sexta-feira, 25 de agosto de 2023

URGENTE REFORÇAR COMBATE À PRECARIEDADE!

 

A Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) lançou no passado dia 20 deste mês de agosto uma ação de combate à precariedade, notificando 80 mil empresas para que regularizem os contratos de 350 mil trabalhadores.Enfim, mais uma ação informtiva de uma instituição  que está sempre a receber


incumbências do legislador sem que tenha meios e respaldo político adequados.

Com efeito, segundo dados do INE deste mesmo mês o emprego aumentou em Portugal mas  também aumentou a precariedade do mesmo.De facto nos últimos meses 80% do emprego disponibiliazado era precário.

A imprensa também deu conta de que a precariedade aumentou no sector do Estado nos últimos anos, bem como o número de trabalhadores não qualificados.Como é possível quando até se instituiram mecanismos de integração de trabalhadores precários na legislatura anterior?

Nos últimos anos, e apesar da constante denúncia do trabalho precário sem justificação pelos sindicatos,as políticas de emprego, inclusive as concertadas nos acordos sociais,não terão sido eficazes no terreno.Ou seja, acordam-se coisas entre os Parceiros Sociais que depois ficam em «águas de bacalhau».Mais uma prova de que o «diálogo social»terá que ser repensado e reavaliado nas nossas sociedades.

A ideia, por vezes muito comum, de que vale mais um emprego precário do que nenhum, tem singrado nos meios empresariais e políticos facilitando o aumento dos vínculos precários no emprego e concomitantemente o esvaziamento dos direitos laborais dos trabalhadores e a fragilização da ação sindical.

A sociedade portuguesa deve encarar com seriedade o combate à precariedade laboral.Ela é causa da erosão  dos direitos sociais e sindicais e da democracia no local de trabalho.Prevalecendo em larga medida nos jovens trabalhadores estamos a criar condições hostis a uma carreira profissional digna, a um futuro de vida estável e saudável !Estudos diversos demonstram com clareza que a precariedade é uma condição geradora de riscos físicos e psíquicos,podendo ser devastadoira para a saúde dos trabalhadores!

Em convergência com outras dinâmicas na nossa sociedade como a emigração de quadros jovens e a fraca natalidade a precariedade fragiliza o nosso tecido social e empobrece-nos!

Inquérito recente realizado pela Unión Sindical Obrera (USO) na vizinha Espanha mostra que os jovens daquele País consideram -se também hostilizados pelas politicas de emprego e práticas empresariais,nomeadamente pela precariedade que lhes rouba um futuro com dignidade.

Não basta dar tarefas à Autoridade para as Condições do Trabalho.Para além dos meios a dar a esta entidade fiscalizadora do Estado há que penalizar as empresas que tenham trabalhadores com vínculos precários durante anos seguidos em lugares permanentes de trabalho, sem lhes dar a necessária estabilidade e direitos.

As empresas hoje já podem despedir com relativa facilidade.Logo, não existe a velha desculpa para manterem percentagens tão altas de trabalhadores precários!

 

 

sexta-feira, 21 de julho de 2023

TEMOS UM NOVO MUNDO? Sim, o das multinacionais e tecnologias!

 

São muitos os investigadores sociais e filósofos que nos dizem que estamos numa fase da História em


que estando em crise vários valores tradicionais vão emergindo novos valores, alguns dos quais entrando em choque com os anteriores.Falamos em conflito de gerações, de mentalidades , enfim de ideologias, de visões do mundo e da vida!

Partidos políticos, igrejas,associações, empresas e fundações vão trabalhando as ideias , produzindo valores e procurando fazer valer as suas, promovendo-as nos «midia»,nas artes, na política e até e principalmente nas universidades, nas escolas de gestão e finança.

Mas, nas últimas décadas do século passado e deste século os grandes actores  da promoção de valores, em particular do mercado,são as grandes multinacionais.Elas estimularam e beneficiaram da globalização com os avanços tecnológicos na comunicação e informação e promoveram o mercado global como o «grande senhor», o maestro do progresso capitalista, da exploração desenfreada dos recursos da natureza e humanos.Os avanços enormes na mobilidade,nomeadamente na aviação e na rodovia e na comunicação, com a internet, permitem às multinacionais um desempenho extraordinário e uma acumulação de capital nas mãos de poucos.A riqueza nunca esteve tão concentrada como hoje!

