Finalmente foi publicada a Estratégia Nacional para a Segurança
e Saúde no Trabalho 2021-2027 que decorre da respetiva estratégia europeia
publicada em 2021! O documento andou de Anás para Caifás desde o governo de
Costa, sendo Ana Mendes Godinho ministra do trabalho e profissional dos quadros da ACT!
Curiosamente este documento tardio é mau e não aproveita o trabalho da Comissão
do Livro Verde sobre a mesma matéria.
O documento agora publicado reconhece na sua introdução que «o número de acidentes de
trabalho e doenças profissionais apresenta uma tendência de redução, mas ainda com valores preocupantes, acima da média da UE.» Esconde, no entanto, que os acidentes mortais chegaram a subir após o Covide 19 interrompendo uma curva descendente de décadas! Esconde que nos últimos anos pouco ou nada se tem feito neste domínio da melhoria das condições de segurança e saúde no trabalho!
Na mesma introdução reconhece-se, porém, um dos principais
problemas do nosso sistema de prevenção dos riscos profissionais quando se
afirma: “Atualmente, a estrutura dos serviços de SST no tecido empresarial
nacional é desadequada, com reduzido número de empresas a adotar soluções de
serviços internos e de trabalhadores designados para o exercício das atividades
de segurança no trabalho. É, pois, necessário enquadrar as soluções mais
adequadas nesta matéria».
Não vai ao fundo do problema: as empresas optam por serviços
externos por uma questão de poupanças! O documento não aponta soluções
credíveis para resolver esta dinâmica de negócio que se instituiu ao facilitar,
mesmo a empresas médias e grandes, os serviços externos!
Revisão da legislação, sim, mas para melhorar
A Estratégia Nacional divide-se por quatro eixos» No primeiro
eixo, «Capacitação», são incluídas medidas que permitem ampliar a
assimilação da SST no sistema educativo e de formação profissional, reforçando
a necessidade de criação de uma cultura de prevenção e de «Visão Zero».
Preconiza-se, também, a revisão do atual quadro legislativo e técnico para a
SST, cuja complexidade é reconhecida como um obstáculo ao seu cumprimento pelas
micro, pequenas e médias empresas (PME). Complementarmente, este eixo inclui
medidas de informação e criação de materiais informativos para a difusão das
boas práticas nacionais e internacionais, nesta área.»
Há uma medida importante neste eixo. Esperamos que haja uma
revisão e atualização da legislação introduzindo medidas relativas à prevenção
dos riscos psicossociais, e alterações climáticas. Temos receio que ao se falar
numa Lei Geral de SST, quando já temos uma, possa haver recuos e não avanços na
proteção dos trabalhadores. Temos de estar atentos porque com este governo as
revisões podem dar tudo às empresas e nada ou muito pouco aos trabalhadores!
Os serviços de segurança e saúde externos não resolvem o problema
O segundo eixo, dedicado ao «Acompanhamento que estimula a
criação de ferramentas técnicas, apoiadas em novos paradigmas tecnológicos»,
tem como objetivo conferir maior autonomia aos sistemas de segurança e saúde
nas empresas. Pretende-se, simultaneamente, aumentar as ações de promoção da
segurança e de ambientes de trabalho saudáveis com o foco no bem-estar dos
trabalhadores, e reforçar a ação inspetiva pública, que é essencial ao
cumprimento das normas de SST.
Neste eixo temos uma boa intenção de algo que
deveria ter sido logo regulamentada em
2009. A Regulamentação da organização e funcionamento dos Serviços de Saúde
Ocupacional nas Unidades Locais de Saúde e demais estabelecimentos do Serviço
Nacional de Saúde. Mas, com o que se passa com o SNS quem acredita nesta promessa?
O terceiro eixo, denominado «Conhecimento para melhor
preparar o sistema e atores nacionais de SST», alicerça-se na
melhoria das fontes de informação e da análise de dados, vulnerabilidade
identificada nas ENSST anteriores, no estímulo à investigação nesta área e na
implementação de novos instrumentos de recolha de informação, privilegiando-se
a realização de um levantamento nacional sobre o estado da SST nos vários
setores económicos.
Inquérito às condições do trabalho deveria ser anual
Finalmente, a ENSST2026-2027 gravita em torno de um quarto eixo
de «Diálogo Social», que privilegia a concertação dos parceiros
sociais e institucionais em todos os níveis de intervenção na área da SST.
Neste eixo volta-se a prometer um inquérito nacional às
condições de trabalho para 2027.Lembro que o último e único inquérito realizado
até agora, em 2017, demorou, creio eu, uns sete ou oito anos a ser publicado!
Não tenho dúvidas sobre a necessidade deste instrumento de trabalho para
conhecer a realidade! Em Espanha já se fizeram alguns doze ou treze edições
deste inquérito, sendo quase anual!
Tenho a sensação de que esta Estratégia tardia foi apenas para
preencher calendário! Foi um doloroso parto em que se andou a patinar numa
matéria tão importante, precisamente quando na OIT se confirmou a promoção da
segurança e saúde dos trabalhadores como direito fundamental! Será que o
Movimento sindical não vai reagir a «este fazer que se faz» num domínio tão
importante para a vida dos trabalhadores?

Sem comentários:
Enviar um comentário