
mesmos riscos profissionais!
Decorreu no sábado passado, em Coimbra, um Congresso
Extraordinário da Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos,
uma Organização da Igreja Católica que perfaz em 2026 os 90 anos de atividade e
que foi criada precisamente para defender a dignidade dos trabalhadores que
passa pela defesa dos seus direitos inalienáveis de pessoas. Têm um grande
desafio pela frente: convencer os
próprios cristãos e Bispos de que se pode viver o cristianismo no mundo
conflitual do trabalho onde existe muita infelicidade, quando o trabalho
deveria ser fonte de realização pessoal e de realização do bem comum. Como
desenvolver reivindicações próprias e uma espiritualidade que seja expressão
viva de uma fé que é a encarnação militante na vida dos trabalhadores? Uma
espiritualidade atrativa para os jovens trabalhadores e que ultrapasse a «lamechice
espiritualista»?
O Movimento Sindical debate-se hoje com um projeto laboral
do governo que é humilhante para quem trabalha, retira direitos e torna cada
trabalhador um burro de carga mais barato. É tempo de luta convergente pela
dignidade de quem trabalha, é tempo de não aceitar a regressão civilizacional!

Sem comentários:
Enviar um comentário