As multinacionais definem a moda, o consumo ,a informação

Este mundo moderno é assim configurado pelas grandes multinacionais ligadas aos recursos naturais e agroindústria, química e farmaceutica bem como às teconologias de comunicação e informação.São elas que definem a moda, os padrões de consumo,a informação que deve ser dada ao povo, as músicas a vender no mercado , a saúde e até a gastronomia.São elas que dominam as grandes escolas de gestão e do direito através de parcerias e financiamentos de estudos e laboratórios.Algumas delas têm importantes interesses em aspectos vários da logistica da guerra e na produção de armamento.

As multinacionais avançaram para formas de organização do trabalho e de gestão que visam por um lado promover a subcontratação e o outsourcing,e por outro, a flexibilidade , o falso trabalho independente, o contrato individual, a destruição da negociação colectiva e a ação sindical.Fazem  a rotação de pessoal  e de gestores, promovem sistemas de avaliação injustos e distribuição de premios segundo critérios discriminatórios.Aparecem frequentemente com slogans e medidas de bem estar no trabalho nos países europeus mas exploram, por vezes, o trabalho infantil, promovem a desmatação e a exploração dos recursos de países pobres.

A ação sindical na maioria das multinacionais está hoje muito complicada com excepção de algumas empresas alemãs onde a cultura empresarial da cogestão ainda tem alguma tradição.Foram as comissões de trabalhadores que se extinguiram em algumas empresas e noutras se debilitou a estrutura sindical.A diminuição do «poder operário», das oficinas ou fábricas dessas multinacionais e o crescimento dos quadros e colarinhos brancos contribuiu para a menor ação sindical.Grandes fábricas que tinham centenas de operários à cinquenta ou sessenta anos estão hoje com algumas dezenas de engenheiros à frente de computadores.

O sindicalismo terá que superar estas novas dificuldades próprias das mudanças profundas ocorridas no trabalho decorrentes em particular da introdução das tecnologias de informação e comunicação e de formas de organização do trabalho que promovem a competição entre trabalhadores,a divisão e isolamento.O teletrabalho, no quadro da pandemia, permitiu acelelarar o trabalho em casa de milhões de trabalhadores em todo o mundo com proveito de várias multinacionais.

As multinacionais promovem e estimulam uma cultura individualista e competitiva tendo por base o consumismo e a submissão da vida às regras do mercado.Dominam a bolsa e a circulação financeira em todo o mundo,fazem chantagem aos governos e até provocaram a queda de alguns.

Para as multinacionais não existem pessoas nem trabalhadores, mas antes colaboradores e clientes.Estes são entes abstratos, objectos de estudo de mercado,eventualmente descartáveis se o negócio e os lucros dos acionistas o exigirem.As multinacionais têm várias caras e ramificações.Na América e na Europa têm uma cara na Africa e  na China outra!Aliam-se aos militares na América Latina, aos oligarcas na Rússia, aos burocratas na UE e aos altos funcionários do Estado na China!Para elas não existem fronteiras e, em geral, pagam os impostos que elas mesmas querem.

Ao controlarem a tecnologia de informação e comunicação as multinacionais estão a percorrer um caminho que nos levará cada vez mais a uma sociedade vigiada e controlada social e polticamente.

Seremos controlados na rua,no trabalho e em casa!

Seremos controlados na rua, no trabalho  até em casa!Se não existirem resistências na sociedade e se a democracia se degradar teremos sociedades totalitárias, absolutamente controladas.

