Os Movimentos Operários da Ação Católica portuguesa, JOC e LOC/MTC, cumprem este ano 90 anos de atividade junto das classes trabalhadoras. Estes Movimentos perfazem, no entanto, um
século desde que foram lançados por um padre belga, Joseph Cardijn, bem conhecido dos católicos sociais de todo o mundo! O arquiteto em Portugal destes Movimentos foi outro padre, também conhecido nos referidos meios, o Padre Abel Varzim.
Em Portugal a história destas Organizações da Igreja Católica
já tem vindo a ser estudada, embora ainda haja muito a investigar sobre a
História do catolicismo social português e, nomeadamente, sobre os Movimentos
que formaram gerações de jovens trabalhadores no assumir responsabilidades e
empenhamentos sociais em ordem a mudar a sociedade e defender os direitos dos
trabalhadores. Muitos destes jovens acabaram por ter importantes
responsabilidades na sociedade portuguesa, nomeadamente no mundo do trabalho, na
política, na educação e na cultura!
A ditadura de Salazar e a Ação Católica
Há, no entanto, um capítulo, entre outros, de toda esta
fantástica história que ainda está pouco estudada, trata-se das relações entre
a hierarquia católica portuguesa e estes Movimentos operários! Os mais velhos
contam que o Cardeal Cerejeira, amigo e cúmplice de Salazar, dava «uma no cravo
e outra na ferradura», mas aceitou os constrangimentos que o ditador impôs à Ação
Católica Portuguesa, ou seja, a de se remeter ao que ele considerava «assuntos
religiosos» e caritativos e nunca realizar qualquer ação que cheirasse a política!
E porquê?
Porque na mesma
altura a ditadura estava a consolidar-se liquidando a oposição, em particular a
sindical, e a construir o modelo corporativo e de partido único. Há estudos que
apontam para o facto de Salazar temer a emergência em Portugal de um partido
democrata cristão. Isto foi mais evidente ao cortar logo pela raiz, no início
da década de trinta, a ideia dos católicos de criarem sindicatos.
A sedução inicial e desilusão posterior pelo modelo
corporativo por parte dos dirigentes da Ação Católica parece hoje ser uma questão
consensual. Foram muitos os militantes que aceitaram fazer parte das direções
dos sindicatos nacionais e de outros organismos corporativos. É verdade que
desde o início houve reticencias dos padres que tinham estudado em Louvaina. Para
eles o modelo corporativo português não previa a liberdade associativa. E aí
contrariava claramente a encíclica «Rerum Novarum”. O grande objetivo era «cristianizar
o mundo do trabalho” e combater as ideias socialistas, em particular a ideia da
luta de classes, propondo a colaboração de patrões e trabalhadores.
Durante décadas Cerejeira e restante hierarquia, bem como a maioria
do clero conseguiram, de facto, com a ajuda do aparelho repressivo, manietar os
Movimentos Operários. No entanto, o contacto dos militantes católicos com a
realidade social e económica do país, nomeadamente a miséria dos salários e a
falta de habitação digna, formação e qualificação foi importante para ir mudando
as consciências.
Mas também foi importante a verificação de que nem os
sindicatos nacionais nem o aparelho corporativo, e concretamente o Instituto
Nacional do Trabalho e Previdência, que regulava as relações laborais,
defendiam os trabalhadores perante os patrões que se tornavam mais ricos
enquanto a pobreza, e até a miséria, era o normal na maioria dos trabalhadores
portugueses!
Paradoxalmente foi uma geração de padres assistentes dos
Movimentos Operários que proporcionaram importantes mudanças nas décadas de 60
e 70 do século XX.O mundo estava a mudar a grande velocidade e o concílio
Vaticano II proporcionou uma grande abertura ao social e ao empenhamento dos cristãos.
Aos Movimentos chegou uma geração de líderes oriundos quase todos da Juventude Operária
Católica que deram um novo rumo ao catolicismo social, combatendo a ditadura de
diferentes maneiras e em diferentes movimentos de resistência até ao glorioso
dia do 25 de Abril de 1974.
Estes católicos não tiveram apenas problemas com a repressão
e censura, mas também com a própria hierarquia da Igreja Católica. Essa
realidade marcou profundamente um número considerável de militantes cristãos
que abandonaram as suas referências religiosas, mas continuaram a dar
contributos significativos à sociedade portuguesa e à luta pela democracia.
A Igreja Católica desistiu do mundo do trabalho?
Uma questão importante a investigar seria a partir da
seguinte interrogação: O apoio da Hierarquia aos Movimentos foi diminuindo ao
longo do século XX e não foi revertido no século atual. Para além dos conflitos
políticos com os Movimentos a razão deste menor apoio tem a ver com o facto dos
mesmos já não serem movimentos de massas, mas muito mais de quadros? Ou será
porque a maioria do clero não teve em Portugal formação adequada sobre estas matérias?
Ou será ainda que a Igreja Portuguesa desistiu do mundo do trabalho? Ou será
ainda porque considera os objetivos e estrutura dos Movimentos questões
ultrapassadas, não adequadas a uma pastoral moderna?
Embora a Igreja Portuguesa seja das mais pobres da Europa, não
creio que o não apoio consistente à pastoral operária seja por falta de
dinheiro.
Responder a estas questões é fundamental para repensar o
futuro da pastoral operária e dos Movimentos. A caminho de um século creio que
seria muito importante fazer uma reflexão sobre estas matérias com frontalidade,
utilizando até o método da própria Ação Católica: ver a realidade-julgar-e agir
em conformidade! Não é justo que não se enfrente a realidade, que não se tenha
a coragem de dizer: «não, não vamos por aí, o trabalho não é a nossa prioridade
pastoral. São as jornadas da juventude com muito folclore e sentimento».
Ou dizer: «não, as estruturas da Ação Católica fizeram história,
mas já não servem…»
Mas num momento histórico tão importante como o que estamos
a viver em que graças ao avanço tecnológico o trabalho está a mudar de lugar e
de natureza, a exploração e escravidão podem por isso mesmo aumentar gerando
riqueza apenas para uma minoria, a Igreja Católica abandone o mundo do trabalho
e o destino dos trabalhadores! Mais, deixa de proclamar claramente a sua
doutrina social considerada hoje, por muitos e pelo capital, um «manifesto esquerdista»!








