sábado, 24 de janeiro de 2015

STRESSE E GESTÃO!

Enquanto se fazem palestras, seminários e campanhas sobre o stresse laboral não falta gente a colocar como critério de recrutamento de trabalhadores a capacidade de resistir ao mesmo, do viver com doses consideráveis de stresse como um valor. Encontramos inclusive em alguns sistemas de avaliação do desempenho o item, considerado favorável, de resistir ao stresse.
 É óbvio que são os gestores ou os consultores de recursos humanos que fazem estes instrumentos de recrutamento e de avaliação. Eles consideram uma qualidade interessante a capacidade de trabalhar em contexto de stresse, ou seja, a de trabalhar numa situação de permanente superação de obstáculos e de enfrentar solicitações desproporcionadas face aos meios ao seu dispor, enfim, de alcançar inclusive objetivos que se revelam pouco realistas. Temos casos muito concretos nomeadamente na saúde onde retiram meios humanos, logísticos e técnicos e exigem simultaneamente mais rendimento aos trabalhadores, mais carga horária, mais procedimentos burocráticos. 
A chamada gestão empresarial dos hospitais exige a «racionalização», a redução de custos permanente. Consequências? Aumento do stresse e da fadiga no pessoal médico e de enfermagem, a falta de camas, aparelhos clínicos, a concentração de meios cirúrgicos e naturalmente o erro, a asneira, a falta de tempo para atender todos os doentes de forma conveniente! E o próprio trabalhador? Como se sente? A imprensa vai dando conta. 
Os técnicos do INEM, os enfermeiros e médicos dos hospitais que se sentem em «bournout», queimados, desgastados! Mas, o mais chocante é que na prática se mandem às ortigas todas as recomendações e medidas de prevenir o stresse, ou gerir o stresse como alguns gostam mais de dizer! Queremos «salvar» o Serviço Nacional de Saúde destruindo física e mentalmente os seus trabalhadores? Queremos maior produtividade sem condições de trabalho? Não é possível, ou seja, poderá ser possível num tempo muito curto até á falência humana. 
O que vemos é que ao discurso da melhoria das condições de trabalho sucede na prática em vários setores o retrocesso da qualidade do trabalho, nomeadamente o aumento das horas de trabalho, o esmagamento dos preços nas subcontratações, estagnação de salários, a precariedade, o assédio e a ausência de condições de segurança e saúde no trabalho. Na base desta realidade está uma filosofia de gestão que apenas pensa no aumento dos lucros dos acionistas e dos generosos salários dos gestores! É a tal «economia que mata» segundo uma expressão feliz do Papa Francisco.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

REQUALIFICAÇÃO NA SEGURANÇA SOCIAL-processo miserável!

O processo tortuoso de requalificação de trabalhadores na Segurança Social é o caso exemplar da maneira como nos dias de hoje se gere o Estado. Processo conduzido de forma trapalhona pelos dirigentes daquele Instituto, eivado da ideologia privatizadora e conservadora que anima o Ministério de Mota Soares.
 É um caso que se pretende exemplar no sentido de meter medo aos trabalhadores da Função Pública para que estes, com medo do desemprego, estejam calados, aceitem as diretivas do governo e não façam greve! Se o processo não visa a redução de pessoal através do despedimento porque não foram discretos e funcionais nas formas de gestão? Porque não colocar os funcionários onde são precisos sem lhes cortar os salários e sem os mandar para uma espécie de limbo antes de caminharem para o inferno? 
Este processo é o primeiro de outros, dizem os responsáveis políticos! Logo neste processo todos os trabalhadores deveriam lutar sem tréguas contra esta tentativa de despedimento! Mas, infelizmente a reação da maioria dos trabalhadores foi ausente, a de quem espera que lhe queimem as barbas antes de agir. Os sindicatos do setor acompanham e fazem o que podem, mas não existe uma força das bases a condenar este miserável processo! Se vamos pagar por isto? Claro que vamos, e muito!Basta ver as recentes declarações da Ministra das Finanças sobre redução de pessoal no Estado!!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A GRANDE OPERAÇÃO!