A «cultura» empresarial das multinacionais conduz à competição global, à exploração desenfreasda do planeta e à sua destruição!Têm uma «cultura» do progresso e da acumulação infinita como o nosso planeta não se pudesse esgotar e alterar.É para a política das multinacionais que teremos que olhar e serão elas o nosso, da humanidade, adversário principal!Os governos, na sua maioria estão ao seu serviço, as autarquias perdoam-lhe impostos para se inplantarem no respectivo concelho,os outros empresários são delas dependentes nos seus negócios

Os consumidores organizados, os trabalhadores organizados e os estados que queiram ser soberanos podem enfrentar as multinacionais.Em vários locais do globo temos organizações de jovens ecologistas,associações de indigenas,sindicatos de trabalhadores,diversos movimentos sociais  a lutarem ,por vezes com risco da própria vida dos seus membros, contra as políticas e «valores» predadores das multinacionais.

domingo, 9 de julho de 2023

JORNADAS MUNDIAIS DA JUVENTUDE- afirmação de um catolicismo de massas?

 

Ao ver  pelo País grupos de jovens com os simbolos das JMJ-a cruz e o ícone de Maria-não pude deixar de me interrogar sobre o tipo de cristianismo que está a ser transmitido a esta juventude portuguesa que se vai juntar a outras centenas de milhar de jovens de todo o mundo.


De facto o que aparece nas manifestações públicas são jovens bastante jovens, liderados por membros do clero transportando pelas ruas e igrejas uma grande cruz e um belo quadro de Maria.Ontem até li uma notícia que nos dizia que as reliquias de Santa Teresinha de Lisieux estavam em Lisboa no âmbito das JMJ.

O principal simbolo e o centro da mensagem das JMJ é a cruz! Ora, a cruz é a cara de um cristianismo do sacrifício.Onde está a ressurreição , a vitória sobre a morte e sobre a dominação? Onde está a indignação por um mundo fratricida, com milhões de espoliados da sua dignidade e dos bens que também lhe pertencem?

O que, entretanto, se prepara, e vai aparecer  na grande manifestação de agosto, é a grandiosidade e poder da Igreja na sua simbologia, mobilizando milhares de jornalistas seduzidos pelas potencialidades mediáticas do acontecimento.As cadeias de TV farão cobertura parcial ou integral de alguns actos e comentadores mais ou menos encartados farão uma exurrada de comentários, uns mais acertados que outros como aconteceu recentemente com a morte de Isabel !!

Apesar da modernidade,bondade  e argúcia do Papa Francisco este não se pode furtar totalmente a esta dinâmica festivaleira, muito mais própria de um João paulo II  e de um Vaticano desejoso de fazer esquecer os seus escândalos financeiros, bem como os de um clero perturbado pelos abusos de menores e por um sínodo altamente questionante do seu poder.

Referem algumas notícias que os portugueses não querem que seja o Estado a pagar as JMJ.Uma parte dos portugueses calam-se,outros consideram que as JMJ trarão benefícios para o País.Enfim há pouco debate e avaliação crítica de evento.

Convém dizer no entanto que existe muita hipocrisia nesta matéria.Esquerda e direita, de forma mais exuberante uns do que outros,não criticam as JMJ e até louvam a iniciativa mesmo sendo dclaradamente agnósticos.Têm muito respeitinho pela Ugreja Católica mas de forma polida e oportunista.São coniventes com a confusão entre o que é de César e o que é de Deus, confusão essa que começa com a Concordata estabelecida entre o estado Português laico e republicano e o Vaticano ou Santa Sé.

As JMJ são uma manifestação mundial de massas promovida pelo Vaticano  e pela Igreja Católica debilitada no seu poder e na sua missão.É um acto que procura contrariar o progressivo laicismo e abandono das populações do culto e da doutrina católica na Europa e o crescimento de outras doutrinas de raiz protestante, como os evangélicos e seitas diversas, em particular nas américas.

Bem no fundo é uma resistência do velho catolicismo de massas que orientava os povos e os seus dirigentes.Aproveitou-se um Papa pop, João Paulo !!, feito santo precocemente, para lançar estas manifestações entre a juventude.

Mas estas manifestações não têm nada de positivo?Pois terão, pelo menos o convívio entre jovens de várias nações, quase todos de uma classe com alguma capacidade financeira para suportarem, com alguns apoios é verdade, uma viagem e uma estadia numa das cidades mais caras do mundo.

