A greve da TAP em curso convocada pelo
sindicato dos pilotos provocou não apenas uma avalanche de notícias e
comentários sobre a mesma, mas também um significativo número de artigos sobre
o sindicalismo, nomeadamente sobre o papel dos sindicatos e a sua representatividade
na sociedade portuguesa! Diga-se em abono da verdade que a maioria dos artigos
e comentários sobre esta matéria vieram de jornalistas, alguns dos quais de
jornais económicos e jornais ideologicamente à direita.
Na sua maioria foram
artigos que, aproveitando uma greve polémica, desancaram no sindicalismo
português fazendo assim mais um favor aos patrões que lhes pagam! Uma parte
deles isolam e manipulam alguns dados para levar o leitor a uma e só conclusão:
mais valeria não termos sindicatos! Pior ainda, alguns deles afirmam que estes
são destruidores da economia! Isto, meus senhores, é a ideologia fascista e
totalitaria no seu esplendor!
Temos um exemplo num artigo do Observador
que começa dizendo que os sindicalistas não representam os trabalhadores e
questiona que, sendo o Arménio Carlos eletricista, há quanto tempo não exerce a
profissão? Ora, isto, dito assim, é jornalismo demagógico!
Um ou outro artigo procurou ser mais
objetivo e questionar a prática sindical quer da CGTP quer da UGT, quer de
alguns sindicatos independentes. Devo dizer antes de mais nada que qualquer
cidadão é livre de escrever e falar sobre sindicalismo e não deve sentir
qualquer constrangimento. Todavia, ao escrever sobre a matéria, como aliás
acontece sempre, toma partido por mais neutro que pareça o seu discurso!
E a maioria dos articulistas que nestes
dias escreveram sobre a matéria mostraram um grande azedume e alguma ignorância
relativamente ao sindicalismo! Aproveitaram a greve da TAP para
oportunisticamente darem uma estocada ideológica nos sindicatos! Deram a
entender que a crise de sindicalização está relacionada com o facto de os
sindicatos serem reivindicativos, fazerem muitas greves e que o nosso
sindicalismo obedece às lógicas partidárias! Enfim, para eles o sindicalismo já
não existe nas empresas privadas e ainda existe no setor público porque aí os
trabalhadores ainda têm na sua maioria um emprego estável! E então isso é bom?
Ora, toda esta argumentação, embora com
alguma base na realidade, é uma argumentação política que esconde as
verdadeiras causas da crise do sindicalismo e tem como objetivo manipular o
conhecimento dos cidadãos/leitores.
Esconde que os sindicatos, tal como todas
as entidades historicamente situadas e que representam os cidadãos, estão em
crise, nomeadamente os partidos políticos e o associativismo em geral. Esconde
que as mudanças na legislação laboral e as mudanças no trabalho fragilizaram os
vínculos laborais de milhões de trabalhadores; que no setor privado quem faz
greve ou é sindicalizado fica na lista negra, ou seja, na calha para o
despedimento! Há medo em muitas empresas! Será que alguns destes escrivas não
sabem disso?
É verdade também que os sindicatos sentem
dificuldades em se renovarem, que usam uma linguagem que não capta as gerações
mais jovens que uma grande maioria de quadros está alinhada partidariamente!
Que, por vezes, se banaliza o recurso à greve!
Mas qualquer análise séria ao nosso
sindicalismo não pode ser leviana descurando dados essenciais de natureza
cultural, das mudanças no trabalho e na economia, nomeadamente da passagem do
capital produtivo para o financeiro e das novas tecnologias de comunicação!
Os erros de um sindicato altamente
corporativo como é o dos pilotos não podem servir para atacar desta forma os
sindicatos e o sindicalismo! Não existe democracia sem organizações livres e
autónomas, nomeadamente de trabalhadores!