terça-feira, 30 de abril de 2024

PORQUE ESCONDEMOS O SOFRIMENTO NO TRABALHO?

 

Um recente estudo encomendado pela Associação Sindical dos trabalhadores dos impostos «revela que o ambiente laboral na Autoridade Tributária e Aduaneira Portuguesa enfrenta desafios significativos, com elevados níveis de stress ocupacional, exaustão e insatisfação entre os colaboradores. Os dados demonstram que o excesso de trabalho, as preocupações com a carreira e a remuneração são fontes proeminentes de stress. Além disso, uma parte considerável dos colaboradores expressa intenções de deixar a organização.»

As conclusões mostram que existe um stresse ocupacional relacionado com a carreira e a remuneração, mais de 76% dos inquiridos! Os níveis de bournout/exaustão quase atingem os 80%.


O estudo infelizmente pode ser consultado em inglês, existindo apenas um resumo em português na página web daquela associação sindical!O objetivo é sensibilizar o poder político para as condições de trabalho destes profissionais do Estado e ainda a opinião pública.

O poder político é pouco sensível às condições e qualidade do trabalho

Todavia, tal como aconteceu com outros estudos sobre as condições de trabalho de outras classes profissionais, enfermeiros,médicos e professores ou mineiros,o poder político pouco ou nada se sensibiliza com as conclusões dos mesmos e a opinião pública não muda a sua perceção negativa sobre os funcionários públicos.

Procurar as razões desta situação tem sido trabalho de vários investigadores sociais e uma das conclusões terá a ver com a maneira de como encaramos o trabalho dependente e, neste, as classes mais ou menos valorizadas pela população.Trata-se de uma questão cultural complexa para os sociólogos aprofundarem mais!

Antes de mais quase todos estamos aparentemente imunes ao sofrimento no trabalho, ao nosso e ao alheio!Quando nos queixamos ao patrão ,aos colegas e familiares quase sempre o fazemos com muito pudor e quase vergonha.Por outro lado, quase não sentimos grande solidariedade da parte destas pessoas: o patrão desconfia das nossas queixas,os colegas atiram-nos à cara as queixas maiores deles e os familiares mandam-nos ao médico de família.E mesmo este raramente nos manda falar da nossa profissão e das condições em como a executamos.

Temos a ideia formada de que o sofrimento no trabalho é normal!

Temos na nossa cultura, de raízes cristãs, como dado adquirido que o trabalho contém sempre um esforço, um suor no rosto!A percepção geral é a de que o trabalho,ou a maioria dos trabalhos, são penosos!Efetivamente sabemos que há um certo nível de erosão, de desgaste corporal e espiritual no exercício de qulquer profissão.Mas também temos a experiencia de que nos sentimos por vezes bem felizes com o trabalho realizado.

Generalizou-se assim a ideia de que o sofrimento no trabalho,independentemente do grau desse sofrimento, é normal!Quem se lamenta demonstra uma fraqueza,pouca resiliencia como agora se diz.Em geral culpabiliza-se a pessoa, o trabalhador, o gestor que não tem condições físicas ou psicológicas.O sistema empresarial oferece receitas individuais para superar o stresse,para ganhar resiliência,desde o yoga até ao ginásio,dias de férias extra, horários flexíveis etc.Fica sempre no ar a ideia de que o problema está na nossa pessoa e não na empresa e no ambiente de trabalho da mesma.

Todavia, perante a intensidade do trabalho e a carga psicológica do trabalho moderno, alicerçado nas modernas tecnologias,em que quase não existe fronteiras entre o trabalho e a nossa vida,todas as receitas individualistas  pouco adiantam.É um gastar de dinheiro e tempo inútil!

Hoje a causa principal do sofrimento no trabalho é a intensificação da exploração

A questão principal está na organização e gestão moderna do trabalho imposta pela intensificação da exploração capitalista!As grandes empresas multinacionais,com acionistas desconhecidos, exigem resultados aos seus gestores pagos a peso de ouro perante a competição mundial e a necessidade de aumentar os resultados.Estes,por sua vez, exigem resultados e objectivos irrealistas aos trabalhadores,fazem uma gestão empresarial perdedora e doentia aumentado a intensificação do trabalho  e reduzindo o pessoal;chefias e trabalhadores tornam-se descartáveis e avaliados de forma discricionária;as carreiras são destruidas em nome da polivalencia e flexibilidade!

Por vezes até recrutam médico do trabalho, psicólogos e organizam serviços de segurança no trabalho,previstos na lei, que se sentem impotentes perante as novas ameaças à saúde.Estes serviços estão claramente em crise!

Os serviços públicos entraram pelos caminhos da gestão privada!Menos pessoal,mais trabalho e maior complexidade de organização com as tecnologias modernas.O que acontece na Autoridade Tributária acontece noutras autoridades e serviços.As pessoas sentem-se maltratadas, não reconhecidas, sem o evoluir normal de uma carreira,sem salários que permitam uma vida digna!Entrar de férias ,em vez de permitir um descanso normal pode tornar-se um pesadelo no regresso com trabalho não realizado e amontoado.Os mais velhos sentem-se especialmente maltratados com chefias muito jovens e arrogantes que entraram pela via do cartão partidário!

Não se mudando a forma de trabalhar, em particular a organização do trabalho, estamos a criar organizações públicas e privadas doentes,fábricas de stresse e  bournout.O facto de pouco se falar nestas magnas questões ainda torna o problema mais grave!Veja-se os programas dos principais partidos,nomeadamente no governo.Nada, ou quase nada, aparece sobre estas matérias tão importantes para a nossa integridade física e mental!

Neste quadro a responsabilidade das organizações sindicais é grande!Todas as organizações de trabalhadores terão que colocar esta questão-a saúde dos trabalhadores-numa questão prioritária!

No dia 28 de Abril comemoramos todos os anos o Dia Mundial da Segurança e Saúde dos trabalhadores,uma efeméride da iniciativa do Movimento Sindical Mundial e da Organização Internacional do Trabalho.Lutemos unidos pela nossa saúde!Lembremos os milhões de trabalhadores mortos por acidente e doença pofissional!

 

Nota: Este artigo foi inicialmente publicado na página da BASE-FUT

www.basefut.pt


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