Acredito nas boas intenções de Francisco no sentido de reorientar a mensagem, mas será sempre ele a atração principal e tudo será promovido numa onda folclórica e clerical, com centenas de bispos e de padres comandando as operações.

Na minha opinião não passa por aqui o futuro do cristianismo nem a sua capacidade de indignação e de transformação social e pessoal em direção à fraternidade universal!.Isto é muito mais um festival que sai em alguns aspectos da norma coca-cola e sumol.


terça-feira, 20 de junho de 2023

PODEMOS SER FELIZES NO TRABALHO?

 

O tema da felicidade no trabalho regressa de vez em quando ao discurso de


alguns gestores e investigadores sociais.Ainda nos últimos dias deparei com alguns artigos e entrevistas onde pessoas ligadas à gestão de recursos humanos falavam do tema como se fosse uma novidade, ou mesmo uma boa nova de uma religião.

Dizia uma gestora e consultora(!) que «a felicidade no trabalho é lucrativa», ou seja, criar condições de trabalho boas pode levar a uma melhor produtividade por trabalhador.Este tipo de pensamento ,que tem um fundo de verdade, é uma das componentes do discurso patronal e da gestão.O bem estar notrabalho é rentável para a empresa e para o trabalhador.Aliás um ou outro estudo diz que por cada euro investido na promoção da segurança , saúde e bem estar no trabalho tem um retorno de, pelo menos, o dobro!Será?

Temos verificado que tal ideia se apregoa há muito sem que tenha grandes efeitos na maioria das empresas.Os investimentos a longo prazo não são hoje muito atrativos para os acionistas!

Mas, inclusive nas empresas onde existe essa ideia de que a felicidade e o bem estar é produtiva não passa muitas vezes de propaganda e de medidas avulsas e superficiais de natureza psicologizante e individual sem alterações na organização do trabalho, nomeadamente nos ritmos de trabalho e na carga mental e física.Recomendam esses gurus medidas sociais, alguma flexibilidade no horário de trabalho e medidas de combate individual do stresse.

Existem ainda empresas internacionais e nacionais que têm fama de  melhores empresas para trabalhar e ,na prática , ocorrem casos de assédio moral e sexual e outras violências sobre os trabalhadores.

Numa perspectiva sindical e de prevenção dos riscos psicossociais não basta promover medidas avulsas de bem estar, nomeadamente eventos sociais, flexibilidade de horários, yoga e ginásio embora tais ações não não sejam desprezíveis.A promoção do bem estar no trbalho, porém, exige um plano de prevenção global e multidisciplinar dos riscos psicossociais.Efectivamente a promoção da segurança e saúde no trabalho deve assentar numa ação integral nos locais de trabalho ,com avaliação de riscos físiscos, biológicos,químicos e psicossociais.Ações avulsas e voluntaristas não previnem os riscos e não promovem um ambiente de trabalho saudável e de bem estar.

Elementos essenciais para promover o bem estar no trabalho

Existem elementos essenciais para a promoção da saúde e bem estar dos trabalhadores nos locais de trabalho:

1.Forte empenhamento da administração/gestão;

2.Um serviço de segurança e saúde no trabalho organicamente ligado à administração/gestão;

3.Um plano de prevenção com avaliação de riscos e medidas de prevenção com monitorização das mesmas;

4.Participação dos trabalhadores e das suas organizações, nomeadamente dos representantes dos trabalhadores para a segurança e saúde.

A participação dos trabalhadores e suas organizações é fundamental, não apenas porque eles conhecem os riscos nos locais de trabalho, mas também porque são eles que melhor defendem os seus interesses.

Enquanto a perspectiva empresarial do bem estar no trabalho é fundamentalmente produtivista, ou seja, visa melhorar «a força de trabalho» para obter melhores resultados económicos, a perspectiva sindical visa a prevenção e a promoção da saúde mental e física dos trabalhadores como direito fundamental dos mesmos.

