Há quem diga que a reforma laboral que o governo AD pretende
fazer não tem pertinência. Para o
governo tem pertinência dado que está alinhado com as teorias sobre a
competitividade e a guerra que assolam a Europa.
Os empresários mais fortes de toda a Europa constatam um conjunto de tendências favoráveis aos seus interesses, nomeadamente crescimento da extrema-direita, a estabilidade relativa do voto no centro-
direita, o desgaste dos sindicatos e dos partidos de esquerda, uma Comissão Europeia conservadora e virada para leste e um recente Relatório Draghi sobre a competitividade que é música para os ouvidos dos grandes empresários, banqueiros e acionistas.
A leitura que o governo e os empresários portugueses fazem é
simples, tendo os países de leste como referência: há que flexibilizar a lei
laboral, destruir o direito do trabalho que é um espartilho para a competitividade
e criação de lucros.Com a lei do mais forte a funcionar, sem proteção do trabalhador,
intensificam-se os horários de trabalho, despede-se com facilidade e pagam-se
em contrapartida melhores salários a quem efetivamente os merecer aos olhos dos
patrões, claro!
Juristas, empresários e políticos, que em geral vivem numa bolha
e não são assalariados, acham esta narrativa lógica e interessante para os seus
interesses.
Mas a vida de quem trabalha nas fábricas e nos campos leva-nos
a outras narrativas como por exemplo este pequeno texto de um testemunho de uma
sindicalista num encontro sobre saúde mental nos locais de trabalho: “Isto
está a ir longe demais. Estamos a perder a humanidade.” Porque é isto que
vemos: A trabalhadora que chorou no balneário, escondida, para ninguém ver. A
que desmaiou na máquina porque já não tinha forças. A que foi humilhada pela
chefia à frente de toda a gente. A que deixou de dormir por causa das metas
impossíveis. A que perdeu a alegria porque o trabalho lhe tirou. Quando
chegamos aqui — e já chegámos — não estamos apenas perante um problema laboral.
Estamos perante um colapso moral. Um colapso das relações humanas. Um colapso
daquilo que deveria ser o mínimo: respeito, cuidado, palavra, dignidade…..»
Debatem-se artigos de uma futura lei, puxando cada um para a
sua barricada, os patrões portugueses estão dispostos a dar a estocada final
para submeter ainda mais os trabalhadores! Os políticos dizem que querem
melhores salários, mas é preciso criar mais riqueza, enfrentar a
competitividade da China e de outros países como a Polónia onde os sindicatos
estão submetidos a um partido conservador e iludidos com o crescimento
económico!
Esta gente gestora e empresarial não sabe o que é trabalhar
hoje na indústria e na agricultura e até nos serviços, como se vive com a
precariedade durante muitos anos! Não sabem o que é trabalhar em locais de
trabalho doentios anos seguidos e com salários incapazes de sustentar uma família!
Esta gente sabe de leis e de política, mas perdeu a humanidade, gerem pessoas como
se fossem coisas, sem respeito, sem humanidade! E, pasme-se, alguns até se
licenciaram na Universidade Católica como a atual Ministra do Trabalho!
Valha-nos Deus!!!
Falta gente que se indigne com o que se passa em muitos
locais de trabalho. São muitos os trabalhadores que não acreditam na inspeção
do trabalho e sentem uma impunidade total do chefe ou patrão! Aumenta o assédio
moral e sexual, que o silêncio encobre com medo de se perder o emprego! Falta
gente na Igreja Católica que seja profeta, que denuncie os ataques à dignidade
do trabalhador, faltam empresários que mostrem que nas suas empresas existe bem-estar
no trabalho e democracia. faltam sindicalistas mais audazes na luta pela
dignidade e saúde dos trabalhadores! Faltam políticos que experimentem as
agruras da vida de quem trabalha, que ouçam mais do que falam! Este não é o
caminho de um país democrático onde os trabalhadores são
chamados hipocritamente de «colaboradores» mas também de «mão de obra», «força
de trabalho “ou «recursos humanos» ou «capital humano»!

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