sexta-feira, 27 de março de 2026

A EXTREMA DIREITA E O SINDICALISMO EM PORTUGAL

 

Em tempos escrevi neste blogue sobre a vontade do Chega em criar sindicatos influenciados pela


sua própria ideologia. Ventura comunicou inclusive que o seu partido iria criar o «Solidariedade», um sindicato com a sua ideologia e com a carga simbólica do Solidarnosc que enfrentou e venceu a ditadura militar polaca no último quartel do século XX! Uma das suas inspirações seria o partido VOX da vizinha Espanha que também criou há anos um sindicato direitista com pouco mais de 10 mil filiados.

A verdade é que após o anúncio feito em 2022 nunca mais Ventura falou sobre o assunto e o Programa do Chega nesta matéria é muito lacónico o que ainda pode ser mais preocupante. Será que o Chega desistiu deste objetivo? Creio que não. O Chega tentou efetivamente criar uma organização sindical tendo feito alguns contactos exploratórios sobre a matéria com alguns sindicatos. Todavia, em Portugal a tradição sindical em democracia vai na linha da independência dos sindicatos face aos partidos embora estes influenciem aqueles tanto na CGTP como na UGT.

Sei que tanto a UGT como a CGTP estão relativamente preocupados com esta questão em particular a primeira. Alguns sindicalistas que militam ou militaram nos TSD (tendência social-democrata) e na USI (União de Sindicatos Independentes) e em sindicatos da UGT foram contaminados pelas ideias do partido Chega! Recentemente também apareceu a FENISAP, uma federação com três pequenos sindicatos independentes que também tem gente ligada aquele partido. Há anos que que esta formação política procura infiltrar os sindicatos das forças de segurança ,aliás como as suas congéneres europeias!

A Greve Geral de 11 de dezembro passado convocada pela CGTP e pela UGT teve a adesão de quase todos os sindicatos independentes, incluindo os sindicatos da USI.

 Há espaço  para um sindicato de extrema-direita em Portugal?

A rápida subida eleitoral do Chega mostra que uma fração do eleitorado do PSD/CDS e cidadãos abstencionistas se radicalizaram e mobilizaram com o programa daquele partido. Podemos dizer que existe um espaço político direitista concreto onde pode germinar um sindicato com algum peso afeto à extrema-direita. Mas tal realidade exigiria a convergência de um conjunto de condições sociais, culturais e políticas, nomeadamente de formação de quadros sindicais.

Por outro lado, existe uma certa fadiga e erosão nos sindicatos tradicionais em geral afetos à esquerda e centro-direita. Há trabalhadores descrentes da ação coletiva uns, e outros que consideram os sindicatos partidarizados e incapazes de defender os seus direitos! Algumas críticas dos militantes do Chega aos atuais sindicatos podem ter eco em alguns trabalhadores.

Todavia, não existe em Portugal uma tradição sindical direitista se excluirmos os sindicatos nacionais corporativos que eram obrigatórios e controlados pela ditadura! O movimento de Rolão Preto do nacional sindicalismo foi uma ideologia de mistura de integralismo lusitano e fascismo italiano com poucos militantes organizados!

A extrema-direita é prisioneira de uma contradição importante relativamente a esta matéria sindical. Por um lado, odeia os sindicatos de classe, enaltece o empresariado mesmo quando ataca alguns empresários e ataca a luta de classes propondo a colaboração entre capital e trabalho; por outro, defende os sindicatos profissionais, não políticos, que não façam greves e colaborem com os patrões. Principalmente pretende um sindicato que dispute a rua aos sindicatos de esquerda, que sabote as greves, que acabe com os sindicatos de trabalhadores.

A Extrema direita portuguesa não tem efetivamente uma estratégia sindical clara nem um corpo doutrinal mobilizador e coerente para além de velhas ideias corporativas e subservientes das empresas.

Se estivermos atentos a posição do Chega no processo da negociação do pacote laboral sofre algumas variações ao longo dos tempos. Por um lado, é um partido financiado pelos empresários e, por outro, que influenciar sindicatos, quer dar uma no cravo e outra na ferradura!

Compete aos sindicatos de classe, com tradição e história, desmascarar estes objetivos do Chega nos locais de trabalho! O Chega quer um sindicato para destruir os nossos sindicatos livres que nasceram com a Revolução de Abril!

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