 

sexta-feira, 14 de abril de 2023

AS MUDANÇAS NO CÓDIGO DO TRABALHO MELHORAM A LEI E A VIDA DE QUEM TRABALHA? (I)

 

O nosso Código do Trabalho vai ficando cada vez mais um aparelho limitador dos fracos para libertar os fortes.Desde 2003 que as alterações legislativas vão complicando a vida de quem trabalha e até do bom funcionamento das pequenas empresas.

A Lei 13/2023 ,que entra em vigor no início do mês de maio,introduz dezenas de alterações ao Código do Trabalho no quadro da Agenda do Trabalho Digno e transpõe várias directivas europeias para o nosso sistema legal.

É opinião de vários técnicos que, mais uma vez ,se torna a nossa legislação laboral mais complexa e de


difícil leitura e aplicabilidade.Sendo assim vamos ter mais trabalho para os advogados, mais processos nos tribunais de trabalho ,mais dificuldade para os trabalhadores, sindicalistas e pequenos empresários.Resultará quase sempre em maior desinteresse e distanciamento dos cidadãos face à lei do trabalho que, diga-se já é substancial!Mas, pior de tudo é que dessa complexidade legal resulta, por vezes, prejuízo para quem trabalha.O desconhecimento da lei cria as condições de maior exploração.

Neste momento são muitas as pessoas que ficaram satisfeitos porque melhoraram a legislação em alguns aspectos pensando que, pelo facto de um direito constar na lei, já está efectivado no terreno!Da lei à sua aplicabilidade vai, por vezes, uma grande distância.Daí a necessidade dos trabalhadores estarem organizados em sindicatos e comissões de trabalhadores.É o caso, por exemplo, das novas normas sobre teletrabalho e sobre o trabalho de prestadores de actividades em plataformas digitais

Para além de não serem totalmente claras, algumas normas deixam margem para guerrilhas intermináveis entre os trabalhadores, sindicatos e as empresas ou, na maioria dos casos, no silenciamento e submissão daqueles.Ora, a lei do trabalho deveria prevenir o conflito social, proporcionar o entendimento ,sendo clara nos direitos e deveres, em especial no mecanismo da negociação colectiva.

Como tem acontecido noutras revisões do Código o legislador atribui novas missões à Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) esquecendo que aquela institução fiscalizadora tem limitações nas atribuições e nos recursos humanos e financeiros.A ACT é uma espécie de saco para onde o legislador envia a ação de fiscalização que decorre de uma nova norma legal.É o caso do teletrabalho e do trabalho em plataformas digitais.Como resultado temos os trabalhadores e outros cidadãos a dizerem que a ACT nada faz.

As novas alterações ao Código do Trabalho não visam um regresso ao passado antes da Troika,ou seja, não repõem totalmente direitos dos trabalhadores importantes como as indemnizações no caso de despedimento e outras que obrigariam a uma valorização do trabalho e punição dos despedimentos.Como em toda a Europa as alterações legislativas no trabalho flexibilizam e pretendem aliviar as empresas de encargos com os trabalhadores facilitando a competitividade e os lucros.

Uma lacuna grave nesta revisão tem a ver com o silencio sobre as necessárias melhorias no domínio da segurança e saúde no trabalho, nomeadamente no que respeita à prevenção dos riscos psicossociais como o stresse laboral.Mas não nos podemos aqui alongar.Numa Agenda do trabalho digno ignorar a área da prevenção dos riscos profissionais,a área de vida e morte no trabalho,não é propriamente digno!

Perante estas críticas poderá o leitor dizer:então nesta revisão não existem pontos positivos?Claro que existem, nomeadamente na parentalidade, a criminalização do trabalho não declarado à segurança social e as normas relativas ao trabalho doméstico, embora algumas careçam de regulamentação.Embora com limitações de clareza as normas sobre teletrabalho e sobre a actividade em plataformas digitais podem significar avanços na proteção de milhares de trabalhadores.

As normas para limitar os contratos a termo e o recurso ao outsourcing também poderão melhorar a situação de alguns trabalhadores, embora na prática pouca eficácia poderão ter.Os advogados e gestores encontrarão formas de tornear estas questões!

