terça-feira, 13 de janeiro de 2026

QUE FUTURO PARA OS MOVIMENTOS CRISTÃOS DE TRABALHADORES?

 

Os Movimentos Operários da Ação Católica portuguesa, JOC e LOC/MTC, cumprem este ano 90 anos de atividade junto das classes trabalhadoras. Estes Movimentos perfazem, no entanto, um


século desde que foram lançados por um padre belga, Joseph Cardijn, bem conhecido dos católicos sociais de todo o mundo! O arquiteto em Portugal destes Movimentos foi outro padre, também conhecido nos referidos meios, o Padre Abel Varzim.

Em Portugal a história destas Organizações da Igreja Católica já tem vindo a ser estudada, embora ainda haja muito a investigar sobre a História do catolicismo social português e, nomeadamente, sobre os Movimentos que formaram gerações de jovens trabalhadores no assumir responsabilidades e empenhamentos sociais em ordem a mudar a sociedade e defender os direitos dos trabalhadores. Muitos destes jovens acabaram por ter importantes responsabilidades na sociedade portuguesa, nomeadamente no mundo do trabalho, na política, na educação e na cultura!

A ditadura de Salazar e a Ação Católica

Há, no entanto, um capítulo, entre outros, de toda esta fantástica história que ainda está pouco estudada, trata-se das relações entre a hierarquia católica portuguesa e estes Movimentos operários! Os mais velhos contam que o Cardeal Cerejeira, amigo e cúmplice de Salazar, dava «uma no cravo e outra na ferradura», mas aceitou os constrangimentos que o ditador impôs à Ação Católica Portuguesa, ou seja, a de se remeter ao que ele considerava «assuntos religiosos» e caritativos e nunca realizar qualquer ação que cheirasse a política! E porquê?

 Porque na mesma altura a ditadura estava a consolidar-se liquidando a oposição, em particular a sindical, e a construir o modelo corporativo e de partido único. Há estudos que apontam para o facto de Salazar temer a emergência em Portugal de um partido democrata cristão. Isto foi mais evidente ao cortar logo pela raiz, no início da década de trinta, a ideia dos católicos de criarem sindicatos.

A sedução inicial e desilusão posterior pelo modelo corporativo por parte dos dirigentes da Ação Católica parece hoje ser uma questão consensual. Foram muitos os militantes que aceitaram fazer parte das direções dos sindicatos nacionais e de outros organismos corporativos. É verdade que desde o início houve reticencias dos padres que tinham estudado em Louvaina. Para eles o modelo corporativo português não previa a liberdade associativa. E aí contrariava claramente a encíclica «Rerum Novarum”. O grande objetivo era «cristianizar o mundo do trabalho” e combater as ideias socialistas, em particular a ideia da luta de classes, propondo a colaboração de patrões e trabalhadores.

 

Durante décadas Cerejeira e restante hierarquia, bem como a maioria do clero conseguiram, de facto, com a ajuda do aparelho repressivo, manietar os Movimentos Operários. No entanto, o contacto dos militantes católicos com a realidade social e económica do país, nomeadamente a miséria dos salários e a falta de habitação digna, formação e qualificação foi importante para ir mudando as consciências.

Mas também foi importante a verificação de que nem os sindicatos nacionais nem o aparelho corporativo, e concretamente o Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, que regulava as relações laborais, defendiam os trabalhadores perante os patrões que se tornavam mais ricos enquanto a pobreza, e até a miséria, era o normal na maioria dos trabalhadores portugueses!

Paradoxalmente foi uma geração de padres assistentes dos Movimentos Operários que proporcionaram importantes mudanças nas décadas de 60 e 70 do século XX.O mundo estava a mudar a grande velocidade e o concílio Vaticano II proporcionou uma grande abertura ao social e ao empenhamento dos cristãos. Aos Movimentos chegou uma geração de líderes oriundos quase todos da Juventude Operária Católica que deram um novo rumo ao catolicismo social, combatendo a ditadura de diferentes maneiras e em diferentes movimentos de resistência até ao glorioso dia do 25 de Abril de 1974.

Estes católicos não tiveram apenas problemas com a repressão e censura, mas também com a própria hierarquia da Igreja Católica. Essa realidade marcou profundamente um número considerável de militantes cristãos que abandonaram as suas referências religiosas, mas continuaram a dar contributos significativos à sociedade portuguesa e à luta pela democracia.

A Igreja Católica desistiu do mundo do trabalho?

Uma questão importante a investigar seria a partir da seguinte interrogação: O apoio da Hierarquia aos Movimentos foi diminuindo ao longo do século XX e não foi revertido no século atual. Para além dos conflitos políticos com os Movimentos a razão deste menor apoio tem a ver com o facto dos mesmos já não serem movimentos de massas, mas muito mais de quadros? Ou será porque a maioria do clero não teve em Portugal formação adequada sobre estas matérias? Ou será ainda que a Igreja Portuguesa desistiu do mundo do trabalho? Ou será ainda porque considera os objetivos e estrutura dos Movimentos questões ultrapassadas, não adequadas a uma pastoral moderna?

Embora a Igreja Portuguesa seja das mais pobres da Europa, não creio que o não apoio consistente à pastoral operária seja por falta de dinheiro.

Responder a estas questões é fundamental para repensar o futuro da pastoral operária e dos Movimentos. A caminho de um século creio que seria muito importante fazer uma reflexão sobre estas matérias com frontalidade, utilizando até o método da própria Ação Católica: ver a realidade-julgar-e agir em conformidade! Não é justo que não se enfrente a realidade, que não se tenha a coragem de dizer: «não, não vamos por aí, o trabalho não é a nossa prioridade pastoral. São as jornadas da juventude com muito folclore e sentimento».

Ou dizer: «não, as estruturas da Ação Católica fizeram história, mas já não servem…»

Mas num momento histórico tão importante como o que estamos a viver em que graças ao avanço tecnológico o trabalho está a mudar de lugar e de natureza, a exploração e escravidão podem por isso mesmo aumentar gerando riqueza apenas para uma minoria, a Igreja Católica abandone o mundo do trabalho e o destino dos trabalhadores! Mais, deixa de proclamar claramente a sua doutrina social considerada hoje, por muitos e pelo capital, um «manifesto esquerdista»!

 

 

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