Alguns setores empresariais, nomeadamente católicos,
continuam a falar em cooperação entre o capital e o trabalho, entre a
necessária e profícua colaboração entre empresas e trabalhadores, para eles «colaboradores».
A Igreja Católica considera, inclusive, desde a «Rerum Novarum» que tal
objetivo é essencial à boa economia e ao bem comum.
Historicamente tal tese tem beneficiado muito mais os lucros das empresas do que os bolsos dos
trabalhadores, incluindo o célebre período a seguir à segunda grande guerra mundial em que existiu na Europa um pacto social com benefícios, apesar de tudo, significativos para os trabalhadores.
Entre as duas grandes guerras agudizou-se o conflito social
em todo o mundo e em particular na Europa, o Movimento Operário ganhou força
com a Revolução Russa, impuseram-se grandes coletivos de trabalhadores e
grandes lutas por melhorias das condições de trabalho e de vida. Em vários
países assistimos a uma ascensão das ideias e regimes fascistas onde a teoria e
a prática foram a imposição de uma colaboração entre o capital e o trabalho,
estando a greve proibida e as organizações livres de trabalhadores aniquiladas.
Aconteceu em Portugal na Espanha, Itália, Alemanha, Brasil etc. Muito pequeno
empresário morreu na praia, mas formaram-se grandes grupos económicos que
beneficiaram com a obrigatória «cooperação» entre capital e trabalho e que
muitos deles financiaram os regimes fascistas e autoritários!
A cooperação tripartida
Num contexto de crescimento económico do pós-guerra e de
reforço do poder sindical e do medo do comunismo conseguiu-se na Europa, e
noutros países que alcançaram a democracia liberal, um pacto social tendo por
base uma cooperação entre o capital e o trabalho não imposta, com mútuas vantagens.
Esta cooperação fez história no âmbito do projeto europeu com a aceitação de
órgãos institucionais paritários tendo por modelo o quadro normativo da OIT.
Os sindicatos mais representativos e associações
empresariais cooperam e recebem fundos para a formação e participação num
quadro de liberdade. Continuam a existir organizações sindicais que nunca
aceitaram este regime de cooperação por a considerarem um novo tipo de corporativismo
e domesticação do Movimento Operário.
Assim se construiu o que hoje na EU se chama de Diálogo
Social Europeu. É verdade que estamos perante um sistema de tipo corporativo,
mas com liberdade e sem obrigatoriedade como nos regimes fascistas e
autoritários!
Aqui a cooperação entre organizações de trabalhadores e empresas
pressupõe liberdade associativa e de ação sindical, negociação coletiva forte,
enfim. diálogo social sem subalternização ou exclusão de um dos parceiros.
Podem existir períodos de grande entendimento, mas também outros de grandes
crispações e lutas!
Neste debate alguns querem a capitulação dos sindicatos
Pedir a cooperação entre o capital e o trabalho num debate e
contexto de inflação alta e em que o objetivo é enfraquecer na lei laboral o
parceiro sindical e retirar dinheiro e tempo de vida a quem trabalha será pedir
a capitulação desse parceiro!
É o que tem acontecido neste debate sobre o pacote laboral
em que alguns setores empresariais lastimam que os sindicatos não aceitem as
teses do governo nas quais eles se reveem. Inclusive alguns membros da
Hierarquia Católica e setores empresariais voltam a falar em cooperação para o
bem comum! Continuam os equívocos do passado século? A cooperação entre o
capital e o trabalho não pode ser imposto quer seja por lei, quer seja
debilitando e excluindo algum parceiro, ou ainda comprando-o! É no conflito e na busca de
entendimento permanente, resolvendo os problemas dos trabalhadores e das
empresas que se pode chegar à tal cooperação! Com autonomia de cada parte,
respeitando a sua dignidade e história podemos superar qualquer conflito! Alguns
apelos à cooperação cheiram-me a submissão e aos tempos da «outra senhora»,
mesmo que venham embrulhados em papel da «Doutrina Social» da Igreja!

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