 O PS  com estas alterações quer manter um «equilibrio» nas relações de trabalho que, no actual contexto de baixa actividade sindical e de alta flexibilidade,, nomeadamente de precariedade, é um claro desiquilibrio!Voltaremos a este assunto.

terça-feira, 4 de abril de 2023

ELOGIO AOS E ÀS SINDICALISTAS PORTUGUESAS!

 

Em 2021 ,pelos cinquenta anos da CGTP,o Presidente da República condecorou a


CGTP com o título de Membro Honorário do Infante D. Henrique.Na mesma altura a Secretária Geral daquela Central Sindical,Isabel Camarinha, diria que a condecoração é para « todas essas gerações de dirigentes sindicais, ativistas sindicais, trabalhadores, que contribuíram ao longo destes 50 anos para tudo em termos de transformação da nossa sociedade".Certa direita calou, mas não gostou!

Os sindicalistas e as sindicalistas foram motor das grandes transformações no País

Nos primeiros anos da nossa democracia, após o 25 de Abril, os sindicalistas estiveram na primeira linha da luta pelo derrube da ditadura iniciada pelos militares.Foi necessário destruir as instituições do fascismo e lançar as bases de novas instituições democráticas onde os trabalhadores participassem e não fossem estranhos ou reprimidos pelas mesmas.

Os sindicalistas foram motores de importantes e decisivos nas transformações económicas e protagonostas na luta pelos direitos laborais e sociais, nomeadamente na organização sindical em milhares de empresas,na promoção de centenas de comissões de trabalhadores, na luta contra a prepotência patronal, sabotagem e na fuga de dezenas de empresários que não tinham competências nem curriculo para enfrentar uma situação social nova de conflito.Houve desmandos?Houve,como em todos os processos de alto conflito social!

Foram os sindicalistas que nas empresas em autogestão aguentaram ,contra todos e contra tudo, os empregos e os salários de muitos trabalhadores.

Foram os sindicalistas que apoiaram uma Reforma Agrária, mesmo que não concordemos com o modelo, nos campos do Sul, muitos deles abandonados por latifundiários abstencionistas , autenticos senhores feudais.

Foram os sindicalistas que introduziram a luta pela melhoria das condições de trabalho, em particular a luta pela segurança e saúde dos trabalhadores;a luta por uma segurança social universal e participada pelos trabalhadores e seus representantes.Segurança no desemprego e na doença,pensões para todos os idosos!

Foram os sindicalistas que exigiram a negociação colectiva no sector privado e na Administração Pública,mecanismo essencial para a distribuição da riqueza e proteção dos trabalhadores.

Foram ainda os sindicalistas que no tempo da pandemia mantiveram a luta e a manifestação na rua, distanciados e de máscara.Nunca baixaram os braços, tal como centenas de milhares de trabalhadores que garantiram os bens essenciais à nossa sobrevivencia.

A condecoração, embora simbólica, foi assim bem merecida numa época em que se enaltece os chamados empreendedores, os ricos, os amorins e os sonaes ,que não fazem qualquer favor em empregar trabalhadores, pois saõ estes que lhes dão a imensa fortuna que possuem.

A ação dos sindicalistas é subvalorizada

Uma época em que a ação dos sindicalistas e sindicatos é subvalorizada e colocada à margem.Considera-se inclusive que o tempo de ação sindical é exagerado não se dando qualquer valor social e económico á ação sindical.Há estudos que mostram que as empresas com organização sindical são mais produtivas, mais dinâmicas, com melhores condições de trabalho.Como diz o Papa Francisco não existem trabalhadores livres sem sindicatos.

Lamentávelmente há trabalhadores que não valorizam a ação dos sindicalistas, exigem tudo deles, e valorizam mais os poucos maus exemplos do que a ação generosa, diária e sem horário de milhares de outros!

Convivi e trabalhei com dezenas de sindicalistas de várias regiões do País!Vi pessoas preocupadas com os trabalhadores,corajosas e dedicadas!Alguns estragaram ,inclusive, a sua carreira profissional, ficaram doentes e perderam anos de vida!Alguns perpetuaram-se nos seus cargos?É verdade!Alguns já nem tinham empresa para onde regressar!Outros acomodaram-se!