Nos últimos tempos, em particular com o aproximar do ato eleitoral na Grécia, ocorrem «oportunas»
declarações de dirigentes da direita europeia, da Comissão Europeia e de outros centros de poder político, financeiro e económico no sentido de avisar, leia-se amedrontar, que devem continuar os mesmos a governar aquele país, ou seja os defensores da austeridade e da penalização social e económica dos pobres e trabalhadores! 
De repente, e neste contexto, aparecem os atentados em Paris e Bruxelas atribuídos a radicais muçulmanos em que um dos alvos principais foi um célebre jornal humorístico francês. Parece até que o cérebro do atentado teria fugido para a Grécia! Olha que fuga tão oportuna!
 O sentimento expandido pelos «media» e comentadores de serviço é que estamos numa guerra em plena Europa que vai virar as comunidades muçulmanas contra os europeus cristãos e laicos. Os setores militaristas e securitários bem colocados no aparelho dos Estados, bem como a extrema – direita, não perdem tempo e pedem mão dura, medidas extraordinárias, vigilância dos cidadãos e das fronteiras.Com isto matam de uma cajadada dois coelhos: reforçam o seu poder nos aparelhos e assustam os europeus que perante um mundo caótico pedem mais segurança e menos liberdade, ficando menos predispostos para mudanças eleitorais à esquerda. 
De facto, estamos perante uma grande operação política na Europa! Não digo uma conspiração porque é algo mais complexo. São várias dinâmicas, que podem inclusive ser autónomas, mas que objetivamente criam os mesmos efeitos: o medo e a necessidade de mais segurança! Que fique claro que não estou aqui a justificar os atentados de Paris! Nada, mas mesmo nada, justifica que se mate alguém, seja por que causa for!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

FORMAÇÃO PROFISSIONAL MELHORA SAÚDE MENTAL DOS TRABALHADORES!

Investigadores sociais portugueses estudaram o impacto positivo da formação profissional na saúde mental dos trabalhadores quer estejam empregados ou desempregados. Joaquim Eurico Valentim Oliveira, José Fernando Cabral Pinto e Rita Barros da Unidade de Investigação em Educação e Tecnologias Educativas do Piaget de Vila Nova de Gaia apresentam este estudo num artigo do nº 129 Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, tendo como base uma tese de doutoramento sobre o mesmo tema apresentada na Universidade de Santiago de Compostela.
 Os investigadores inquiriram 210 trabalhadores residentes em contexto suburbano no norte de Portugal. Nos resultados os autores afirmam «verificamos que a - auto percepção de saúde mental por parte dos trabalhadores é mais favorável após a frequência e conclusão de curso de formação profissional, quer na situação em que os sujeitos se encontrem empregados que se encontrem desempregados…» A formação profissional reforça a confiança dos trabalhadores num contexto de incertezas e de complexidade.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

CONDIÇÕES DE TRABALHO NO INEM! QUE É ISTO?