Falei várias vezes com sindicalistas perseguidos nos seus países.Todos os anos temos sindicalistas mortos e presos, nomeadamente no Brasil, na Bielorrússia, nas Filipinas!Basta ler os relatórios anuais da Confederação Sindical Internacional (CSI).As gerações pós abrilistas, e todos nós, muito devem aos sindicalistas!E é espantosa a ignorancia dos jovens sobre o nobre papel do sindicalista numa democracia!Por tudo isso só podemos dizer :honra aos milhares de sindicalistas,dirigentes,delegados e activistas sindicais!

 

terça-feira, 28 de março de 2023

AS LUTAS DOS PROFESSORES E O SINDICATO S.T.O.P

 

Caso esta grande mobilização dos profissionais da educação a que se juntaram os sindicatos da UGT da CGTP e independentes dê frutos para a classe docente o grande protagonista é , sem dúvida o Sindicato de Todos os professores S.T.O.P que tembém associa outros profissionais da educação e não poderá ser mais ignorado pelo Ministério da Educação e pelos outros sindicatos do sector.

Com a entrada em cena deste pequeno mas activo sindicato  a luta dos professores não apenas se


radicalizou mas também se alargou, ou seja, conseguiu mobilizar professores  e outros profissionais que raramente tinham participado nas lutas ou desiludidos, deu importância às comissões de greve, delegados sindicais e outros activistas,procurou envolver os encarregados de educação e os directores das escolas.Por outro lado, fez das suas fraquezas forças, ou seja ,não sendo capaz de ter gente para enquadrar as lutas permitiu uma certa espontaneidade dos participantes com palavras de ordem, declarações e cartazes e proprios, fazendo assim alguma diferença relativamente aos sindicatos mais antigos e mais disciplinados.

Por outro lado, a organização das chamadas greves «self service», plenários locais e outras iniciativas, lançaram uma grande perturbação nas escolas,levando ao estabelecimento, julgo que pela primeira vez, dos serviços mínimos.Serviços mínimos polémicos e de duvidosa legalidade.

Nas suas reivindicações o STOP pretende colocar em cima da mesa a degradação da Escola Pública e, em particular, as deficientes condições de trabalho, as injustiças no que respeita às carreiras, tempo de trabalho congelado e precariedade dos professores.

Todavia, a luta do STOP teve e tem algumas debilidades que não conseguiu e será dificil conseguir superar.Uma delas foi a questão da aliança com os outros profissionais da educação.Estes pertencem a outros sindicatos da Função Pública e têm reivindicações próprias que nem de perto nem de longe estiveram no caderno do STOP.Falou-se fala-se dos senhores professores,mas pouco da nossa classe, como dizia uma auxiliar de educação.Eram eles/as que sempre fechavam as escolas com as suas greves perante o «lavar de mãos» dos professores!Neste sentido muitos dos auxiliares de educação, actualmente assistentes operacionais, viram no apelo do STOP um certo oportunismo.

Outra debilidade natural foi que o Sindicato STOP não tinha quadros formados para dinamizar estas lutas, embora agora possa aproveitar os activistas que emergiram nestas lutas.A melhor formação é a ação, retirando lições dos erros cometidos.

Finalmente queremos acreditar que todos os sindicatos vão aproveitar esta situação para se aproximarem e convergirem na ação para que possam conseguir algumas reivindicações.A saúde física e psiquica dos profissionais de educação está em risco.São muitos os que esperam a aposentação como uma libertação! Grave!

A armadilha da competição sindical, do centralismo e do vanguardismo, apesar da unidade dos profissionais na base, pode matar esta luta resultando em frustração colectiva e em descrença generalizada.

Note-se que uma vitória dos professores mesmo que não a 100%, dará força a outros sectores profissionais revigorando a sua luta e melhorando as suas condições salariais e de trabalho.Este horizonte estará na mente dos governantes que apostam tudo« nas contas certas».Daí que será de evitar o «tudo ou nada»!