Um estudo interno realizado em 2013 por uma psicóloga do INEM, em colaboração com a comissão de trabalhadores, indicava que 75% dos técnicos de ambulâncias estava em burnout (35% em burnout alto e 40% em burnout médio) - um distúrbio de carácter depressivo ligado à vida profissional. "Na prática, é estar num ponto limite, em que ou se cai em depressão, ou o trabalhador acaba por se despedir", explica ao i o presidente do Sindicato dos Técnicos de Ambulância de Emergência, Ricardo Rocha. 
Nos últimos anos, conta o responsável, o INEM tem assistido a um crescente número de suicídios entre trabalhadores, assim como despedimentos e baixas psiquiátricas. "Os trabalhadores não são suficientes e acabam por ter condições de trabalho inimagináveis", garante.
Por cada turno extra de oito horas, o trabalhador do INEM recebe 22,50 euros, mas ao exceder os seis turnos extra por mês, deixa de receber esse valor porque esse já excede em 60% o seu salário. Apesar de fazer questão de apresentar estes números, o presidente do sindicato esclarece que as reivindicações salariais não são uma prioridade. "Queremos apenas que respeitem os trabalhadores, dando melhores condições de trabalho, o que passa pela contratação de mais colegas", refere. O INEM está a aguardar a decisão da tutela relativamente à abertura de concurso externo para a contratação sem termo de 110 novos Técnicos de Emergência, mas o presidente do sindicato garante que esse número é insuficiente. "Com a quantidade de pessoas que se despediu ou que entrou em baixa, são precisos, pelo menos, mais 250 trabalhadores", salienta.
Vítor Bezerra, responsável pela Comissão de Trabalhadores do INEM, lembra que para a realização do estudo sobre o burnout, os mais de 400 técnicos de ambulância tiveram que anotar o seu dia-a-dia profissional, referindo os pontos positivos e negativos. Além disso, foram entrevistados repetidas vezes pela equipa de psicologia do INEM. "Os resultados espantaram toda a gente", lembra, acrescentando que "em qualquer outra situação, esta seria uma empresa em risco de fechar". Depois dos resultados terem sido divulgados internamente, a antiga direcção organizou sessões entre os trabalhadores e a equipa de psicologia do INEM e foram criados sessões de grupo, "ao estilo alcoólicos anónimos", refere Vítor Bezerra, onde os trabalhadores podiam partilhar o seu dia-a-dia profissional. "Tudo isso acabou com a entrada do novo presidente", garante.
A comissão de trabalhadores explicou ao i que já tentou, sem sucesso, junto da direcção que o trabalho seja agora alargado para os trabalhadores que atendem e tratam as chamadas de emergência, acreditando que, neste caso, o número seria ainda maior. Há alguns meses que o INEM se debate com um atraso no tempo de atendimento de chamadas que, segundo alguns técnicos contactados pelo i, já terão levado à morte de pacientes. No dia 2 de Janeiro, por exemplo, o tempo médio de atendimento de uma chamada rondava os dois minutos, quando o tempo padronizado pelo INEM é de 7 segundos.
 Sobre essa altura do mês em específico, o INEM justifica o atraso com o mais elevado número de chamadas feitas. Fonte oficial admite que o tempo de atendimento "está na casa dos segundos", podendo ter-se verificado um ligeiro aumento de segundos relacionados com o acréscimo do número de chamadas para as centrais do INEM, mas que não se reflecte nos tempos globais de resposta às emergências.(Jornal I de 12 de janeiro de 2015).

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

RISCOS NO TRABALHO COM MÁQUINAS: Campanha inédita em Portugal!

A Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) em parceria com os Parceiros Sociais, Institucionais e Técnicos, promove, no dia 23 de janeiro, no ISCTE, em Lisboa, a Sessão de Lançamento da Campanha de Prevenção de Riscos Profissionais em Máquinas e Equipamentos de Trabalho, esperando-se cerca de meio milhar de participantes vindos de todo o país, representantes da Comissão Europeia e da Inspeção do Trabalho e Segurança Social de Espanha onde também se irá realizar uma campanha idêntica. No ano de 2013 apurou-se que foram objeto de inquérito pela ACT 141 acidentes de trabalho mortais, em toda a atividade económica, sendo particularmente relevantes os ocorridos na construção, na indústria transformadora e na agricultura. Relativamente aos acidentes de trabalho ocorridos com a utilização de máquinas e de equipamentos de trabalho concluiu-se que, nesse ano, foram objeto de inquérito 57 acidentes de trabalho mortais, representando cerca de 40% do total dos acidentes mortais. Esta realidade, constatada pela ACT em Portugal e por entidades congéneres noutros países europeus como a vizinha Espanha, é a principal razão desta iniciativa inédita à qual aderiram associações sindicais e empresariais, bem como entidades de algum modo relacionadas com a produção, comercialização e normalização de máquinas e equipamentos de trabalho. As ações a desenvolver pela Campanha serão diversificadas, com um enfoque particular na informação, sensibilização, formação e inspeção, decorrendo em todo o território continental durante o ano de 2015. Na Abertura da Sessão de Lançamento estão previstas intervenções do Inspetor-Geral da ACT, Pedro Pimenta Braz, de Maria Teresa Moitinho de Almeida, Chefe de Unidade da DG EMPL da Comissão Europeia, de Rafael Martin Mesas, Subdiretor-Geral da Inspeção do Trabalho e Segurança Social de Espanha e do Reitor do ISCTE, Luís Reto. No decorrer da sessão estão ainda agendadas numerosas intervenções de natureza técnica e de Parceiros Sociais e Institucionais, nomeadamente, da CGTP, da UGT, da AECOPS, do CICCOPN, do CATIM, do CENFIC da ASAE e do ISQ. O encerramento está previsto para as 16H15 horas, sendo antecedido pela assinatura do Protocolo da Campanha que, de algum modo, assinala o compromisso de todos os parceiros nesta iniciativa de informação, sensibilização, formação e inspeção visando a redução da sinistralidade laboral.

SAÚDE NO TRABALHO EM 2015

O novo ano de 2015 terá que resolver algumas velhas heranças no domínio das condições de trabalho deixadas sem explicações pelo ano de 2014.Aponto apenas duas que são um verdadeiro exemplo de como funcionam as instituições em Portugal, ou seja, como funcionamos enquanto pessoas e povo.
 Trata-se do inquérito nacional às condições de trabalho, previsto na estratégia nacional para a segurança e saúde no trabalho 2008-2012, sendo logo a medida 1 do primeiro objetivo deste documento aprovado pela Resolução 59/2008 do Conselho de Ministros. A outra é a mais que badalada questão do amianto nos edifícios públicos. Sobre estas duas questões espero que a nova Estratégia Nacional 2015-2020 diga algo de substancial para além de meras generalidades e boas intenções.Com efeito, não se compreende que em Portugal nunca se tenha realizado um verdadeiro inquérito às condições de trabalho dos portugueses para conhecermos de forma mais científica a realidade e podermos gizar políticas de promoção da segurança e saúde com maior eficácia.
O que se passou até agora sobre esta questão é verdadeiramente significativa de como funciona o Estado em Portugal. Temos grupos de trabalho que se eternizam e não apresentam conclusões, decisões que se protelam, falta de vontade em investir nestas matérias. Mas o problema não respeita apenas ao Estado. Alguns parceiros sociais também não consideram esta questão prioritária.
Quanto á existência do amianto nos edifícios públicos há que reconhecer que não é uma questão de fácil resolução. Mas esta é mais uma razão para se agarrar na mesma com unhas e dentes pois está em causa a vida de pessoas! O comportamento do governo nesta matéria foi oportunista e revela um desprezo soberano pela vida dos portugueses, quer sejam os funcionários quer os cidadãos utentes!
O governo constituiu um grupo de trabalho de alto nível para enfrentar esta questão. Todavia, até agora apenas fez uma listagem dos edifícios que terão, porventura, materiais de amianto. Não organizou equipas técnicas para avaliar os riscos dos edifícios e tomar medidas. Entretanto, alguns porta-vozes, mais avalizados sob ponto de vista técnico, vieram a público gritar contra o alarmismo promovido pela comunicação social! Claro que foi o que o governo quis ouvir. Pois, afinal os riscos não serão assim tão grandes pensaram os governantes. Caiu assim o silêncio sobre uma questão muito grave para a saúde dos portugueses!